por Dom Vital Corbellini
Bispo da Diocese de Marabá

A espiritualidade é dom de Deus e é também responsabilidade humana. É uma vida de comunhão com Deus tendo em vista o serviço e o amor às pessoas, sobretudo as mais necessitadas. A espiritualidade contribui para a unidade de fé, da vida e também alude-nos à vivência dos sacramentos da iniciação à vida cristã na família, na comunidade e na sociedade.

O exemplo de uma verdadeira espiritualidade dá-se em Jesus, pois Ele nos revela o Pai, concede-nos o amor do Espírito Santo. Como nos falam os evangelhos, retirava-se Ele freqüentemente na montanha para rezar, para louvar a Deus (cfr. Mc 6, 46; Lc 5,15-16). Ele testemunhou a importância da oração para com todos nós seguirmos uma vida de espiritualidade, com a oração cotidiana tendo como foco o engajamento familiar, comunitário e social. Nós somos chamados a ter uma espiritualidade para pensar, para rezar, refletir bem as coisas, as atividades, e agirmos bem em função do engrandecimento do Reino de Deus. Veremos a seguir como estes pontos foram desenvolvidos em Jesus, o Verbo de Deus Encarnado e nos santos padres, os primeiros escritores cristãos.

A forma da oração de Jesus

Desde criança, adolescente, Jesus praticava habitualmente a oração pessoal e comunitária junto ao seu povo, o de Israel. Ele subiu ao templo com Maria e José para celebrar as festas prescritas (cfr. Lc 2,41-42). Ele freqüentava as sinagogas em dia de sábado com os seus discípulos, onde normalmente havia a reunião do povo de Deus concluindo-se com a oração (cfr. Lc 4, 15-17). Ainda que Ele relativizou o templo, porque Jesus era o Templo verdadeiro, mas quando entrou no mesmo, em Jerusalém, desejou que aquele lugar fosse segundo a Escritura, uma casa de oração de modo que Ele mandou embora os vendedores de animais e de aves (cfr. Jo 2,14-17). Ele ensinou a melhor das orações, que é o Pai-Nosso na qual nós somos chamados a recitá-la todos os dias de nossas vidas (cfr. Mt 6,9-13). De fato o Senhor Jesus era ciente da importância da oração para agir conforme a vontade de Deus (cfr. Lc 18,1-8)[1].

A oração na vida dos santos padres

Seguindo Jesus e a Igreja, foram os santos padres pessoas de oração e de ação. Eles buscavam o testemunho de vida ligado ao Evangelho do Senhor[2]. A Didaqué, documento referente à Doutrina dos Apóstolos, século I afirmou a necessidade de rezar como o Senhor ordenou no Evangelho, o Pai-Nosso, recomendando aos fiéis de rezá-lo três vezes ao dia. O documento tinha presente também a oração sobre o cálice com vinho e o pão partido pela eucaristia. Tudo deveria estar em comunhão com o Senhor e a comunidade eclesial[3].A Igreja foi criando uma espiritualidade em unidade com o Senhor e com as pessoas que freqüentavam a comunidade eclesial[4]

A oração e o bem comum

A Carta de Barnabé, escrito no final do século I e início do século II ilustrou a importância da oração ligada ao bem comum, ao amor para com Deus, ao próximo e a si mesmo. O autor afirmou que não leva ao nada as pessoas consideraram-se inteligentes e sábias diante de si mesmas e das outras, se não tiver uma vida de oração. A pessoa torna-se espiritual, um templo perfeito para Deus quando ela se aplica ao temor de Deus, buscando o cumprimento dos mandamentos da Lei de Deus, para que a pessoa não viva na tristeza, mas sim na alegria e no amor[5].

A oração e a penitência

O Pastor de Hermas, escrito no século II disse à sua comunidade que a oração deve levar à uma conversão de vida, feita muitas vezes por penitências. Os mandamentos da Lei do Senhor são úteis para os que fazem penitência. As pessoas que assumirem a graça da penitência são convidadas a rejeitar os males como o egoísmo, a vaidade, a injustiça, para não cair na aniquilação, na condenação. Ele convidava os fiéis a revestir-se de toda a virtude de justiça, de amor para observar os preceitos do Senhor. Se de fato as pessoas caminharem conforme os mandamentos da Lei divina terão a vida em Deus[6].

