por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2 da CNBB
foto VaticanNews

A Solenidade da Epifania do Senhor, marcada pelo fechamento da Porta Santa, não é apenas um rito de conclusão, mas um poderoso chamado à reflexão sobre como acolhemos a manifestação de Deus em nossas vidas e na Igreja. A homilia do Santo Padre Leão XIV, proferida na manhã deste 6 de janeiro de 2026, nos convida a revisitar o contraste fundamental entre a alegria dos Magos e o turbamento de Herodes e de Jerusalém.

O Paradoxo da Manifestação Divina

Sempre que Deus se revela, a ordem estabelecida é desafiada. A alegria da Epifania — a luz que surge — sempre traz consigo o risco da perturbação para aqueles que se acomodaram na sua “tranquilidade”, repetindo que “não há nada de novo debaixo do sol”. O medo de Herodes, que desejava controlar ou manipular a busca dos Magos para seu próprio proveito, ecoa em nossos dias. Ele representa a resistência àquilo que foge ao nosso controle e à lógica do poder.

O Evangelho, no entanto, nos ensina que a verdadeira alegria do Evangelho liberta “torna-nos prudentes, mas também audazes e criativos”.

O Chamado a Ser Homo Viator

A Igreja é interpelada a reconhecer e valorizar o dinamismo de seus fiéis o “Homo viator”, o homem em caminho. Milhões de peregrinos atravessaram a Porta Santa durante o Jubileu buscando algo mais profundo. A pergunta essencial dos Magos ainda é a nossa “Onde está Aquele que nasceu?” (Mt 2,2).

Nossas igrejas e comunidades não podem se tornar meros monumentos; elas devem ser casas que difundem o perfume da vida e a certeza de que “um outro mundo começou”. Devemos resistir à eficiência mundana que reduz tudo a produto e o ser humano a consumidor, focando na gratuidade que é a essência do Menino que os Magos adoraram.

A Força das Realidades Humildes

A mensagem final é de encorajamento. Deus não se encontra nos lugares de prestígio, mas nas realidades humildes. Assim como Ele se deixou encontrar em Belém, Ele ainda surpreende, e Seus caminhos não são os nossos. Se a Igreja resistir unida aos encantos dos poderosos, tornando-se um lugar onde a esperança floresce, seremos, de fato, a “geração da aurora”.

“Que possamos, a exemplo de Maria, Estrela da Manhã, seguir a luz que transforma a humanidade não pela onipotência, mas pelo amor encarnado”, disse Papa Leão XIV em sua homilia, que pode ser lida, na integra, abaixo.

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SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR –
FECHAMENTO DA PORTA SANTA E SANTA MISSA
CAPELA PAPAL

HOMILIA DO SANTO PADRE LEÃO XIV

Basílica de São Pedro
Terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Caros irmãos e irmãs,

O Evangelho (cf. Mt 2, 1-12) descreveu-nos a imensa alegria dos Magos ao rever a estrela (cf. v. 10), mas também o turbamento provado por Herodes e por toda Jerusalém diante da sua busca (cf. v. 3). Sempre que se trata das manifestações de Deus, a Sagrada Escritura não esconde este tipo de contrastes: alegria e turbamento, resistência e obediência, medo e desejo. Celebramos hoje a Epifania do Senhor, conscientes de que na Sua presença nada permanece como antes. Este é o início da esperança. Deus revela-Se e nada pode ficar parado.

Termina um certo tipo de tranquilidade, aquela que faz os melancólicos repetirem: «Não há nada de novo debaixo do sol» (Ecl 1, 9). Começa algo de que dependem o presente e o futuro, como anuncia o Profeta: «Levanta-te, veste-te de luz, porque vem a tua luz, a glória do Senhor brilha sobre ti» (Is 60, 1).

Surpreende o facto de ser precisamente Jerusalém, cidade testemunha de tantos novos começos, a estar perturbada. No seu interior, precisamente quem estuda as Escrituras e pensa ter todas as respostas parece ter perdido a capacidade de colocar perguntas e de cultivar desejos. Pelo contrário, a cidade fica assustada com quem vem de longe, movido pela esperança, a ponto de sentir uma ameaça naquilo que, ao contrário, lhe deveria dar muita alegria. Esta reação interpela também a nós, como Igreja.

