por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2
foto VaticanNews

Iniciou na tarde desta quarta-feira (7/01), a primeira sessão do Consistório Extraordinário, que acontecerá durante três dias, convocado pelo Papa Leão XIV, um evento crucial para a Igreja universal. Cerca de 170 Cardeais de todo o mundo reuniram-se para a abertura na Sala do Sínodo e para os trabalhos no Auditório Paulo VI, seguindo o método sinodal de diálogo e escuta, divididos em grupos.

O Santo Padre abriu os trabalhos sublinhando a profunda ressonância espiritual da data, imediatamente sucessiva à solenidade da Epifania do Senhor. Fazendo eco ao profeta Isaías, o Papa recordou que Cristo é a Luz dos povos, cuja glória deve resplandecer no rosto da Igreja, permitindo que as nações caminhem no meio das trevas do mundo.

A Missão como “Atração”

O cerne do discurso papal centrou-se no conceito de “atração” como força motriz da missão eclesial, um tema retomado e desenvolvido nos pontificados de Bento XVI e Francisco. O Papa Leão XIV reiterou que não é a Igreja que faz proselitismo, mas é Cristo que atrai a Si através da força do seu amor, a Charis ou Agapè.

“Só o amor é credível, só o amor é digno de fé,” afirmou o Pontífice, citando São Paulo e Santo Agostinho, sublinhando que a unidade e a caridade mútua entre os Cardeais são o primeiro e mais potente sinal do discipulado.

Colegialidade e Escuta Sinodal

Em linha com o espírito do Sínodo dos Bispos, os trabalhos do Consistório estão a decorrer segundo o método sinodal de diálogo e escuta, com os cardeais divididos em 21 grupos para abordar temas cruciais como Evangelii gaudium (a missão), Praedicate Evangelium (o serviço da Cúria), a sinodalidade e a Liturgia.

O Papa expressou a sua intenção de escutar profundamente as diversas experiências e sensibilidades presentes, colocando uma pergunta-guia para a discussão sobre os temas escolhidos: “Olhando para o caminho dos próximos um ou dois anos, que atenções e prioridades poderiam orientar a ação do Santo Padre e da Cúria sobre esta questão?”

Concluindo o seu apelo à colaboração fraterna, o Papa Leão XIV expressou uma nota de profunda necessidade e confiança no Colégio Cardinalício “Preciso contar com vocês”.

Este Consistório configura-se, portanto, não como um momento para produzir um texto final, mas como uma conversa fundamental para orientar o ministério petrino e fortalecer a comunhão e a fraternidade dentro da Igreja em vista dos desafios futuros.

Leia o discurso que o Papa dirigiu aos Cardeais, na integra, abaixo.

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Caríssimos Irmãos,

Tenho grande alegria em vos acolher e dar-vos as boas-vindas. Obrigado pela vossa presença! Que o Espírito Santo, que invocámos, nos guie nestes dois dias de reflexão e de diálogo.

Considero muito significativo o facto de nos termos reunido em Consistório no dia seguinte à solenidade da Epifania do Senhor, e gostaria de introduzir os nossos trabalhos com uma sugestão que provém precisamente deste mistério.

Na Liturgia ressoou o apelo sempre comovente do profeta Isaías: «Levanta-te e resplandece, Jerusalém, pois vem a tua luz, a glória do Senhor brilha sobre ti. Pois eis que a escuridão cobre a terra, e uma densa névoa envolve os povos; mas sobre ti resplandece o Senhor, a sua glória aparece sobre ti. Caminharão as nações à tua luz, e os reis ao esplendor do teu nascer» (Is 60,1-3).

