por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2 da CNBB
Na Audiência Geral desta quarta-feira (28/01), realizada na Aula Paulo VI, no Vaticano, Papa Leão XIV deu continuidade ao ciclo de catequeses dedicadas aos Documentos do Concílio Vaticano II, aprofundando a Constituição dogmática Dei Verbum. O tema central foi a íntima relação entre a Sagrada Escritura e a Tradição, apresentadas como um único e inseparável “depósito sagrado” da Palavra de Deus confiado à Igreja.
Partindo de duas cenas bíblicas — o discurso de despedida de Jesus no Cenáculo e o envio missionário após a Ressurreição — o Pontífice recordou que a Palavra de Cristo não permanece presa ao passado, mas vive e se difunde ao longo dos séculos pela ação do Espírito Santo. Nesse horizonte, Escritura e Tradição não competem entre si: brotam da mesma fonte divina e caminham juntas para o mesmo fim, a salvação.
O Papa explicou que a Tradição apostólica progride na Igreja graças à assistência constante do Espírito Santo, manifestada na reflexão dos fiéis, na experiência espiritual do povo de Deus e, de modo particular, na pregação dos sucessores dos Apóstolos, portadores de um “carisma seguro da verdade”. Assim, a fé cristã não é estática nem fossilizada, mas uma realidade viva, capaz de crescer e se desenvolver sem perder sua identidade.
Citando Padres da Igreja e grandes mestres da fé, como São Gregório Magno e Santo Agostinho, o Papa ressaltou que a Escritura “cresce com quem a lê” e que o Verbo de Deus ressoa continuamente na história da Igreja. Nessa mesma linha, evocou o pensamento de São John Henry Newman, para quem a doutrina cristã se desenvolve como uma semente que cresce a partir de uma força vital interior.
Outro ponto forte da catequese foi o significado do termo “depósito da fé”, retomando a exortação de São Paulo a Timóteo. Trata-se de um conceito que implica responsabilidade: conservar, proteger e transmitir integralmente a fé recebida. Segundo o Papa, esse depósito continua hoje nas mãos da Igreja e deve servir de “estrela polar” para orientar os cristãos em meio às complexidades da história contemporânea.
Além da catequese, a Audiência Geral foi marcada por fortes mensagens pastorais e humanitárias. Recordando o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, celebrado na véspera, o Papa elevou uma prece por um mundo livre do antissemitismo, do preconceito e de toda forma de perseguição, renovando o apelo para que a comunidade internacional permaneça vigilante a fim de que horrores como o genocídio nunca mais se repitam.
Nas saudações aos fiéis de diversas línguas, o Pontífice dirigiu palavras de encorajamento às comunidades presentes e manifestou especial solidariedade ao povo de Moçambique, duramente atingido por inundações, assegurando orações pelas vítimas e proximidade aos desalojados. Ao recordar a memória litúrgica de São Tomás de Aquino, exortou jovens, doentes e recém-casados a encontrarem na fé, na cruz e na sabedoria do coração a força para viverem sua vocação cristã no mundo.
A Audiência Geral desta semana reafirmou, assim, o coração da mensagem cristã proposta pelo Concílio Vaticano II: uma fé enraizada na Palavra de Deus, vivida na Tradição da Igreja e aberta aos desafios do presente, sempre orientada pela ação do Espírito Santo e pelo compromisso com a dignidade de toda pessoa humana
Leia, na integra, abaixo, o discurso do Pontífice.
AUDIÊNCIA GERAL
Aula Paulo VI
Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Catequese. Os Documentos do Concílio Vaticano II.
Constituição dogmática Dei Verbum. 3.
Um único depósito sagrado.
A relação entre Escritura e Tradição
“Queridos irmãos e irmãs, bom dia e sejam bem-vindos!
Dando continuidade à leitura da Constituição conciliar Dei Verbum sobre a divina Revelação, hoje refletimos sobre a relação entre a Sagrada Escritura e a Tradição. Podemos tomar como pano de fundo duas cenas evangélicas. Na primeira, que se passa no Cenáculo, Jesus, em seu grande discurso-testamento dirigido aos discípulos, afirma: «Eu vos disse estas coisas enquanto ainda estou convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que eu vos disse. […] Quando ele vier, o Espírito da verdade, ele vos conduzirá à verdade plena» (Jo 14,25-26; 16,13).
