
por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2
Em uma audiência geral realizada na Sala Paulo VI, nesta quarta-feira, (14/01), o Papa Leão XIV iniciou um ciclo de reflexões sobre os documentos do Concílio Vaticano II, dedicando a primeira parte de sua catequese à Constituição dogmática Dei Verbum, sobre a Revelação Divina. A mensagem central, que ecoou em diversas línguas e culturas, é clara e transformadora ‘Deus não se apresenta apenas como um soberano distante, mas como um amigo que anseia por comunhão conosco’.
Inspirado pelas palavras de Jesus no Evangelho de João – “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo o que ouvi do meu Pai vos fiz conhecer” (Jo 15, 15) – o Santo Padre destacou como Cristo redefine radicalmente a relação da humanidade com o divino. A antiga aliança, marcada por uma assimetria inerente entre Criador e criatura, abre-se, com a vinda do Filho de Deus, para um fim último: a amizade.
A Dei Verbum é citada como um documento que ressalta este convite divino: “Deus invisível […] no seu grande amor fala aos homens como a amigos e convive com eles, para os convidar e os admitir à comunhão consigo”. Essa comunhão não é resultado de mérito humano, mas uma iniciativa divina, um ato de graça que nos torna semelhantes a Ele no seu Filho. A serpente tentou Eva com a promessa de igualdade através do pecado, mas a verdadeira semelhança com Deus é alcançada na relação com o Filho feito homem.
A catequese enfatizou que a Revelação Divina tem o caráter dialógico da amizade, nutrindo-se da troca de palavras verdadeiras. Ao contrário da conversa fiada, que permanece superficial, a palavra de Deus revela quem Ele é e cria uma relação íntima. O Papa Leão XIV sublinhou a importância da escuta atenta da Palavra divina, permitindo que ela penetre em nossas mentes e corações, e do ato de falar com Deus, não para informá-Lo, mas para nos revelarmos a nós mesmos.
A oração, tanto litúrgica quanto pessoal, emerge como o meio essencial para viver e cultivar essa amizade com o Senhor. A Constituição conciliar é lembrada ao afirmar que a nossa salvação reside precisamente nesta relação de amizade com Deus, um convite que não devemos deixar inatendido.
Ao saudar peregrinos de diversas nacionalidades – incluindo alemães, espanhóis, chineses, portugueses, árabes e poloneses –, o Papa Leão XIV reforçou a universalidade desta mensagem. Em cada língua, o convite ressoou: cultivar a amizade com Deus através da oração, da escuta da Sua Palavra e da participação na liturgia, pois é nesta relação que encontramos alegria, salvação e a verdadeira comunhão. A amizade com o Criador é, em última instância, o caminho que nos leva a amar-nos como Ele nos ama.
Leia seu discurso na integra, abaixo.
AUDIÊNCIA GERAL
Aula Paulo VI
Quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Catequese. Os Documentos do Concílio Vaticano II. Constituição dogmática *Dei Verbum. 1. Deus fala aos homens como a amigos*
“Caros irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Iniciámos o ciclo de catequeses sobre o Concílio Vaticano II. Hoje começamos a aprofundar a Constituição dogmática Dei Verbum sobre a Revelação divina. Trata-se de um dos documentos mais belos e mais importantes da assembleia conciliar e, para nos introduzir, pode ser útil recordar as palavras de Jesus: «Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo o que ouvi do meu Pai vos fiz conhecer» (Jo 15, 15). Este é um ponto fundamental da fé cristã, que a Dei Verbum nos recorda: Jesus Cristo transforma radicalmente a relação do homem com Deus, d’ora em diante será uma relação de amizade. Por isso, a única condição da nova aliança é o amor.
Santo Agostinho, ao comentar esta passagem do Quarto Evangelho, insiste na perspetiva da graça, que só pode tornar-nos amigos de Deus no seu Filho (Comentário ao Evangelho de João, Homilia 86). De facto, um antigo lema dizia: “Amicitia aut pares invenit, aut facit” — “a amizade ou encontra pares, ou os torna”. Nós não somos iguais a Deus, mas o próprio Deus torna-nos semelhantes a Ele no seu Filho.
Para isto, como podemos ver em toda a Escritura, na Aliança há um primeiro momento de distância, visto que o pacto entre Deus e o homem permanece sempre assimétrico: Deus é Deus e nós somos criaturas; mas, com a vinda do Filho na carne humana, a Aliança abre-se para o seu fim último: em Jesus, Deus torna-nos filhos e chama-nos a tornar-nos semelhantes a Ele na nossa, ainda que frágil, humanidade. A nossa semelhança com Deus, portanto, não se alcança através da transgressão e do pecado, como sugere a serpente a Eva (cf. Gén 3,5), mas na relação com o Filho feito homem.