Estas palavras fazem pensar no início da Constituição sobre a Igreja do Concílio Vaticano II. Leio na íntegra o primeiro parágrafo: «Cristo é a luz das nações: por isso, este sagrado Concílio, reunido no Espírito Santo, deseja ardentemente, anunciando o Evangelho a toda a criatura 

(cfr Mc 16,15), iluminar todos os homens com a luz de Cristo que resplandece sobre o rosto da Igreja. E, como a Igreja é, em Cristo, de algum modo o sacramento, ou seja, o sinal e o instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo o género humano, continuando o tema dos Concílios precedentes, pretende ilustrar com maior clareza aos seus fiéis e ao mundo inteiro a sua natureza e a sua missão universal. As presentes condições do mundo tornam mais urgente este dever da Igreja, para que todos os homens, hoje mais estreitamente unidos pelos vários laços sociais, técnicos e culturais, possam também alcançar a plena unidade em Cristo» (*Lumen gentium, 1).

Podemos dizer que o Espírito Santo, a distância de séculos, inspirou a mesma visão no profeta e nos Padres conciliares: a visão da luz do Senhor que ilumina a cidade santa – primeiro Jerusalém, depois a Igreja – e, refletindo-se nela, permite a todos os povos caminhar no meio das trevas do mundo. Aquilo que Isaías anunciava “em figura”, o Concílio o reconhece na realidade plenamente revelada de Cristo, luz das nações.

Os pontificados de São Paulo VI e o de São João Paulo II poderíamos interpretá-los globalmente nesta perspetiva conciliar, que contempla o mistério da Igreja todo inscrito no mistério de Cristo e assim compreende a missão evangelizadora como irradiação da inesgotável energia emanada do Evento central da história da salvação.

Os Papas Bento XVI e Francisco resumiram esta visão numa palavra: atração. O Papa Bento XVI fê-lo na Homilia de abertura da Conferência de Aparecida, em 2007, quando disse: «A Igreja não faz proselitismo. Ela desenvolve-se antes por “atração”: como Cristo “atrai todos a si” com a força do seu amor, culminado no sacrifício da Cruz, assim a Igreja cumpre a sua missão na medida em que, associada a Cristo, realiza toda a sua obra em conformidade espiritual e concreta com a caridade do seu Senhor». O Papa Francisco encontrou-se em perfeito acordo com esta abordagem e repetiu-a várias vezes em diferentes contextos.

Hoje, com alegria, eu a retomoo e partilho-a convosco. E convido-me a mim e a vós a prestar bem atenção àquilo que o Papa Bento XVI indicava como a “força” que preside a este movimento de atração: tal força é a Charis, é o Agape, é o Amor de Deus que se encarnou em Jesus Cristo e que no Espírito Santo é doado à Igreja e santifica cada uma das suas ações. De facto, não é a Igreja que atrai mas Cristo, e se um cristão ou uma comunidade eclesial atrai é porque através desse “canal” chega a seiva vital da Caridade que brota do Coração do Salvador. É significativo que o Papa Francisco, que começou com Evangelii gaudium «sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual», tenha concluído com Dilexit nos «sobre o amor divino e humano do Coração de Cristo».

São Paulo escreve: «Caritas Christi urget nos» (2Cor 5,14). O verbo sunechei diz que o amor de Cristo nos impulsiona, visto que nos possui, nos envolve, nos cativa. Eis a força que atrai todos a Cristo, como Ele mesmo profetizou: «Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim» (Jo 12,32). Na medida em que nos amamos uns aos outros como Cristo nos amou, nós somos seus, somos a sua comunidade e Ele pode continuar a atrair através de nós. De facto, só o amor é credível, só o amor é digno de fé.[1]

A unidade atrai, a divisão dispersa. Parece-me que isto se verifica também na física, tanto no microcosmo como no macrocosmo. Portanto, para ser uma Igreja verdadeiramente missionária, isto é, capaz de testemunhar a força atrativa da caridade de Cristo, devemos antes de mais nada pôr em prática o seu mandamento, o único que Ele nos deu, depois de ter lavado os pés dos discípulos: «Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros». E acrescenta: «Nisto todos reconhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13,34-35). Santo Agostinho comenta: «Por isto nos amou, para que também nós nos amemos mutuamente. Ao amar-nos, Ele deu-nos a ajuda necessária para que, pelo mútuo amor, nos unamos uns aos outros e, ligados pelos membros por um vínculo tão suave, formemos o corpo de tão excelso Cabeça» (Homilia 65 sobre o Evangelho de João, 2).

