por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2

Em um momento marcado por tensões globais e pela chaga persistente da violência doméstica, as recentes comunicações do Papa Leão XIV estabelecem um diálogo urgente entre a luta por paz internacional e a necessidade de erradicar o feminicídio em nível local. As reflexões surgiram de dois contextos distintos, um encontro acadêmico em Chicago e uma carta pungente de uma cidadã romana.

A conexão entre estes dois campos foi estabelecida quando o Pontífice, ao responder a uma leitora chamada Giovanna, classificou a violência contra a mulher como o divisor de águas entre a ordem social e o retrocesso. “A violência, qualquer violência, é a fronteira que divide a civilização da barbárie”. A carta de Giovanna, que descreve seu privilégio de ser amada como uma exceção dolorosa em um mundo onde o amor se torna “armadilha mortal”, ressoa com a denúncia de uma “cultura do domínio” que leva homens a matar as mulheres que se libertam. O Papa ecoou essa dor, mas não parou na condenação, acolhendo o apelo da leitora por uma aliança educativa entre Igreja, escolas e instituições.

Este chamado à ação local encontra paralelo na mensagem enviada por Leão XIV ao ‘Encontro Internacional para a Paz e Reconciliação na Loyola University Chicago’. Ali, o Santo Padre definiu a verdadeira paz não como ausência de conflito, mas como um dom de Deus, que exige o engajamento de todos para o bem comum, transcendendo fronteiras. A promoção da harmonia global, ensina o Papa, depende da reconciliação contínua — com Deus, consigo mesmo e com o próximo.

A união dessas duas esferas — a macro-política da paz e a micro-violência doméstica — sugere que a cultura de paz defendida pelo Vaticano deve ser vivida primeiramente no combate à mentalidade de posse que leva ao feminicídio. Ao insistir na necessidade de “projetos específicos de prevenção e formação” para os jovens, o Papa Leão XIV indica que a construção de um mundo pacífico começa no respeito à dignidade feminina e no desmantelamento das estruturas culturais que justificam o domínio e a violência.

A CARTA

Giovanna de Roma: Santidade, sou uma mulher “sortuda” porque tenho um marido bom, respeitoso e amoroso. Mas enquanto escrevo estas palavras, confesso-lhe que estou com os olhos marejados. Por que hoje ser amada e respeitada deve ser um privilégio apenas de algumas mulheres? Por que amar um homem, casar com ele ou escolher viver com ele, formar uma família… para tantas mulheres se transforma em uma armadilha mortal?

Como conseguimos hoje dar uma explicação à violência, já tão frequente e dolorosa, que tantos homens usam contra as mulheres que dizem amar? Até matá-las. Brutalmente com ódio, como se elas fossem culpadas por não os amarem mais. Acontece com muita frequência. Todos ficamos abalados diante desses dramas, mas o que estamos fazendo de concreto para remediar a situação?

Estas são as perguntas que me faço toda vez que tomo conhecimento de um novo caso de feminicídio. Um fenômeno imparável, que atravessa toda a sociedade, sem distinção social ou geracional. Da advogada ao operário, do médico ao garçom, do homem maduro ao jovem estudante universitário. O que podemos fazer e o que estamos fazendo para conter essa cultura da posse, essa ideia de que se uma mulher não é mais minha, ela merece a morte?

Apelo a Vossa Santidade também pensando naquelas criaturas invisíveis sobre as quais se pensa pouco. Aquelas crianças órfãs que tantas vezes assistiram ao assassinato de suas amadas mães. Talvez tentando protegê-las. Crianças para as quais o próprio Estado, na minha modesta opinião, faz muito pouco.

Apelo a Vossa Santidade porque somente trabalhando a partir da base na cultura e na educação dos jovens creio que se possa contribuir para criar o respeito pelo outro sexo e pelo outro, em sentido lato. Por quem é diferente de nós. Acredito que a Igreja e a Escola têm um grande potencial e uma grande responsabilidade na educação das novas gerações. Inclusive daqueles rapazes que crescem em ambientes difíceis e que não recebem modelos adequados. Quem mais, senão a Escola e a Igreja, pode ajudar as novas gerações difundindo uma cultura de respeito, amor e, acima de tudo, de liberdade? Uma mensagem que ensine a não considerar a mulher como um objeto a ser possuído. A nunca usar violência contra a liberdade do próximo, da mulher que escolhe o seu próprio destino, mesmo que isso não me inclua mais. A Escola fala aos rapazes, mas somente a Igreja e a Sua mensagem, Santo Padre, pode chegar às famílias, pode superar barreiras sociais, culturais, mas também religiosas. Pode chegar direto ao coração dos fiéis, mas também àquele que não crê, porque a palavra de Sua Santidade tem uma força universal.

Resposta do Papa Leão XIV: “A senhora coloca um grande problema que, para mim, é sempre fonte de grande sofrimento: a violência nas relações, e em particular a violência contra as mulheres.

Em um mundo frequentemente dominado também por um pensamento violento, seria necessário apoiar ainda mais o gênio feminino, como afirmava São João Paulo II, o “gênio das mulheres”, protagonistas e criadoras de uma cultura do cuidado e da fraternidade indispensável para dar futuro e dignidade a toda a humanidade.

Talvez também por isso as mulheres sejam atingidas e mortas: porque são um sinal de contradição nesta sociedade confusa, incerta e violenta, pois nos indicam valores de fé, liberdade, igualdade, generatividade, esperança, solidariedade e justiça.

São grandes valores que, no entanto, são combatidos por uma perigosa mentalidade que contamina as relações, produzindo apenas egoísmo, preconceitos, discriminações e vontade de domínio.

Essa atitude, como eu disse durante a homilia da solenidade de Pentecostes (8 de junho de 2025), durante a Santa Missa do Jubileu dos movimentos, das associações e das novas comunidades, “frequentemente desemboca na violência, como infelizmente demonstram os numerosos e recentes casos de feminicídio”.

A violência, qualquer violência, é a fronteira que divide a civilização da barbárie. Nunca se deve subestimar um ato de violência e não devemos ter medo de denunciar a violência, incluindo aquele clima justificativo que a ameniza ou nega as responsabilidades.

Caminhar juntos no respeito recíproco pela própria humanidade não é um sonho, mas a única realidade possível para construir um mundo de luz para todos.

Caríssima Giovanna, agradeço-lhe pelas suas reflexões sobre a necessidade de uma aliança educativa cada vez mais forte. A Igreja, juntamente com as famílias, a escola, as paróquias, os movimentos e associações, as congregações religiosas e as instituições públicas, podem compartilhar juntos a urgência de realizar projetos específicos para prevenir e deter a violência contra as mulheres.

Como eu disse no dia 25 de novembro passado, por ocasião do Dia Internacional contra a Violência sobre as Mulheres, “para deter a violência é preciso começar pela formação dos jovens, começar a abrir o coração de todos para dizer que cada pessoa é um ser humano que merece respeito, aquela dignidade para homem e mulher, todos”.

E depois acrescentei “É preciso eliminar essa violência e procurar a maneira de formar a mentalidade; é preciso ser pessoas de paz, que querem o bem de todos”.

Obrigado, Giovanna, por sua carta. Rezarei por você, por sua família e por seus entes queridos, e acompanho todos com a minha bênção.

 

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