por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2

A manhã deste domingo, 22 de março, na Praça São Pedro, foi marcada por um contraste profundo entre a dor da perda e o chamado urgente à vida. Diante de uma multidão de fiéis e peregrinos, o Papa Leão XIV utilizou a liturgia da ressurreição de Lázaro para lançar um olhar sensível sobre as feridas abertas no mundo atual, desde o luto na Igreja Ortodoxa da Geórgia até os conflitos que seguem castigando o Oriente Médio.

Um adeus ao Patriarca Ilia II
Antes mesmo de aparecer na janela do Palácio Apostólico para o tradicional Angelus, o Pontífice manifestou seu pesar pela partida de Sua Santidade Ilia II, o Catholicos-Patriarca de toda a Geórgia. Em uma mensagem carregada de respeito ecumênico, Leão XIV recordou a trajetória do líder ortodoxo, que atravessou décadas de transformações sociais e espirituais no Cáucaso, deixando um vazio profundo na comunidade cristã da região. (mensagem* na integra, ao final desta matéria, após a mensagem do Angelus)

Durante a reflexão do Angelus, o Papa conectou o milagre de Lázaro com a “sede de infinito” que habita o coração humano. Com uma linguagem direta e provocativa, ele alertou para o perigo de nos encerrarmos em “sepulcros” modernos — o materialismo, o egoísmo e a busca por felicidades efêmeras que, segundo ele, nunca poderão saciar o espírito.

“Também a nós Jesus grita: ‘Vem para fora!’”, exclamou o Pontífice, incentivando os fiéis a abandonarem os espaços estreitos da indiferença para caminharem na luz do amor, especialmente agora, às portas da Semana Santa.

Após a oração Mariana, o tom do Papa tornou-se ainda mais grave ao mencionar as guerras que persistem, com foco especial no Oriente Médio. Para Leão XIV, o sofrimento das vítimas inermes não é apenas uma estatística, mas um “escândalo para toda a família humana”. Ele reforçou que o que fere o próximo, fere a humanidade inteira e é um grito que sobe até Deus.

Contudo, nem tudo foi gravidade. Ao saudar os atletas que participavam da Grande Maratona de Roma neste domingo, o Papa viu no esporte um “sinal de esperança”. Ele desejou que o esforço físico e a convivência entre atletas de diversas nações possam traçar caminhos reais de inclusão e paz.

Ao final, entre saudações a peregrinos espanhóis e italianos, Leão XIV deixou o Vaticano com o habitual desejo de um “bom domingo”, mas com um recado claro: a ressurreição começa hoje, no esforço de cada um em abrir mão do “eu” para enxergar o “nós”.

Leia abaixo a mensagem do Angelus, do Santo Padre.

ANGELUS

Praça São Pedro
V Domingo da Quaresma, 22 de março de 2026

“Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Neste quinto domingo da Quaresma, na Liturgia é proclamado o Evangelho da ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11, 1-45).

No itinerário quaresmal, este é um sinal que fala da vitória de Cristo sobre a morte e do dom da vida eterna, que recebemos com o Batismo (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1265). Jesus diz hoje também a nós, como a Marta, a irmã de Lázaro: «Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais» (Jo 11, 25-26).

A Liturgia convida-nos assim a reviver sob esta luz, na Semana Santa já iminente, os eventos da Paixão do Senhor — a entrada em Jerusalém, a última Ceia, o processo, a crucificação, o sepultamento — para colher o seu sentido mais autêntico e abrir-nos ao dom da graça que eles encerram.

É, de fato, em Cristo Ressuscitado, vencedor da morte e vivo em nós pela graça do Batismo, que tais acontecimentos encontram o seu cumprimento, para a nossa salvação e plenitude de vida.

A sua graça ilumina este mundo, que parece em contínua busca de novidade e de mudança, mesmo ao custo de sacrificar coisas importantes — tempo, energias, valores, afetos — como se a fama, os bens materiais, as diversões, as relações efêmeras pudessem preencher o nosso coração ou tornar-nos imortais. É o sintoma de uma necessidade de infinito que cada um de nós traz em si, cuja resposta, porém, não pode ser confiada àquilo que passa. Nada de finito pode extinguir a nossa sede interior, porque fomos feitos para Deus e não encontramos paz enquanto não repousamos n’Ele (cf. Confissões, I, 1.1).

O relato da ressurreição de Lázaro, então, convida-nos a colocarmo-nos à escuta de tal profunda necessidade e, com a força do Espírito Santo, a libertar os nossos corações de hábitos, condicionamentos e modos de pensar que, como pedregulhos, nos fecham no sepulcro do egoísmo, do materialismo, da violência, da superficialidade. Nestes lugares não há vida, mas apenas desorientação, insatisfação e solidão.