As palavras do Senhor Jesus que recordámos – “chamei-vos amigos” – são retomadas precisamente na Constituição *Dei Verbum, que afirma: «Com esta Revelação, de facto, Deus invisível (cf. Col 1,15; 1Tm 1,17) no seu grande amor fala aos homens como a amigos (cf. Ex 33,11; Jo 15,14-15) e convive com eles (cf. Bar 3,38), para os convidar e os admitir à comunhão consigo» (n. 2). O Deus do Génesis já convivia com os progenitores, dialogando com eles (cf. Dei Verbum, 3); e quando o pecado interrompe este diálogo, o Criador não cessa de procurar o encontro com as suas criaturas e de estabelecer de vez em quando uma aliança com elas. Na Revelação cristã, isto é, quando Deus, para vir ao nosso encontro, Se faz carne no seu Filho, o diálogo que tinha sido interrompido é restabelecido de forma definitiva: a Aliança é nova e eterna, nada nos pode separar do seu amor. A Revelação de Deus, portanto, tem o caráter dialógico da amizade e, como acontece na experiência da amizade humana, não suporta o mutismo, mas alimenta-se da troca de palavras verdadeiras.*
A Constituição *Dei Verbum recorda-nos também isto: Deus fala-nos. É importante captar a diferença entre a palavra e a conversa fiada: esta última fica-se pela superfície e não realiza uma comunhão entre as pessoas, enquanto nas relações autênticas, a palavra não serve apenas para trocar informações e notícias, mas para revelar quem somos. A palavra possui uma dimensão revelativa que cria uma relação com o outro. Assim, falando connosco, Deus revela-Se a Si mesmo como Aliado que nos convida à amizade Consigo.*
Nesta perspetiva, a primeira atitude a cultivar é a escuta, para que a Palavra divina possa penetrar nas nossas mentes e nos nossos corações; ao mesmo tempo, somos chamados a falar com Deus, não para Lhe comunicar o que Ele já conhece, mas para nos revelarmos a nós mesmos.
Daí a necessidade da oração, na qual somos chamados a viver e a cultivar a amizade com o Senhor. Isto realiza-se em primeiro lugar na oração litúrgica e comunitária, onde não somos nós a decidir o que escutar da Palavra de Deus, mas é Ele mesmo que nos fala por meio da Igreja; além disso, realiza-se na oração pessoal, que ocorre no interior do coração e da mente. Não pode faltar, no dia e na semana do cristão, o tempo dedicado à oração, à meditação e à reflexão. Só quando falamos com Deus, podemos também falar d’Ele.
A nossa experiência diz-nos que as amizades podem terminar por algum gesto notório de rutura, ou por uma série de desatenções quotidianas, que desfazem a relação até a perder. Se Jesus nos chama a ser amigos, procuremos não deixar inatendido este apelo. Acolhamos-no, tomemos conta desta relação e descobriremos que é precisamente a amizade com Deus a nossa salvação.
Saudações
Saúdo cordialmente os peregrinos de língua francesa. Acabámos de iniciar o tempo litúrgico ordinário, um tempo em que somos chamados a cuidar da nossa relação de amizade com Deus no quotidiano da vida e dos nossos compromissos. Possamos nós colocar a oração pessoal no centro de cada um dos nossos dias, a fim de ouvir a Palavra de Deus ressoar em nós e viver uma autêntica relação filial com Ele. Que Deus vos abençoe.
Estendo as minhas calorosas boas-vindas esta manhã a todos os peregrinos e visitantes de língua inglesa que participam na Audiência de hoje, especialmente aos que vêm da Irlanda, Austrália, Coreia e dos Estados Unidos da América. Sobre todos vós e vossas famílias, invoco a alegria e a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Deus vos abençoe a todos!
Queridos Irmãos e Irmãs de língua alemã, no início deste novo ano convido-vos a cultivar a oração e a meditação da Palavra de Deus e, assim, crescer dia após dia na amizade com o Senhor.
Saúdo cordialmente os peregrinos de língua espanhola. Animo-vos a cultivar a amizade com o Senhor, que é fonte de alegria e salvação, dedicando momentos serenos de oração e meditação da Palavra, para o escutar e falar com Ele no silêncio e na intimidade do coração. Que Deus vos abençoe. Muito obrigado.
Dirijo a minha cordial saudação às pessoas de língua chinesa. Caros irmãos e irmãs, que o Senhor vos encha de toda a graça e vos dê a sua paz. Abençoo-vos de coração!
Uma cordial saudação aos fiéis de língua portuguesa. Obrigado pela vossa presença! Convido-vos a ser assíduos na oração e na escuta da Palavra de Deus. Somente com uma série de atenções quotidianas para com o Senhor conseguimos crescer na amizade com Ele, aprendendo a amar-nos como Ele nos ama. Deus vos abençoe!
Tradução da saudação em árabe: Saúdo os fiéis de língua árabe. O cristão é chamado a ser amigo do Senhor Jesus, porque a nossa amizade com Ele é o caminho para a nossa salvação. O Senhor abençoe todos vós e vos proteja sempre de todo o mal!
Tradução da saudação em polonês: Saúdo cordialmente os peregrinos polacos. Deus trata-nos como seus amigos e convida-nos a conhecê-Lo através da oração e da participação na liturgia. Que o tempo das vossas férias de inverno seja uma oportunidade para descobrir a beleza da amizade com o Criador e com os nossos irmãos e irmãs – amigos na fé. Abençoo-vos a todos!
Ao saudar os peregrinos italianos presentes, dirijo um pensamento particular aos sacerdotes de diversas Dioceses e aos Bombeiros de Nápoles.
A minha saudação estende-se, depois, aos jovens, aos doentes e aos recém-casados. A festa do Batismo do Senhor, que celebrámos no domingo passado, suscite em todos a recordação do nosso Batismo. Que este constitua para cada um um estímulo a testemunhar sempre a alegria da adesão a Cristo, Filho predileto do Pai e nosso Irmão que ilumina o caminho da vida.
A todos vós a minha bênção!”
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