A segunda cena nos conduz, por sua vez, às colinas da Galileia. Jesus ressuscitado se manifesta aos discípulos, que estão surpresos e cheios de dúvidas, e lhes confia uma missão: «Ide e fazei discípulos todos os povos, […] ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei» (Mt 28,19-20). Em ambas as cenas é evidente o vínculo íntimo entre a palavra pronunciada por Cristo e a sua difusão ao longo dos séculos.
É isso que o Concílio Vaticano II afirma recorrendo a uma imagem sugestiva: «A Sagrada Escritura e a Sagrada Tradição estão intimamente unidas e em constante comunicação entre si. Pois ambas, brotando da mesma fonte divina, formam, de certo modo, um todo e tendem ao mesmo fim» (Dei Verbum, 9). A Tradição eclesial se desenvolve ao longo do percurso da história por meio da Igreja, que guarda, interpreta e encarna a Palavra de Deus. O Catecismo da Igreja Católica (cf. n. 113) recorda, a esse respeito, um lema dos Padres da Igreja: «A Sagrada Escritura é escrita no coração da Igreja antes de o ser em instrumentos materiais», isto é, no texto sagrado.
Na esteira das palavras de Cristo que citamos acima, o Concílio afirma que «a Tradição de origem apostólica progride na Igreja com a assistência do Espírito Santo» (DV, 8). Isso acontece mediante a compreensão plena, através «da reflexão e do estudo dos fiéis», por meio da experiência que nasce de «uma compreensão mais profunda das realidades espirituais» e, sobretudo, mediante a pregação dos sucessores dos apóstolos, que receberam «um carisma seguro da verdade». Em síntese, «a Igreja, na sua doutrina, na sua vida e no seu culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo aquilo que ela crê» (ibid.).
É famosa, a esse respeito, a expressão de São Gregório Magno: «A Sagrada Escritura cresce com aqueles que a leem». [1] E já Santo Agostinho afirmava que «um só é o discurso de Deus que se desenvolve em toda a Escritura, e um só é o Verbo que ressoa na boca de tantos santos». [2] A Palavra de Deus, portanto, não é fossilizada, mas é uma realidade viva e orgânica, que se desenvolve e cresce na Tradição. Esta última, graças ao Espírito Santo, a compreende na riqueza da sua verdade e a encarna nas coordenadas mutáveis da história.
É sugestivo, nessa linha, aquilo que propunha o santo Doutor da Igreja John Henry Newman, em sua obra intitulada O desenvolvimento da doutrina cristã. Ele afirmava que o cristianismo, tanto como experiência comunitária quanto como doutrina, é uma realidade dinâmica, do modo indicado pelo próprio Jesus com as parábolas da semente (cf. Mc 4,26-29): uma realidade viva que se desenvolve graças a uma força vital interior. [3]
O apóstolo Paulo exorta por diversas vezes o seu discípulo e colaborador Timóteo: «Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado» (1Tm 6,20; cf. 2Tm 1,12.14). A Constituição dogmática Dei Verbum faz eco a esse texto paulino quando afirma: «A Sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um único depósito da Palavra de Deus confiado à Igreja», interpretado pelo «magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo» (n. 10). “Depósito” é um termo que, em sua matriz originária, tem natureza jurídica e impõe ao depositário o dever de conservar o conteúdo — que, neste caso, é a fé — e de transmiti-lo intacto.
O “depósito” da Palavra de Deus está também hoje nas mãos da Igreja, e todos nós, nos diversos ministérios eclesiais, devemos continuar a guardá-lo na sua integridade, como uma estrela polar para o nosso caminho na complexidade da história e da existência.
Em conclusão, caríssimos, escutemos ainda a Dei Verbum, que exalta o entrelaçamento entre a Sagrada Escritura e a Tradição: elas — afirma — estão tão estreitamente ligadas e unidas entre si que não podem subsistir de modo independente; e juntas, cada uma a seu modo, sob a ação de um único Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas (cf. n. 10).
Saudações
Saúdo cordialmente os peregrinos de língua francesa, em particular os alunos das diversas escolas e os estudantes da Universidade Católica da Vendée. Que São Tomás de Aquino, Doutor da Igreja, cuja memória celebramos hoje, nos guie na compreensão das Escrituras, que ele comentou com tanta sabedoria, para que possamos compreender o quanto Deus nos ama e deseja a nossa salvação. Que Deus vos abençoe!
