
por padre Pedro Fabiano / Diocese de Marabá
Um paralelo entre a Campanha da Fraternidade 2026 e o ensinamento de Papa Leão XIV
A Campanha da Fraternidade de 2026, ao propor o tema da moradia e assumir como lema as palavras do Evangelho de João “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14) , conduz a Igreja no Brasil a uma contemplação profundamente encarnada do mistério cristão. A fé não nasce no abstrato, mas no chão da história, nas casas, nas ruas, nas periferias e nos lugares onde a dignidade humana é diariamente ferida. A Encarnação do Verbo revela um Deus que não apenas visita a humanidade, mas que faz morada nela, assumindo suas fragilidades e suas esperanças. Falar de moradia, portanto, não é apenas tratar de uma política pública ou de uma questão social urgente, mas tocar o próprio coração do Evangelho.
Neste horizonte, o recente ensinamento do Papa Leão XIV, ao convidar a Igreja a “desenhar novos mapas de esperança”, ilumina profundamente a proposta da Campanha da Fraternidade 2026. Em sua exortação Dilexi te , “Eu vos amei” , o Papa recorda que o amor cristão não pode permanecer como sentimento genérico ou discurso piedoso, mas deve tornar-se critério concreto de organização da vida pessoal, eclesial e social. Onde o amor se encarna, ali surgem caminhos novos; onde ele é esquecido, multiplicam-se as exclusões. Desenhar novos mapas de esperança significa, assim, reler a realidade à luz do amor de Cristo, especialmente a partir daqueles que vivem sem teto, sem segurança e sem condições mínimas de uma vida digna.
A falta de moradia adequada não é apenas ausência de um espaço físico, mas negação de direitos fundamentais que estruturam a pessoa humana. O Catecismo da Igreja Católica ensina que a dignidade da pessoa humana exige condições de vida que permitam o desenvolvimento integral de cada indivíduo, e isso inclui o acesso aos bens necessários para uma existência verdadeiramente humana. Entre esses bens, a casa ocupa lugar central, pois é nela que se aprende a viver, a conviver, a educar os filhos, a rezar, a descansar e a sonhar. Sem moradia, a própria educação fica comprometida; sem educação, torna-se mais difícil romper os ciclos de pobreza e exclusão. Moradia e educação, portanto, não são realidades paralelas, mas profundamente interligadas, formando um verdadeiro eixo de esperança.
Ao propor esse olhar integrado, a Campanha da Fraternidade dialoga com toda a tradição da Doutrina Social da Igreja, que sempre afirmou que os bens da criação têm destino universal e que a propriedade privada só se justifica quando serve ao bem comum. Os Padres da Igreja já denunciavam, com força profética, a acumulação egoísta que priva os pobres do necessário. São João Crisóstomo afirmava que não partilhar os próprios bens com os pobres é roubá-los, pois aquilo que possuímos além do necessário pertence àqueles que nada têm. Santo Ambrósio ensinava que a terra foi criada para todos e não apenas para alguns poucos privilegiados. Essas vozes antigas continuam atuais, especialmente em contextos urbanos marcados por profundas desigualdades habitacionais.
O magistério mais recente da Igreja reforça essa mesma convicção. Desde São João XXIII, passando por São Paulo VI, São João Paulo II, Bento XVI e o Papa Francisco, a Igreja insiste que a justiça social não é opcional para o cristão, mas expressão concreta da caridade. O Papa Leão XIV retoma essa tradição ao afirmar que a esperança cristã não se reduz a uma espera passiva do céu, mas se manifesta na transformação das estruturas injustas que negam a dignidade dos pobres. Desenhar novos mapas de esperança implica, portanto, educar consciências, formar cidadãos responsáveis e cristãos comprometidos, capazes de unir fé, ética e ação social.
A educação, nesse contexto, assume papel decisivo. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, mas de formar pessoas sensíveis à dignidade do outro, capazes de reconhecer no irmão sem moradia o rosto do próprio Cristo. A educação cristã, inspirada no Evangelho e no ensinamento da Igreja, deve despertar para a fraternidade, para a solidariedade e para o compromisso com o bem comum. Onde há educação integral, cresce a consciência dos direitos; onde há moradia digna, a educação encontra solo fértil para florescer. Juntas, essas duas realidades tornam-se verdadeiros sinais do Reino de Deus que já se faz presente na história.
Assim, o paralelo entre a Campanha da Fraternidade 2026 e o apelo do Papa Leão XIV revela um caminho claro para a Igreja hoje: ser uma Igreja que habita com os pobres, que aprende com eles e que, junto com eles, constrói alternativas de vida. Não se trata apenas de oferecer ajuda emergencial, mas de promover processos duradouros de transformação, capazes de garantir casa, dignidade, educação e esperança. A Igreja é chamada a ser sinal dessa esperança, desenhando novos mapas onde antes só havia abandono, e proclamando com gestos concretos que Deus continua a morar entre nós, especialmente na vida dos que mais sofrem.
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