por Dom Antônio de Assis Ribeiro, SDB
Bispo da Diocese de Macapá

Nossa existência tem seu dinamismo: nascemos, crescemos, vivemos, caducamos e morremos! Mas, é bem verdade que nem todos seguem esse roteiro! Alguns nem nascem e já morrem no ventre materno; outros crescem, mas não vivem… Nem todos caducam, mas da morte ninguém escapa!

E assim: os anos passam, o físico enfraquece, o corpo adoece, a beleza se esgota e a saúde se perde; o trabalho termina, os negócios entram em crise, o dinheiro some e a fortuna desaba; a força se esvazia, as paixões passam e os prazeres se esgotam; o luxo se vai, a popularidade passa, a fama se acaba e os aplausos cessam; os desejos se frustram, os sonhos se vão e o orgulho se encontra com a morte!

Mas não estamos abandonados a nós mesmos, à deriva das nossas fragilidades: Que é o homem, Senhor, para cuidardes dele, que é o filho do homem para que vos ocupeis dele? O homem é semelhante ao sopro da brisa, seus dias são como a sombra que passa" (Sl 143,3-4).

O sentido da celebração da QUARTA-FEIRA DE CINZAS é aquele de nos recordar que a vida terrena é passageira, fugaz, frágil, vulnerável… As cinzas nos recordam aquilo que passou, que era, aquilo que perdeu todas as suas características específicas como o tamanho, peso, cor, cheiro, beleza, valor…

As cinzas nos advertem que nossa vida tem uma fonte, tem um sentido, uma meta! As cinzas nos convocam a cultivar a consciência da nossa “provisoriedade existencial”. Viver é estar passando… Mas cuidando do que não passa! Assim como tudo o que passa pelo fogo é reduzido às cinzas, aquele que passa pela morte perde tudo o que é próprio deste mundo! Somente resta a dimensão espiritual! As cinzas nos recordam o dever de cuidar daquilo que é eterno!

“Tu reduzes o homem ao pó, dizendo: «Voltem, filhos de Adão!» Mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou, uma vigília dentro da noite”… “Setenta anos é o tempo da nossa vida, oitenta anos, se ela for vigorosa. E a maior parte deles é fadiga e sofrimento, passam depressa, e nós morremos” (Sl 90, 3-4.10). Tudo o que é próprio do mundo é provisório! Nós estamos, mas não somos do mundo! (cf. Jo 17,14-16).

O salmo 90 (89) é uma profunda oração de súplica a Deus em que os fiéis reconhecem diante de Deus a brevidade e fragilidade da vida! Diante dessa realidade tão constrangedora é preciso o dom da fé que nos fornece o sentido da vida para viver serenamente apesar das fragilidades. Por isso os fiéis, em oração, suplicam ao Senhor da vida: “Ensina-nos a contar os nossos anos, para que tenhamos coração sensato!”. E renovam a esperança: “Que a bondade do Senhor venha sobre nós e confirme a obra de nossas mãos” (Sl 90,12.17).

A fragilidade humana não é maldição, é obra divina, faz parte da nossa condição de criaturas desde o princípio, pois o criador nos formou com uma dupla composição: corpo (dimensão material) – “nos modelou com argila” e alma (dimensão espiritual) – “soprou-lhe nas narinas um sopro de vida e o homem tornou-se um ser vivente” (Gn 2,7). A quaresma é tempo oportuno para o aprofundamento dessa realidade: tudo em nós depende do “sopro divino”. Por isso, a quaresma, bem-vivida, pode nos ajudar a combater a nossa tendência materialista, a aprofundar a beleza e a necessidade da vida espiritual.

A tradição bíblica confirma que, sem a fé em Deus, o homem não admite a sua condição de criatura frágil e, ao mesmo tempo, transcendente e imortal. Para aqueles que não tem fé, contemplando a caducidade da vida, a pensam de forma triste e trágica: «Nossa vida é curta e triste: quando chega o fim, não há remédio, e não se conhece ninguém que tenha voltado do mundo dos mortos. Nascemos por acaso, e depois seremos como se nunca tivéssemos existido” (Sab. 2,1-2). Muitos filósofos ateus tiveram o mesmo pensamento, sem fé, vivendo angustiados por causa da fragilidade da existência humana!

A Celebração do simbolismo das CINZAS tem como objetivo não somente nos levar a reconhecer a natural caducidade da vida material, mas também nos estimula a aprofundar o seu sentido e a nunca perder de vista a nossa vocação à imortalidade. Viemos de Deus e para Deus voltaremos! Aí está a nossa origem e vocação! A quaresma nos convoca a aprofundar a nossa vocação humana: a origem da nossa vida, sua dignidade (quem somos!) e vocação (para onde vamos!). Meditar sobre nós nos leva a oração de ação de graças, louvor e súplicas!

A nossa vocação à imortalidade feliz, nos recorda a exigência do amor, que nos garante a vida eterna! Portanto a quaresma é tempo oportuno para o exercício da Caridade, do crescimento na capacidade de amar; isso significa necessariamente o compromisso de qualificação da nossa relação com os outros: acolhida, escuta, diálogo, atenção, solidariedade, paciência, perdão, sensibilidade diante das necessidades alheias, compaixão… Não existe autêntica quaresma sem fraternidade, e nem fraternidade sem solicitude para com os outros. Nesse contexto de conversão, a Campanha da Fraternidade nos apresenta, todos os anos, um vasto horizonte de possibilidades. Boa quaresma!

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