Saúdo os peregrinos e visitantes de língua inglesa que participam da audiência de hoje, em particular os grupos provenientes da Escócia, Irlanda, Islândia, Austrália, Índia e Estados Unidos da América. Sobre vós e vossas famílias, invoco a alegria e a paz de nosso Senhor Jesus Cristo. Deus vos abençoe!
Queridos irmãos e irmãs de língua alemã, São Tomás de Aquino, cujo memorial litúrgico celebramos hoje, ajuda-nos com as suas obras a compreender cada vez melhor a Revelação divina. O exemplo deste Doutor da Igreja seja também para nós um estímulo a buscar o rosto de Deus e a descobrir a beleza da fé.
Saúdo cordialmente os peregrinos de língua espanhola. Peçamos ao Espírito Santo que nos assista para compreender a Palavra mediante “a contemplação e o estudo” e para termos “uma experiência íntima das realidades espirituais”, ajudados pela pregação dos sucessores dos Apóstolos, que receberam “o carisma seguro da verdade” (cf. DV, 8). Que Deus vos abençoe. Muito obrigado.
Dirijo uma saudação cordial às pessoas de língua chinesa. Queridos irmãos e irmãs, amai-vos uns aos outros assim como o Senhor vos ama. A todos concedo de coração a minha bênção!
Tenho a alegria de dar as boas-vindas aos peregrinos de língua portuguesa, especialmente ao grupo musical Camerata Antiqua de Curitiba, no Brasil. Queridas irmãs e queridos irmãos, o meu pensamento dirige-se sobretudo ao amado povo de Moçambique, atingido por inundações devastadoras. Ao rezar pelas vítimas, expresso a minha proximidade aos desalojados e a todos aqueles que lhes oferecem ajuda. Que o Senhor vos ajude e vos abençoe!
Saúdo os fiéis de língua árabe. Convido-vos a guardar o depósito da fé e a transmiti-lo com fidelidade, sempre iluminados pelo Espírito Santo, que conduz a Igreja à plenitude da verdade. Que o Senhor vos abençoe a todos e vos proteja sempre de todo mal!
Saúdo os fiéis de língua árabe. Convido-vos a guardar o depósito da fé e a transmiti-lo com fidelidade, sempre iluminados pelo Espírito Santo, que guia a Igreja rumo à plenitude da verdade. Que o Senhor vos abençoe a todos e vos proteja sempre de todo mal!
Saúdo cordialmente os peregrinos poloneses! Nestes dias, completam-se trinta e cinco anos do restabelecimento, na Polônia, do Ordinariato Militar, cuja missão é formar as consciências das pessoas dedicadas ao serviço de Deus e da Pátria. Que a fidelidade à Palavra de Deus e à Tradição da Igreja seja a bússola da ação pastoral, especialmente na administração dos sacramentos em situações de provação e perigo. A todos vós concedo a minha bênção!
APELO
Ontem celebrou-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, que causou a morte de milhões de judeus e de muitas outras pessoas. Nesta ocasião anual de dolorosa recordação, peço ao Todo-Poderoso o dom de um mundo sem mais antissemitismo e sem preconceito, opressão ou perseguição contra qualquer criatura humana. Renovo o meu apelo à comunidade das Nações para que permaneça sempre vigilante, a fim de que o horror do genocídio nunca mais recaia sobre povo algum e se construa uma sociedade fundada no respeito recíproco e no bem comum.
Dirijo a minha cordial saudação aos peregrinos de língua italiana, em particular às paróquias de Cristo Divino Trabalhador, em Ancona, e de São Miguel Arcanjo, em Manfredonia. Acolho com carinho os Bombeiros de Campobasso, a Associação dos Centros Sociais e os Comitês de Idosos das Marcas, bem como o Lions Club de Eboli-Battipaglia.
O meu pensamento dirige-se, por fim, aos jovens, aos doentes e aos recém-casados. Celebramos hoje a memória litúrgica de São Tomás de Aquino. O seu exemplo estimule vocês, queridos jovens — especialmente os estudantes da escola Flavoni de Civitavecchia e do Instituto Tirinnanzi de Legnano-Cislago — a seguir Jesus como verdadeiro mestre de vida e de santidade. A intercessão deste Santo Doutor da Igreja obtenha para vocês, queridos doentes, a serenidade e a paz que brotam do mistério da cruz, e para vocês, queridos recém-casados, a sabedoria do coração, para que cumpram generosamente a vossa missão na sociedade.
A todos, a minha bênção!”
