por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2

Em uma declaração contundente emitida por ocasião do ’12º Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas’ (8 de fevereiro de 2026), o Papa Leão XIV renovou o apelo global para que se ponha fim a este crime hediondo, classificando-o como um ataque direto à paz. A mensagem papal, intitulada “A paz começa com a dignidade: um apelo global para acabar com o tráfico de pessoas”, estabelece a dignidade intrínseca de cada ser humano como o único alicerce sólido para a construção de um mundo pacífico.

A Lógica da Guerra e do Domínio

O Sumo Pontífice traçou um paralelo direto entre a lógica que alimenta a guerra e aquela que sustenta o tráfico humano. Segundo ele, ambos os males derivam do mesmo impulso de domínio e desrespeito pela vida. O tráfico de pessoas, que sacrifica vidas em nome do lucro, é visto como um sintoma da falha em reconhecer o valor inalienável de cada indivíduo.

O Novo Rosto da Exploração: A Escravidão Cibernética

Um dos alertas mais modernos e preocupantes da mensagem é o crescimento da chamada “escravidão cibernética”. O Papa destacou que, neste cenário, os traficantes utilizam o ambiente digital para atrair vítimas com promessas falsas, coagindo-as a participar de atividades criminosas como fraudes ou contrabando de drogas. Essa modalidade não só explora a vulnerabilidade econômica e social, mas também inflige profundas feridas espirituais nas vítimas, forçando-as a se tornarem, paradoxalmente, agentes do crime.

Vulnerabilidade Amplificada por Conflitos

A mensagem aponta que a instabilidade geopolítica e os conflitos armados atuais criam um ambiente ideal para a ação dos traficantes. Pessoas deslocadas, migrantes e refugiados tornam-se presas fáceis das redes de exploração, muitas vezes buscando apenas segurança e sobrevivência.

O Caminho da Superação: Oração e Ação

O Papa Leão XIV insiste que a resposta a este mal não pode se limitar à condenação moral. A superação exige uma tríade de compromissos:

1. Oração: Vista como uma “pequena chama” capaz de combater a indiferença generalizada.
2. Reflexão: Necessidade de identificar os mecanismos de exploração ocultos nos bairros e, crucialmente, no espaço digital.
3. Ação: Reconhecer o “outro” como irmão ou irmã, filho amado de Deus, e não como um instrumento de lucro.

O Pontífice encerrou expressando sincera gratidão a todos aqueles que atuam ativamente no combate a este flagelo, especialmente às redes internacionais e, de forma notável, aos sobreviventes que se tornaram defensores dos direitos daqueles que ainda sofrem.

Leia a mensagem na integra abaixo:

Mensagem do Papa Leão XIV para o 12Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas – 8 de fevereiro de 2026

A paz começa com a dignidade: um apelo global para acabar com o tráfico de pessoas

Queridos irmãos e irmãs

Por ocasião do 12º Dia Mundial de Oração e Reflexão contra o Tráfico de Pessoas, renovo com firmeza o apelo urgente da Igreja para enfrentar e pôr fim a este grave crime contra a humanidade.

Este ano, em particular, desejo recordar a saudação do Senhor Ressuscitado: «A paz esteja convosco» (Jo 20, 19). Estas palavras são mais do que uma saudação; elas oferecem um caminho para uma humanidade renovada. A verdadeira paz começa com o reconhecimento e a proteção da dignidade dada por Deus a cada pessoa. No entanto, numa época marcada pela escalada da violência, muitos são tentados a buscar a paz «através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio» (Discurso aos Membros do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, 9 de janeiro de 2026). Além disso, em situações de conflito, a perda de vidas humanas é muitas vezes descartada pelos instigadores da guerra como “dano colateral”, sacrificada em nome de interesses políticos ou econômicos.

Infelizmente, a mesma lógica de domínio e desrespeito pela vida humana também alimenta o flagelo do tráfico de seres humanos. A instabilidade geopolítica e os conflitos armados criam um terreno fértil para os traficantes explorarem os mais vulneráveis, especialmente as pessoas deslocadas, os migrantes e os refugiados. Dentro deste paradigma falido, as mulheres e as crianças são as mais afetadas por este comércio hediondo. Além disso, o crescente abismo entre ricos e pobres força muitos a viver em circunstâncias precárias, deixando-os susceptíveis às promessas enganosas dos recrutadores.

Este fenômeno é particularmente perturbador no aumento da chamada “escravidão cibernética”, na qual os indivíduos são atraídos para esquemas fraudulentos e atividades criminosas, como fraude online e contrabando de drogas. Nesses casos, a vítima é coagida a assumir o papel de perpetrador, exacerbando as suas feridas espirituais. Estas formas de violência não são incidentes isolados, mas sintomas de uma cultura que se esqueceu de amar como Cristo ama.

Perante estes graves desafios, recorremos à oração e à reflexão. A oração é a “pequena chama” que devemos proteger no meio da tempestade, pois dá-nos força para resistir à indiferença perante a injustiça. A reflexão sobre o tema permite-nos identificar os mecanismos ocultos de exploração nos nossos bairros e nos espaços digitais. Em última análise, a violência do tráfico de seres humanos só pode ser superada através de uma visão renovada que considere cada indivíduo como um filho amado de Deus.

Desejo expressar a minha sincera gratidão a todos aqueles que servem como se fossem as mãos de Cristo, indo ao encontro das vítimas do tráfico, incluindo as redes e organizações internacionais. Gostaria também de agradecer aos sobreviventes que se tornaram advogados em defesa de outras vítimas. Que o Senhor os abençoe pela sua coragem, fidelidade e compromisso incansável.

Com estes sentimentos, confio quantos comemoram este dia à intercessão de Santa Josefina Bakhita, cuja vida é um poderoso testemunho de esperança no Senhor que a amou até ao fim (cf. Jo 13, 1). Juntemo-nos todos na caminhada rumo a um mundo onde a paz não seja apenas a ausência de guerra, mas seja “desarmada e desarmante”, enraizada no pleno respeito pela dignidade de todos.

Vaticano, 29 de janeiro de 2026