Por Dom Vital Corbellini, Bispo de Marabá – PA.

            O mês de agosto é celebrado em todas as comunidades do Brasil como o mês vocacional, cujo tema proposto pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) é: Cristo vive! Somos suas testemunhas. O lema é Eu vi o Senhor (Jo 20,18). Jesus venceu a morte e por isso ele vive para sempre, está junto do Pai e está conosco, de modo que ele se serve dos apóstolos e de outros discípulos e discípulas como suas testemunhas para que o seu nome seja anunciado para todas as pessoas. Santa Maria Madalena disse que viu o Senhor ressuscitado, tornando-se a apostola dos apóstolos. Ela disse para os discípulos que viu Jesus ressuscitado dentre os mortos. O Senhor Deus sempre chama pessoas para o serviço da palavra, da eucaristia, para o anúncio do Reino de Deus. Diante da proposta do Senhor, as pessoas respondem sim ao plano do Senhor.

Ao longo do mês vocacional aludiremos as vocações à vida sacerdotal, religiosa, matrimonial, laical. Somos convidados a viver uma vocação e a rezarmos ao Senhor pelo aumento de todas as vocações, para que haja pessoas disponíveis na ceara do Senhor. Nós temos consciência que as vocações são formas do chamado do Senhor para a realização de uma missão na família, na comunidade e na sociedade. Louvemos a Deus Uno e Trino pela diversidade das vocações, pela unidade no serviço, no amor na Igreja e no mundo.

Pela Sagrada Escritura chamou Deus pessoas.

O Antigo Testamento e o Novo Testamento colocaram exemplos diversos de chamados dados pelo Senhor para muitas pessoas, homens e mulheres para a vivência de seu amor no mundo. O chamado estava ligado à missão que a pessoa exerceria na comunidade, junto ao povo de Deus.

O Senhor chamou Abraão para sair de sua terra, Ur, para ir até a terra prometida (Gn 12,1) tornando-se o pai da fé, o pai de muitos povos (Rm 4,11). O Senhor também chamou Moisés para que ele fosse instrumento da graça do Senhor na libertação do povo de Israel no Egito (Ex 3,7-10). O Senhor chamou Ester, a rainha que defendeu o povo de Deus diante da ameaça de sua extinção no exílio, na qual ela pediu ao rei a sua vida e a vida de seu povo (Est 7,3). Ele chamou os profetas Elias (1 Rs 17,1-6), Isaias (Is 6,8)e Jeremias (Jr 1, 4-10), entre outros profetas, para que anunciassem o bem, denunciassem o mal junto ao povo de Israel e com outros povos. Os profetas convocavam o povo de Deus a vivência da vocação à aliança com Deus através dos mandamentos da lei para o seu povo. Muitas vezes o povo se manifestou infiel à vocação da aliança com o Senhor.

No Novo Testamento, João Batista apontou Jesus como o Cordeiro que tira o pecado do mundo(Jo 1,29), de modo que o seu chamado estava ligado ao Senhor. Com alegria e amor colocou-se Maria ao serviço do plano do Senhor em vista da salvação da humanidade e do mundo, aceitando ser a mãe de Jesus (Lc 1,38).

Jesus esteve na realidade humana e como o enviado do Pai e Ungido pelo Espírito Santo chamou os discípulos para estarem com ele, aprenderam dele a forma de como atuar, de como agir perante os desafios do mundo, sendo as suas testemunhas (Mc 3,13-19). Jesus fez os pescadores de peixes em pescadores de pessoas humanas, de modo que eles deixaram tudo e o seguiram (Mt 4,19-20). Antes de partir para a casa do Pai, enviou-os Jesus para o mundo para que fossem seus discípulos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ele garantiu a sua presença até o fim dos tempos (Mt 28, 19-20). Em Pentecostes, com a vinda do Espírito Santo entenderam os discípulos a importância do chamado do Senhor para o povo de Israel e para o mundo. O chamado no sentido bíblico é a participação do ser humano dado de uma forma generosa ao plano do Senhor em vista da redenção humana.