A espiritualidade na vida eclesial

Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir, século I e início do século II afirmou que a espiritualidade se desenvolve na vida eclesial, na assembléia, lugar privilegiado da oração, feita na eucaristia, na obediência e na unidade com o bispo[7]. Ele colocava a precisão para todos os fieis caminharem com o pensamento de Deus. O fato é que Jesus Cristo é o pensamento do Pai, a sua imagem (cfr. Jo 14,9) da mesma forma os bispos que foram estabelecidos até os confins da terra, estão no pensamento de Jesus Cristo[8].

O revestimento de Cristo

Santo Inácio também reforçava a idéia que a vida espiritual é dada com muita oração consistindo no revestimento de Jesus Cristo, na sua vida de Encarnação, pela sua humanidade com todas as pessoas, e também na sua paixão, morte para participar da sua ressurreição[9]. O bispo desejava ser cristão de fato, não somente nas palavras, como seguidor de Jesus Cristo e de sua comunidade[10]. Prestes ao martírio, Ele também dizia ser o trigo de Deus para ser moído pelos dentes das feras, para que se apresentasse como trigo puro de Cristo[11].

A espiritualidade em Jesus Cristo: “Beber do cálice”

A oração de São Policarpo de Esmirna, bispo e mártir, século II antes de seu martírio colocou a espiritualidade de Jesus Cristo que foi aquela do “Beber do cálice”(cfr. Mt 20,22) que Jesus indagou os filhos de Zebedeu. O autor do martírio de São Policarpo realçou a unidade do Bispo que seria mártir em unidade com o Senhor Jesus. Ele erguendo os olhos ao céu louvava a Deus Uno e Trino por viver aquele momento na sua presença. Ele bendizia a Deus Pai por tê-lo julgado digno daquele dia e daquela hora, por tomar parte entre os mártires, e de beber do cálice do Cristo, em vista da ressurreição da vida eterna da alma e do corpo, na incorruptibilidade do Espírito Santo[12].

A espiritualidade une a fé, na presença do Senhor e a vida em vista de atuar bem conforme a Vontade de Deus. Ela nos encoraja para a vida comunitária e social porque a fé manifestada com Deus possibilita a fraternidade, o amor a Deus, ao próximo como a si mesmo. Jesus Cristo é o exemplo de uma espiritualidade encarnada, vivida até dar a sua própria vida por cada um de nós e pela humanidade. Os padres da Igreja como, cada um de nós busquemos este caminho de paz e de amor.

[1] Cfr. Giorgio Marchio. Pregare alla Schuola dei Padri. Marcianum Press, Venezia, 2012, pg. 39.

[2] Cfr. A. Hamman- A. Grappone. Spiritualità. In: Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. Institutum Patristicum Augustinianum, Roma. Marietti, Genova – Milano, 2008, pg. 5106.

[3] Cfr. Didaqué, 8-9. In: Os Padres Apostólicos. São Paulo: Paulus, 1995,  pgs. 352-353.

[4] Cfr. Louis Bouyer. Storia della Spiritualità. I Padri. Edizioni Dehoniane, Bologna, 2013, pg. 24

[5] Cfr. Carta de Barnabé, 4,11. In: Os Padres Apostólicos,  pg. 290.

[6] Cfr. Sexta Parábola, 61,3-4. Do Pastor de Hermas. In: Idem, pg. 228.

[7] Cfr. A. Hamman- A. Grappone. Spiritualità, pg. 5107.

[8] Cfr. Inácio aos Efésios, 3,2. In: Os Padres Apostólicos, pg. 83.

[9] Cfr. A. Hamman- A. Grappone. Spiritualità, pg. 5107.

[10] Cfr. Inácio aos Romanos, 3,2. In: Os Padres Apostólicos, pg. 104.

[11] Cfr. Inácio aos Romanos, 4, 1. In: Idem, pg. 105.

[12] Cfr. Martírio de São Policarpo, 14, 1-2. In: Ibidem, pgs. 152-153.