por Vívian Marler / Assessora Comunicação CNBB Regional Norte 2

Em meio ao movimento constante das grandes cidades, onde milhões de pessoas convivem diariamente sem necessariamente estabelecer vínculos, o Papa Leão XIV dedica a intenção de oração do mês de agosto à evangelização no ambiente urbano. Por meio da Rede Mundial de Oração do Papa, o Pontífice convida os fiéis e todas as pessoas de boa vontade a colaborarem na construção de cidades mais acolhedoras, nas quais ninguém seja tratado como invisível.
A intenção, divulgada pela campanha “Reza com o Papa”, parte de uma realidade cada vez mais evidente: quase metade da população mundial vive atualmente em áreas urbanas. As cidades concentram oportunidades, serviços, trabalho e diferentes culturas, mas também revelam profundas situações de solidão, desigualdade, isolamento e perda do sentido de pertença.
Na oração deste mês, o Papa Leão XIV contempla a presença de Cristo como a do Bom Pastor que percorre ruas e praças, entra nos edifícios altos e visita os bairros mais humildes. É o Pastor que acompanha, muitas vezes silenciosamente, pessoas que procuram sentido em meio ao ruído, à pressa e à impessoalidade da vida urbana.
O Pontífice reconhece que as cidades, embora possam ser espaços de liberdade e possibilidades, também correm o risco de se transformar em territórios de anonimato. Por isso, propõe um novo olhar sobre a realidade urbana, capaz de perceber nela um campo fértil para a evangelização e para a presença concreta da Igreja.
O crescimento das cidades transformou bairros, edifícios, centros comerciais e periferias em cenários de intensa circulação humana. Entretanto, a proximidade física nem sempre se converte em proximidade afetiva ou comunitária. Muitas pessoas vivem cercadas por outras, mas sem contar com redes de apoio, vínculos duradouros ou espaços onde possam ser verdadeiramente ouvidas.
De acordo com dados das Nações Unidas reunidos no relatório ‘World Urbanization Prospects 2025’, entre os maiores centros urbanos do mundo estão Jacarta, com cerca de 42 milhões de habitantes; Dacar, com 37 milhões; Tóquio, com 33 milhões; e Nova Délhi e Xangai, ambas com aproximadamente 30 milhões de habitantes.
Nesse contexto, a solidão urbana tornou-se também uma questão de saúde mental, especialmente entre os jovens. Mesmo permanentemente conectada por meio das redes digitais, uma parcela significativa dessa população reconhece que a solidão interfere na vida cotidiana. A experiência manifesta-se em relações superficiais, na pouca convivência com vizinhos, na sensação de não pertencer a lugar algum e na ausência de apoio emocional em momentos de sofrimento.
A intenção de oração do Papa propõe que a Igreja não permaneça distante dessa realidade. Ao contrário, deve aprender a reconhecer os rostos escondidos nas multidões e aproximar-se das pessoas que, embora presentes nos espaços urbanos, muitas vezes passam despercebidas.
Na oração, o Papa Leão XIV pede uma fé criativa, que não se limite às palavras, mas se manifeste em gestos simples de proximidade, escuta e cuidado. A Igreja é chamada a ser uma comunidade “em saída”, capaz de atravessar os próprios limites e chegar às periferias geográficas e existenciais das cidades.
A proposta não se resume à realização de grandes eventos ou à ocupação de espaços públicos. Trata-se de construir relações, criar comunidades, promover o encontro e oferecer uma presença capaz de devolver dignidade a quem se sente esquecido.
Para o padre Cristóbal Fones, jesuíta e diretor da Rede Mundial de Oração do Papa, essa intenção começa com uma mudança interior. “Quantas vezes vimos o rosto ferido de um irmão e seguimos adiante?”, questiona. Segundo ele, a oração deve ajudar a iluminar caminhos concretos para a construção de cidades mais justas e acolhedoras.
“Esta intenção de oração nos convoca a todos para uma reflexão em que, a partir de uma transformação interior que desperta a autêntica oração apostólica, o Espírito Santo nos irá dando luzes sobre como construir cidades mais justas e acolhedoras em nossos próprios contextos, como nos pede o Santo Padre”, afirma o sacerdote.
A reflexão do Papa sobre a evangelização nas cidades também se relaciona com o modo como a sociedade escolhe organizar suas relações. Em discurso aos participantes do encontro anual da ‘International Catholic Legislators Network’, em agosto de 2025, Leão XIV advertiu que o futuro do florescimento humano depende do amor que orienta as escolhas coletivas. “O futuro do florescimento humano depende de qual ‘amor’ escolhamos para organizar nossa sociedade: um amor egoísta, amor a si mesmo, ou o amor a Deus e ao próximo”, recordou o Pontífice.