O chamado do Senhor a partir dos santos padres.

Os padres da Igreja, os primeiros escritores cristãos, após o NT também perceberam a importância do chamado do Senhor às pessoas, às comunidades cristãs, afirmando que Ele sempre estava na origem de toda e qualquer vocação em vista do engrandecimento de seu Reino. As pessoas colaboraram com o Senhor.

Jesus, o caminho da salvação

São Clemente Romano, bispo de Roma e papa do século I, colocou o dom da salvação em Jesus Cristo, como sendo o único caminho a ser alcançado pelas pessoas humanas. A salvação é encontrada em Jesus Cristo, o sumo sacerdote das ofertas, o auxílio da fraqueza humana. Através dele o olhar humano é fixado para assim alcançar as alturas celestes. Por meio dele abriram-se os olhos do coração humano para o reflorescimento da luz, para que mediante ele, as pessoas experimentassem o conhecimento imortal[1]. Segundo São Clemente as pessoas são chamadas a uma vida de unidade com Deus, com os irmãos e irmãs.

Igreja que presida no amor.

Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir, século I afirmou que a Igreja de Roma era a Igreja que presidia o amor, que portava a lei de Cristo, apontando ao nome do Pai. O fato era que o bispo de Roma, segundo Santo Inácio tinha a missão de coordenar todas as outras igrejas a partir da caridade[2]. A vocação do sucessor de Pedro era dada pelo amor a Cristo e aos irmãos e irmãs. O seu chamado seguia o Senhor pela vida de fraternidade em todos.

A vocação: o martírio.

Santo Inácio desejava dar a sua vida pelo Senhor. Sendo condenado ainda em Antioquia veio acorrentado até Roma, desejando sempre que fosse julgado com a sentença de morte, através do martírio. Nele percebeu-se o martírio, como uma espécie de vocação, de chamado do Senhor, para algumas pessoas preparadas para a vivência do amor na radicalidade com o Senhor. O bispo de Antioquia pediu aos romanos que não desejassem nada para ele, senão ser oferecido em libação a Deus, enquanto existia um altar[3]. Ele entendia a vivência da vida cristã desta forma pelo martírio onde ele seria não somente na palavra, mas o seria de fato encontrado como tal, cristão[4]. Assim ele seria o trigo de Deus, moído pelos dentes das feras, para que ele se apresentasse como trigo puro de Cristo[5].

A oração vocacional de São Policarpo.

A hora do martírio de São Policarpo de Esmirna, bispo e padre da Igreja, século II revelou uma vocação a ser dada e imolada ao Senhor Jesus Cristo. Ele foi um discípulo fiel do Senhor porque doou a sua vida pela Igreja e pelo Senhor. Antes do martírio e erguendo os olhos ao céu, disse o bispo que o Senhor Deus era todo-poderoso, Pai de seu Filho amado e bendito, Jesus Cristo, no qual recebeu o conhecimento do seu nome, Deus dos anjos e dos poderes, de toda a criação e de toda a geração de justos que vivem na sua presença. O bispo bendizia a Deus por tê-lo julgado digno daquele dia e daquela hora, por tomar parte entre os mártires, e do cálice de seu Cristo, para a ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo[6]. Ele entendeu o chamado como doação da vida para o Senhor e para as pessoas.

A vocação dos batismos de água e de sangue.

Tertuliano, padre da Igreja do Norte da África, séculos II e III, afirmou a importância da vivência da vocação batismal, porque é o sacramento que impulsionou à vida da comunidade, e também para a vida futura. Os fiéis são lavados de seus pecados, libertados para a vida eterna[7]. O autor africano também falou do outro batismo, aquele de sangue. Para os cristãos, há um segundo batismo, o de sangue no qual o Senhor falou para os discípulos (Lc 12,50), ainda que ele tivesse recebido o batismo de água. Jesus veio com a água e com o sangue, para ser batizado com água e glorificado com o sangue. Desta forma ele fez surgir de seu lado aberto na cruz, quando foi traspassado pela espada do soldado romano(Jo 19,34), os dois batismos, porque todos os que acreditassem no seu sangue sejam lavados com água e quanto foram lavados com a água sejam lavados também com o sangue. É este o banho verdadeiro[8], a doação da vida do fiel ao Cristo. Para Tertuliano a vivência do batismo na água era uma vocação para ser assumida na vida diária e aquela do sangue era para os seguidores do Senhor, através da luta do bem, da justiça e da fraternidade.