Caríssimos Irmãos, gostaria de partir daqui, desta palavra do Senhor, para o nosso primeiro Consistório e, sobretudo, para o caminho colegial que, com a graça de Deus, somos chamados a cumprir. Somos um grupo muito variado, enriquecido por múltiplas proveniências, culturas, tradições eclesiais e sociais, percursos formativos e académicos, experiências pastorais e, naturalmente, caracteres e traços pessoais. Somos chamados, antes de tudo, a conhecer-nos e a dialogar para poder trabalhar juntos ao serviço da Igreja. Espero que possamos crescer na comunhão para oferecer um modelo de colegialidade.

Hoje, num certo sentido, continuamos o memorável encontro que pude ter com muitos de vós logo após o Conclave, com «um momento de comunhão e de fraternidade, de reflexão e de partilha, visando apoiar e aconselhar o Papa na pesada responsabilidade do governo da Igreja universal» (Carta de convocação do Consistório extraordinário, 12 de dezembro de 2025).

Nestes dias teremos a oportunidade de experimentar uma reflexão comunitária sobre quatro temas: Evangelii gaudium, isto é, a missão da Igreja no mundo de hoje; Praedicate Evangelium, isto é, o serviço da Sé Apostólica, especialmente às Igrejas particulares; Sínodo e sinodalidade, instrumento e estilo de colaboração; Liturgia, fonte e cume da vida cristã. Por razões de tempo e para favorecer um aprofundamento real, apenas dois deles serão objeto de uma discussão específica.

Todos os 21 grupos contribuirão para a escolha que faremos, mas, como para mim é mais fácil pedir conselho àqueles que trabalham na Cúria e vivem em Roma, os grupos que apresentarão serão os 9 provenientes das Igrejas locais.

Estou aqui para escutar. Como aprendemos durante as duas Assembleias do Sínodo dos Bispos de 2023 e 2024, a dinâmica sinodal implica por excelência a escuta. Cada momento deste tipo é uma oportunidade para aprofundar a nossa apreciação partilhada pela sinodalidade. «O mundo em que vivemos, e que somos chamados a amar e servir mesmo nas suas contradições, exige da Igreja o reforço das sinergias em todas as áreas da sua missão. O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio» (Francisco, Discurso por ocasião do 50.º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos, 17 de outubro de 2015).

Este dia e meio que passaremos juntos será uma prefiguração do nosso caminho futuro. Não devemos chegar a um texto, mas sim levar adiante uma conversação que me ajude no meu serviço para a missão de toda a Igreja. Amanhã trataremos os dois temas escolhidos, com a seguinte pergunta-guia:

Olhando para o caminho dos próximos um ou dois anos, que atenções e prioridades poderiam orientar a ação do Santo Padre e da Cúria sobre esta questão?

Escutar a mente, o coração e o espírito de cada um; escutar-nos uns aos outros; expressar apenas o ponto principal e de forma muito breve, para que todos possam falar: este será o nosso modo de proceder. Os sábios antigos romanos diziam: Non multa sed multum! E no futuro, esta forma de nos escutarmos uns aos outros, buscando a guia do Espírito Santo e caminhando juntos, continuará a ser de grande ajuda para o ministério petrino que me foi confiado. Também a partir da forma como aprendemos a trabalhar juntos, com fraternidade e amizade sincera, pode começar algo novo, que põe em jogo o presente e o futuro.

Caríssimos, desde já agradeço a Deus pela vossa presença e pelos vossos contributos. Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, nos assista sempre”.

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