A Porta Santa desta Basílica, que, por último, hoje foi fechada, conheceu o fluxo de inumeráveis homens e mulheres, peregrinos de esperança, em caminho para a Cidade de portas sempre abertas, a Jerusalém nova (cf. Ap 21,25). Quem eram e o que os movia? Interpela-nos com particular seriedade, ao termo do Ano Jubilar, a busca espiritual dos nossos contemporâneos, muito mais rica do que talvez possamos compreender. Milhões deles atravessaram o limiar da Igreja. O que encontraram? Que corações, que atenção, que correspondência? Sim, os Magos ainda existem. São pessoas que aceitam o desafio de arriscar cada um a sua própria viagem, que num mundo conturbado como o nosso, por muitos aspetos repelente e perigoso, sentem a exigência de ir, de procurar.

*Homo viator, diziam os antigos. Somos vidas em caminho. O Evangelho impele a Igreja a não temer tal dinamismo, mas a apreciá-lo e a orientá-lo para o Deus que o suscita. É um Deus que nos pode perturbar, porque não está parado nas nossas mãos como os ídolos de prata e de ouro: é, antes, vivo e vivificante, como aquele Menino que Maria teve nos braços e que os Magos adoraram. Lugares santos como as Catedrais, as Basílicas, os Santuários, que se tornaram meta de peregrinação jubilar, devem difundir o perfume da vida, a impressão indelével de que um outro mundo começou.*

Perguntemo-nos: há vida na nossa Igreja? Há espaço para aquilo que nasce? Amamos e anunciamos um Deus que põe novamente em caminho?

No relato, Herodes teme pelo seu trono, agita-se por aquilo que sente estar fora do seu controlo. Tenta aproveitar-se do desejo dos Magos e procura dobrar a sua busca a seu próprio proveito. Está pronto a mentir, está disposto a tudo; o medo, de facto, cega. A alegria do Evangelho, no entanto, liberta: torna prudentes, sim, mas também audazes, atentos e criativos; sugere caminhos diferentes daqueles já percorridos.

Os Magos levam a Jerusalém uma pergunta simples e essencial: «Onde está Aquele que nasceu?» (Mt 2,2). Quão importante é que quem atravessa a porta da Igreja sinta que o Messias ali acabou de nascer, que ali se reúne uma comunidade na qual surgiu a esperança, que ali está em curso uma história de vida! O Jubileu veio para nos recordar que se pode recomeçar, aliás que estamos ainda no início, que o Senhor quer crescer entre nós, quer ser o Deus-conosco.

Sim, Deus põe em questão a ordem existente: tem sonhos que inspira também hoje aos seus profetas; está determinado a resgatar-nos de antigas e novas escravidões; envolve jovens e idosos, pobres e ricos, homens e mulheres, santos e pecadores nas suas obras de misericórdia, nas maravilhas da sua justiça. Não faz barulho, mas o seu Reino já germina por todo o mundo.

A Porta Santa desta Basílica, que, por último, hoje foi fechada, conheceu o fluxo de inumeráveis homens e mulheres, peregrinos de esperança, em caminho para a Cidade de portas sempre abertas, a Jerusalém nova (cf. Ap 21,25). Quem eram e o que os movia? Interpela-nos com particular seriedade, ao termo do Ano Jubilar, a busca espiritual dos nossos contemporâneos, muito mais rica do que talvez possamos compreender. Milhões deles atravessaram o limiar da Igreja. O que encontraram? Que corações, que atenção, que correspondência? Sim, os Magos ainda existem. São pessoas que aceitam o desafio de arriscar cada um a sua própria viagem, que num mundo conturbado como o nosso, por muitos aspetos repelente e perigoso, sentem a exigência de ir, de procurar.

Homo viator, diziam os antigos. Somos vidas em caminho. O Evangelho impele a Igreja a não temer tal dinamismo, mas a apreciá-lo e a orientá-lo para o Deus que o suscita. É um Deus que nos pode perturbar, porque não está parado nas nossas mãos como os ídolos de prata e de ouro: é, antes, vivo e vivificante, como aquele Menino que Maria teve nos braços e que os Magos adoraram. Lugares santos como as Catedrais, as Basílicas, os Santuários, que se tornaram meta de peregrinação jubilar, devem difundir o perfume da vida, a impressão indelével de que um outro mundo começou.

