por Vívian Marler / Assessora Comunicação CNBB Regional Norte 2
com informações de Dom Vital Corbellini / Bispo da Diocese de Marabá

O Encontro reuniu sacerdotes e religiosas no Centro Diocesano de Pastoral e também contou com a participação de leigos e leigas em uma reflexão na Paróquia São Francisco de Assis

A Igreja está diante de uma realidade que já faz parte da vida cotidiana das famílias, das comunidades, das instituições e da sociedade, a Inteligência Artificial. Mais do que uma novidade tecnológica, ela representa um desafio pastoral, ético e humano. Foi com essa consciência que a Diocese de Marabá realizou, de 17 a 20 de agosto, um curso de formação permanente e contínua sobre o uso das Inteligências Artificiais a serviço da evangelização.

O encontro aconteceu no Sagrado Coração de Jesus, no Centro Diocesano de Pastoral, reunindo sacerdotes e religiosas. A formação foi assessorada pelo padre Danilo Pinto, da Arquidiocese de Salvador (BA), assessor da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para assuntos relacionados às Inteligências Artificiais.

A proposta da formação, sob o estudo da Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV, não foi apenas apresentar ferramentas ou explicar o funcionamento de plataformas digitais. O objetivo principal foi ampliar o olhar da Igreja para que a tecnologia seja compreendida com responsabilidade e colocada a serviço da missão evangelizadora. Afinal, as Inteligências Artificiais já estão presentes nos ambientes de trabalho, na educação, na comunicação, na produção de imagens, na pesquisa e também nas relações humanas.

Ao tratar do tema, a Diocese de Marabá reafirma que a tecnologia não pode ocupar o lugar de Deus, da consciência, da oração ou da experiência humana. Ela deve ser compreendida como instrumento, como meio para melhor servir à comunidade, ao próximo e ao anúncio do Evangelho.

A referência permanece sendo Jesus Cristo, “Caminho, Verdade e Vida”, como recorda o Evangelho de São João (Jo 14,6). Nesse sentido, a Inteligência Artificial não é um fim em si mesma. Seu valor depende da maneira como é utilizada e da finalidade a que serve.

Quando usada com discernimento, a Inteligência Artificial pode oferecer importantes contribuições para a ação pastoral. Na pesquisa, por exemplo, pode auxiliar na localização de documentos, na organização de referências, na comparação de textos, na busca por informações históricas e na preparação de estudos. Também pode favorecer o acesso a conteúdos em diferentes idiomas e ajudar agentes de pastoral, religiosos, sacerdotes e comunicadores a encontrarem caminhos mais rápidos para aprofundar determinado assunto.

Na comunicação e na evangelização, a tecnologia pode colaborar na criação de materiais para redes sociais, roteiros, informativos, apresentações, convites, subsídios pastorais e conteúdos educativos. Em uma realidade na qual as comunidades precisam comunicar com agilidade, clareza e criatividade, as ferramentas de Inteligência Artificial podem ser aliadas importantes.

Outro campo apresentado pelo padre Danilo Pinto está relacionado à criação de artes sacras e de materiais visuais. A IA pode ajudar na elaboração de propostas artísticas, ilustrações, esboços e imagens destinadas a cartazes, encontros, campanhas e projetos de evangelização. Esse recurso pode ser especialmente útil para comunidades que não dispõem de profissionais ou de estrutura para produzir rapidamente peças de comunicação.

No entanto, a criação de uma imagem ou de um texto não se encerra no comando dado a uma ferramenta. É preciso avaliar o resultado, verificar se ele respeita a fé, a tradição, a dignidade humana e a identidade da comunidade. A velocidade da tecnologia não substitui o olhar pastoral, a sensibilidade artística nem o conhecimento da realidade local.

Uma imagem religiosa, por exemplo, não deve ser tratada apenas como um produto visual. Ela comunica uma experiência de fé, carrega símbolos, remete à história da Igreja e pode tocar profundamente a vida das pessoas. Por isso, o uso da IA na criação de artes sacras exige cuidado, discernimento e responsabilidade.

Um dos principais alertas da formação diz respeito ao risco de dependência. A Inteligência Artificial deve auxiliar, mas não pode viciar nem substituir a capacidade humana de pensar, criar, interpretar e discernir.

O uso incorreto acontece quando a pessoa deixa de estudar, refletir ou produzir e passa simplesmente a aceitar como verdade tudo o que a ferramenta apresenta. A IA pode produzir respostas rápidas, mas também pode apresentar erros, informações inventadas, interpretações equivocadas ou conteúdos sem relação com a realidade concreta da comunidade.