Também a nós Jesus grita: «Vem para fora!» (Jo 11, 43), incentivando-nos a sair, regenerados pela sua graça, de tais espaços estreitos, para caminhar na luz do amor, como mulheres e homens novos, capazes de esperar e amar segundo o modelo da sua caridade infinita, sem cálculos e sem medida.

A Virgem Maria nos ajude a viver assim estes dias santos: com a sua fé, com a sua confiança, com a sua fidelidade, para que se renove também para nós, a cada dia, a experiência luminosa do encontro com o seu Filho ressuscitado”.

Depois do Angelus

Queridos irmãos e irmãs,

Continuo a acompanhar com consternação a situação no Oriente Médio, bem como em outras regiões do mundo dilaceradas pela guerra e pela violência. Não podemos permanecer em silêncio diante do sofrimento de tantas pessoas, vítimas indefesas desses conflitos. O que as fere, fere a humanidade inteira. A morte e a dor causadas por essas guerras são um escândalo para toda a família humana e um grito diante de Deus! Renovo com força o apelo para perseverarmos na oração, para que cessem as hostilidades e se abram, finalmente, caminhos de paz baseados no diálogo sincero e no respeito à dignidade de cada pessoa humana.

Hoje, realiza-se em Roma a grande Maratona, com muitíssimos atletas vindos de todo o mundo. Este é um sinal de esperança! Que o esporte possa traçar caminhos de paz, de inclusão social e de espiritualidade.

Dirijo de coração a minha saudação a todos vós, romanos e peregrinos de vários países, em particular àqueles vindos da diocese de Córdoba, na Espanha.

Acolho com alegria os fiéis de Belluno e Pordenone, de Crotone e da paróquia de Santa Maria delle Grazie, em Roma. Saúdo os jovens de Nave, diocese de Brescia, o grupo de crismandos da diocese de Florença e os representantes da Associação de Diretores de Hotéis.

Desejo a todos um bom domingo!

 

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MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV PELO FALECIMENTO DE SUA SANTIDADE E BEATITUDE ILIA II, CATHOLICOS-PATRIARCA DE TODA A GEÓRGIA, ARCEBISPO DE MTSKHETA-TBILISI E METROPOLITA DE ABKHÁZIA E BICHVINTA*

“A Sua Eminência Shio
Metropolita de Senaki e Chkhorotsku
Locum Tenens da Sé Patriarcal
Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa da Geórgia

Foi com profunda tristeza que recebi a notícia do falecimento de Sua Santidade e Beatitude Ilia II, Catholicos-Patriarca de toda a Geórgia. Ao enviar as minhas sentidas condolências, asseguro a Vossa Eminência, ao Santo Sínodo e a toda a Igreja Ortodoxa da Geórgia a minha solidariedade fraterna no vosso luto. Neste momento delicado para o vosso povo, uno-me a vós em oração e na vossa memória agradecida do Pastor e Pai que vos guiou com bondade, sabedoria e força evangélica por tantos anos.

Ao longo de sua longa vida, o Patriarca Ilia II foi uma testemunha dedicada da fé no Cristo Ressuscitado. O seu ministério acompanhou o povo georgiano através de tempos difíceis e de profundas mudanças de época, preservando com amor a tradição e abrindo os corações e as comunidades à esperança.

Gostaria também de recordar a sua profunda paixão pela música, que é um estímulo à procura da beleza de Deus e pode unir os povos, aproximando as Igrejas para além das diferenças culturais e teológicas.

Para muitos, ele foi um pai espiritual, uma voz de reconciliação e um incansável construtor de unidade. Encontrou-se com dois de meus estimados predecessores — São João Paulo II e o Papa Francisco — sempre num espírito de cordialidade e fraternidade.

Ao confiardes este fiel servo ao Senhor, as palavras do Apóstolo Paulo ressoam com força, lembrando-nos que a ressurreição de Jesus é o fundamento da nossa fé e a fonte da nossa esperança. Pois, se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé (cf. 1 Cor 15, 14). Perante a morte de um Pastor, portanto, os nossos corações não cedem ao desespero. Em vez disso, abrem-se à certeza de que a vida não é tirada, mas transformada.

Com estes sentimentos, exprimo a Vossa Eminência a minha proximidade fraterna enquanto carrega o peso do ministério de Locum Tenens. Rezo para que o Senhor lhe conceda luz, discernimento e fortaleza, para que possa acompanhar a Igreja Ortodoxa da Geórgia com a mesma caridade pastoral que animou o falecido Patriarca. Peço à Santíssima Mãe de Deus que proteja Vossa Eminência, o Santo Sínodo e todo o povo georgiano com o seu manto de consolação e amor.

Vaticano, 18 de março de 2026

LEÃO PP. XIV”

 

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