Perguntemo-nos: há vida na nossa Igreja? Há espaço para aquilo que nasce? Amamos e anunciamos um Deus que põe novamente em caminho?

No relato, Herodes teme pelo seu trono, agita-se por aquilo que sente estar fora do seu controlo. Tenta aproveitar-se do desejo dos Magos e procura dobrar a sua busca a seu próprio proveito. Está pronto a mentir, está disposto a tudo; o medo, de facto, cega. A alegria do Evangelho, no entanto, liberta: torna prudentes, sim, mas também audazes, atentos e criativos; sugere caminhos diferentes daqueles já percorridos.

Os Magos levam a Jerusalém uma pergunta simples e essencial: «Onde está Aquele que nasceu?» (Mt 2,2). Quão importante é que quem atravessa a porta da Igreja sinta que o Messias ali acabou de nascer, que ali se reúne uma comunidade na qual surgiu a esperança, que ali está em curso uma história de vida! O Jubileu veio para nos recordar que se pode recomeçar, aliás que estamos ainda no início, que o Senhor quer crescer entre nós, quer ser o Deus-conosco.

Sim, Deus põe em questão a ordem existente: tem sonhos que inspira também hoje aos seus profetas; está determinado a resgatar-nos de antigas e novas escravidões; envolve jovens e idosos, pobres e ricos, homens e mulheres, santos e pecadores nas suas obras de misericórdia, nas maravilhas da sua justiça. Não faz barulho, mas o seu Reino já germina por todo o mundo.

Quantas epifanias nos são dadas ou estão prestes a nos ser dadas! No entanto, elas devem ser subtraídas das intenções de Herodes, dos medos sempre prontos a transformar-se em agressão. «Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus sofre violência e os violentos o arrebatam» (Mt 11,12). Esta misteriosa expressão de Jesus, relatada no Evangelho de Mateus, não pode deixar de nos fazer pensar em tantos conflitos com os quais os homens podem resistir e até mesmo ferir o Novo que Deus reserva para todos. Amar a paz, buscar a paz, significa proteger aquilo que é santo e, por isso mesmo, nascente: pequeno, delicado, frágil como um menino. À nossa volta, uma economia distorcida tenta lucrar com tudo. Vemos isso: o mercado transforma em negócio até a sede humana de procurar, de viajar, de recomeçar. Perguntemo-nos: o Jubileu nos educou a fugir desse tipo de eficiência que reduz tudo a produto e o ser humano a consumidor? Depois deste ano, seremos mais capazes de reconhecer no visitante um peregrino, no desconhecido um buscador, no distante um vizinho, no diferente um companheiro de viagem?

O modo como Jesus encontrou todos e se deixou aproximar por todos nos ensina a estimar o segredo dos corações que Só Ele sabe ler. Com Ele aprendemos a colher os sinais dos tempos (cf. Concílio Ecum. Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 4). Ninguém pode nos vender isso. O Menino que os Magos adoram é um Bem sem preço e sem medida. É a Epifania da gratuidade. Ele não nos espera nas “localizações” prestigiadas, mas nas realidades humildes. «E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as cidades principais de Judá» (Mt 2,6). Quantas cidades, quantas comunidades precisam ouvir isso: “Você não é de modo algum a última”. Sim, o Senhor nos surpreende ainda! Ele se deixa encontrar. Seus caminhos não são os nossos caminhos, e os violentos não conseguem dominá-los, nem os poderes do mundo podem bloqueá-los. Daí a grandíssima alegria dos Magos que deixam para trás o palácio e o templo e saem em direção a Belém: é então que reencontram a estrela!

Por isso, caros irmãos e irmãs, é belo tornar-se peregrinos da esperança. E é belo continuar a sê-lo, juntos! A fidelidade de Deus nos surpreenderá ainda. Se não reduzirmos as nossas igrejas a monumentos, se as nossas comunidades se tornarem casas, se resistirmos unidos aos encantos dos poderosos, então seremos a geração da aurora. Maria, Estrela da manhã, caminhará sempre à nossa frente! Em seu Filho contemplaremos e serviremos uma magnífica humanidade, transformada não por delírios de onipotência, mas pelo Deus que por amor se fez carne”.

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