Por isso, aprender a usar a Inteligência Artificial significa também aprender a fazer perguntas, conferir informações, comparar fontes, identificar limites e assumir responsabilidade pelo resultado final. Quem utiliza a ferramenta continua sendo responsável pelo texto, pela imagem, pela decisão e pelas consequências daquilo que foi produzido.

Na vida da Igreja, esse cuidado é ainda mais necessário. A evangelização nasce de uma experiência de encontro. Ela não se limita à transmissão de informações, mas envolve testemunho, escuta, oração, proximidade e compromisso com as pessoas. Nenhum sistema é capaz de substituir a presença de um agente de pastoral junto a uma família, a visita a uma pessoa enferma, a escuta de alguém que sofre ou a celebração vivida por uma comunidade.

O próprio Papa Leão XIV tem chamado a atenção para os riscos de um uso acrítico da Inteligência Artificial. Em uma mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Pontífice afirmou que o desafio provocado pela IA “não é tecnológico, mas antropológico”. Para ele, preservar os rostos e as vozes humanas significa, em última análise, preservar a própria humanidade.

O Papa também advertiu que os algoritmos podem enfraquecer a capacidade de escutar e de pensar criticamente, sobretudo quando as pessoas se acostumam a receber respostas prontas e deixam de realizar o esforço do pensamento próprio.

Essa preocupação apareceu de modo muito concreto em fevereiro deste ano, durante um encontro com o clero da Diocese de Roma. Leão XIV recomendou aos sacerdotes que resistam à tentação de preparar homilias com Inteligência Artificial. “O cérebro precisa ser usado”, afirmou o Papa, lembrando que uma verdadeira homilia é mais do que um texto bem organizado, é o compartilhamento da fé e da experiência de quem encontrou e ama Jesus Cristo.

Segundo o Pontífice, a Inteligência Artificial “nunca será capaz de compartilhar a fé”. A advertência não significa rejeitar toda e qualquer tecnologia, mas recordar que a homilia nasce da oração, do estudo, da escuta da Palavra e do contato com a realidade concreta do povo.

O sacerdote pode utilizar ferramentas digitais para pesquisar, consultar documentos, organizar ideias ou aprofundar um tema. Mas não pode entregar a uma máquina aquilo que precisa nascer de sua relação com Deus e de sua experiência pastoral. Uma homilia não é apenas uma composição de frases. É uma palavra situada, dirigida a uma comunidade real, com suas dores, esperanças, lutas e perguntas.

Na noite de quarta-feira, o padre Danilo Pinto também conversou com leigos e leigas na Paróquia São Francisco de Assis, no bairro Cidade Nova, em Marabá. O encontro contou com boa participação e ampliou para toda a comunidade a reflexão iniciada com sacerdotes e religiosas.

A presença dos leigos nesse debate é fundamental. A Inteligência Artificial já atravessa a vida de crianças, jovens, adultos e idosos. Está nas escolas, nos celulares, no comércio, nos meios de comunicação e nas relações de trabalho. Por isso, a Igreja precisa ajudar as pessoas a compreenderem não apenas como utilizar essas ferramentas, mas como fazê-lo com sabedoria, ética e responsabilidade.

A formação realizada pela Diocese de Marabá aponta para uma atitude equilibrada, nem deslumbramento ingênuo, nem rejeição automática. É preciso reconhecer os benefícios da tecnologia, sem ignorar seus riscos. É necessário aproveitar seus recursos, sem permitir que ela enfraqueça a autonomia, a criatividade, a inteligência e a capacidade de convivência.

No caminho da evangelização, a Inteligência Artificial pode agilizar processos, ampliar possibilidades e favorecer a comunicação. Mas a missão da Igreja continuará dependendo de pessoas capazes de escutar, acolher, rezar, servir e testemunhar.

A tecnologia pode ajudar a preparar um material. Não pode preparar o coração para o encontro. Pode colaborar na criação de uma imagem. Não pode substituir a beleza de uma comunidade que celebra sua fé. Pode reunir informações. Não pode realizar, por ninguém, a experiência de caminhar com Jesus Cristo.

Em Marabá, a formação permanente deixa uma mensagem clara, a Inteligência Artificial deve estar a serviço da vida, da comunidade e do Reino de Deus. Nunca acima da pessoa. Nunca no lugar da fé. Nunca como substituta do encontro humano.

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