A vocação da vida cotidiana.

Sendo o martírio, a vocação sublime para os primeiros cristãos a ser alcançada, a prova máxima do amor da pessoa a Jesus Cristo, no entanto esta vocação não era dada a todos de modo que os autores cristãos também valorizavam a vida cotidiana como uma vocação muito importante até para o martírio e para a vida eterna. Os autores cristãos valorizavam o batismo, o seguimento a Jesus Cristo, sofredor, glorioso, ressuscitado, presente no serviço ao próximo, pela caridade, pelo amor a Jesus e aos outros. A cotidianidade das coisas assumidas com intensidade, a vida familiar, comunitária e social poderiam ser um martírio, uma vocação de doação, um sacrifício incruento, que se assumia através da oração, da eucaristia, da vivência da palavra de Deus, da superação do egoísmo, da partilha, no serviço aos irmãos e irmãs. Orígenes, padre alexandrino dos séculos II e III, falou do martírio público e o martírio diário[9].

A vocação da santidade no estado que vive.

Santo Agostinho, bispo de Hipona, séculos IV e V afirmou a vivência da santidade no estado em que a pessoa se situava, seja ao ministro consagrado, seja ao monge ou quem vivia na vida laical. O fato é que a vida de santidade é um chamado para todas as pessoas seguidoras do Senhor. Quem é justo empenha-se a ser sempre mais justo, buscando uma vida melhor(Ap 22,11)[10]. O bispo era ciente da importância de que todos tivessem com a exemplaridade da vida, a comunidade cristã, na qual as pessoas batizadas viviam a sua vocação[11]. Este ponto é dado também para a própria vocação onde as pessoas são chamadas a servir e amar a Deus, ao próximo como a si mesmo.

O chamado do Senhor é graça que vem do alto e é responsabilidade humana. Ele é feito na liberdade e no amor de modo que a pessoa responde sim ao plano de Deus, em Jesus Cristo, em unidade com o Espírito Santo.

 

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[1] Cfr. Clemente aos Coríntios, 36, 1-2. In: Padres Apostólicos. São Paulo, Paulus, 1995, pg. 49.

[2] Cfr. Inácio aos Romanos, Introdução. In: Os Padres Apostólicos, pg. 103.

[3] Cfr. Idem, 2,1-2, pg. 104.

[4] Cfr. Idem, 3,1-2, pg. 104.

[5] Cfr. Idem, 4,2, pg. 105.

[6] Cfr. Martírio de São Policarpo, 14, 1-2. In: Idem, pgs. 152-153.

[7] Cfr. Tertulliano, Il battesimo, 1,1. Texto critico di CCL 1, de J. G. Ph. Borleffs. Introduzione, traduzione, note e appendice, Attilio Carpin.Bologna, Edizioni San Clemente, Edizioni Studio Domenicano,  2011, pgs. 123.

[8] Cfr. Idem, 16,1-2, pg. 181.

[9] Cfr. Origene. Esortazione al martírio, n. 21. Roma, Pontificia Università Urbaniana, 1985. Ver também: Dom Vital Corbellini, O martírio na Igreja antiga. Brasília, Edições CNBB, 2019, pg. pg. 31.

[10] Cfr. Lettera 78,9. In: Opere di Sant`Agostino. Le Lettere. Roma, Città Nuova Editrice. 1992. Ver também: Giancarlo Ceriotti. La Pastorale delle vocazioni in S. Agostino. Palermo, Edizioni Augustinus, 1991, pg. 64.

[11] Idem, pg. 64.