A pergunta permanece atual diante de cidades marcadas por contrastes: de um lado, avanços tecnológicos, crescimento econômico e mobilidade; de outro, pessoas sem moradia, trabalhadores submetidos à precariedade, migrantes, idosos abandonados, jovens sem perspectivas e comunidades inteiras afastadas dos serviços básicos.
Evangelizar, nesse cenário, significa também defender a vida, promover a justiça, fortalecer os vínculos comunitários e reconhecer a dignidade de cada pessoa.
Não é a primeira vez que uma intenção de oração do Papa aborda os desafios da evangelização no ambiente urbano. Em 2022, o Papa Francisco havia dedicado uma intenção à construção de uma Igreja aberta a todos, convidando os cristãos a assumirem “a oportunidade de ser uma Igreja da proximidade, que é o estilo de Deus”.
A proposta permanece atual e ganha novos contornos diante do crescimento das cidades e das transformações nas relações humanas. A Igreja é chamada a tornar visível o Evangelho justamente nos lugares onde a fé parece escondida e onde muitas pessoas vivem distantes das comunidades cristãs.
A Rede Mundial de Oração do Papa ressalta que, no cotidiano urbano, é necessário semear presença, vínculo e compaixão. Em uma realidade marcada pela velocidade, o anúncio cristão pode começar com atitudes simples: ouvir alguém com atenção, visitar quem está sozinho, acolher uma família, acompanhar um jovem, criar espaços de convivência e reconhecer a realidade de quem vive nas periferias.
São gestos que podem parecer pequenos, mas que revelam uma Igreja próxima e atenta às dores do seu tempo.
A intenção de oração de agosto recorda que evangelizar a cidade não significa apenas levar uma mensagem a novos lugares. Significa permitir que o Evangelho se encarne nas relações, nas políticas públicas, nos espaços comunitários e na vida cotidiana.
O Papa Leão XIV convida os cristãos a enxergarem, nas cidades, não apenas problemas, mas também possibilidades de encontro e transformação. Em meio à diversidade urbana, o desafio é construir comunidades onde as pessoas possam ser reconhecidas pelo nome, partilhar suas histórias e encontrar apoio para seguir adiante.
Ao pedir que “ninguém se sinta invisível”, o Pontífice apresenta uma tarefa espiritual e social para toda a Igreja: olhar com atenção para aqueles que a pressa costuma esconder e fazer da presença cristã uma expressão concreta de fraternidade.
Sobre a Rede Mundial de Oração do Papa
A Rede Mundial de Oração do Papa é uma Obra Pontifícia confiada à Companhia de Jesus. Está presente em mais de 90 países e reúne uma comunidade espiritual de mais de 22 milhões de pessoas, unidas pelo desejo de colaborar com a missão de Cristo.
As intenções mensais de oração do Papa convidam a comunidade internacional a voltar sua atenção para os principais desafios da humanidade e da missão da Igreja.
A obra foi fundada em 1844, com o nome de Apostolado da Oração. Em dezembro de 2020, o Papa Francisco instituiu a Rede como Fundação Vaticana. Seus estatutos definitivos foram aprovados em julho de 2024.
Agosto: Reza com o Papa
Pela evangelização na cidade
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Ámen.
Senhor Jesus, Bom Pastor,
Tu percorres as nossas ruas e praças,
entras nos edifícios altos e nos bairros humildes,
e acompanhas em silêncio milhões de pessoas
que procuram um sentido no meio do ruído e da pressa.
Tu conheces, Senhor, o coração da cidade:
as suas luzes e sombras, o seu bulício e a sua solidão.
Sabemos que as cidades são chamadas a ser lugares de liberdade e oportunidade,
mas podem também transformar-se em espaços de anonimato e isolamento.
Por isso, hoje Te pedimos um olhar novo,
capaz de descobrir na vida urbana
um terreno fecundo para anunciar o teu Evangelho.
Dá-nos uma fé criativa e profunda,
que não fique apenas em palavras,
mas se encarne em gestos simples e próximos.
Faz de nós Igreja em saída,
capaz de estender a mão às periferias,
de consolar na solidão
e de semear fraternidade onde reina a indiferença.
Senhor, que as nossas comunidades urbanas
sejam lares abertos e acolhedores,
lugares onde se partilha a esperança,
onde ninguém se sinta invisível
e onde a alegria do teu Evangelho ilumine
a vida escondida de tantos irmãos.
Faz de nós tuas testemunhas na cidade,
missionários corajosos e criativos,
que anunciam com a vida o teu Amor,
capaz de vencer a pressa, o ruído e o anonimato.
Amém
……
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