
por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2
foto VaticanNews
Ao receber os membros do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé para a tradicional troca de votos de Ano Novo, o Papa Leão XIV reafirmou o papel da diplomacia vaticana como promotora do diálogo, da paz e da cooperação entre os povos, em um contexto internacional marcado por conflitos, tensões e profundas transformações sociais.
No início de sua alocução, o Pontífice recordou a ampla rede de relações diplomáticas mantidas pela Santa Sé, atualmente com 184 Estados, além da União Europeia e da Soberana Ordem Militar de Malta, destacando esse dado como sinal da confiança da comunidade internacional na missão moral e humanitária exercida pelo Vaticano.
O Papa sublinhou que a diplomacia da Santa Sé não se orienta por interesses econômicos ou estratégicos, mas pelo serviço à pessoa humana, à promoção da paz e à defesa da dignidade de cada povo. Segundo ele, a Igreja deseja ser “ponte” em um mundo fragmentado, favorecendo encontros e processos de reconciliação, especialmente nas regiões atingidas por guerras, crises humanitárias e deslocamentos forçados.
Durante o discurso, Leão XIV expressou preocupação com o agravamento dos conflitos armados e com o enfraquecimento do multilateralismo, alertando para os riscos do fechamento nacionalista e da lógica da força. Reafirmou que o caminho da paz exige diálogo perseverante, respeito ao direito internacional e uma escuta sincera das legítimas aspirações dos povos.
O Santo Padre destacou ainda temas centrais da agenda internacional, como a tutela da família, a proteção da vida humana em todas as suas fases, a liberdade religiosa e o cuidado com os migrantes e refugiados. Para o Papa, esses desafios não podem ser tratados de forma isolada, mas exigem uma abordagem integral, capaz de unir justiça social, solidariedade e responsabilidade compartilhada entre as nações.
Ao abordar o contexto cultural contemporâneo, Leão XIV alertou para o risco de uma visão antropológica fragmentada, que relativiza o valor da pessoa humana. Em contrapartida, reafirmou a necessidade de uma cultura do encontro, fundada no respeito mútuo, na verdade e na esperança, especialmente no horizonte do Jubileu, que convida a humanidade à reconciliação e à renovação espiritual.
Ao concluir, o Papa renovou seus votos de colaboração com os representantes diplomáticos e manifestou o desejo de que o ano de 2026 seja marcado por passos concretos em favor da paz, da justiça e da fraternidade entre os povos. “Somente juntos – afirmou – poderemos construir um futuro mais humano, no qual ninguém seja deixado para trás” .
Nota Informativa sobre as relações diplomáticas da Santa Sé
Atualmente, são 184 os Estados que mantêm relações diplomáticas com a Santa Sé. A eles somam-se a União Europeia e a Soberana Ordem Militar de Malta. As Missões diplomáticas acreditadas junto à Santa Sé, com sede em Roma, incluindo as da União Europeia e da Soberana Ordem Militar de Malta, são 93.
Têm igualmente sede em Roma os Escritórios acreditados junto à Santa Sé da Liga dos Estados Árabes, da Organização Internacional para as Migrações e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.
No decorrer de 2025, em 31 de julho, foi assinado o Acordo entre a Santa Sé e a República Italiana para a implantação de um sistema agrivoltaico em Santa Maria di Galeria. Em 29 de setembro, foi firmado o Acordo entre a Santa Sé e o Estado de Berlim sobre o Instituto de Teologia Católica junto à Universidade Humboldt de Berlim.
Por fim, em 3 de novembro, entrou em vigor a Troca de Cartas entre a República Italiana e a Santa Sé, realizada em Roma em 12 de novembro de 2024 e na Cidade do Vaticano em 23 de dezembro de 2024, que constitui um Acordo emendativo do Acordo, igualmente por Troca de Cartas, entre a República Italiana e a Santa Sé sobre a assistência espiritual às Forças Armadas, celebrado em Roma e na Cidade do Vaticano em 13 de fevereiro de 2018.
Leia abaixo o discurso do Pontífice abaixo.
DISCURSO DO PAPA LEÃO XIV
AOS MEMBROS DO CORPO DIPLOMÁTICO
ACREDITADO JUNTO À SANTA SÉ
PARA AS FELICITAÇÕES DE ANO NOVO
Sala das Bênçãos
Sexta-feira, 9 de enero de 2026
“Excelências,
Distintos membros do Corpo Diplomático,
Senhoras e Senhores,
Em primeiro lugar, agradeço a Sua Excelência, o Embaixador George Poulides, Decano do Corpo Diplomático, pelas amáveis e respeitosas palavras que me dirigiu em nome de todos vós, a quem dou as boas-vindas neste encontro para a troca de felicitações no início do novo ano.
Trata-se de uma tradição na vida do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, mas, para mim, que há poucos meses fui chamado a pastorear o rebanho de Cristo, é uma novidade. Por isso, estou feliz por vos receber esta manhã e agradeço a vossa numerosa participação, que este ano está enriquecida com a presença dos novos Chefes de Missão residentes do Cazaquistão, Burundi e Bielorrússia. Agradeço às respetivas autoridades governamentais pela decisão de abrir Representações Diplomáticas junto à Santa Sé em Roma, sinal concreto das boas e frutuosas relações bilaterais. Através de todos vós, estimados Embaixadores, desejo enviar os meus melhores votos aos vossos países e partilhar uma visão sobre o nosso tempo, tão conturbado por um número crescente de tensões e conflitos.
O ano que acaba de terminar foi repleto de acontecimentos, a começar pelos que afetaram diretamente a vida da Igreja, que viveu um intenso Jubileu e viu regressar à Casa do Pai o meu venerado predecessor, Papa Francisco. No dia do funeral, o mundo inteiro se reuniu em torno do seu caixão, sentindo a perda de um pai que guiou o Povo de Deus com profunda caridade pastoral.
Há poucos dias, fechámos a última Porta Santa, a da Basílica de São Pedro, que precisamente o Papa Francisco tinha aberto na noite de Natal de 2024. Durante o Ano Santo, milhões de peregrinos afluíram a Roma para realizar a peregrinação jubilar. Cada um trouxe consigo a própria vivência, com perguntas e alegrias, bem como com dores e feridas, para atravessar as Portas Santas, símbolo do próprio Cristo, nosso médico celeste, que, encarnando, assumiu a nossa humanidade para nos fazer participar da sua vida divina, como contemplámos no mistério do Natal que recentemente celebrámos. Confio que, nesta travessia, muitas pessoas tenham podido aprofundar ou redescobrir a sua relação com o Senhor Jesus, encontrando conforto e esperança renovada para enfrentar os desafios da vida.
Nesta ocasião, desejo expressar a minha particular gratidão aos habitantes de Roma, que, com grande paciência e sentido de hospitalidade, acolheram os numerosos peregrinos e turistas chegados à cidade de todas as partes do mundo. Dirijo um especial agradecimento ao Governo italiano, à Administração do Município de Roma e às Forças da Ordem, que se empenharam com zelo e precisão para que Roma fosse capaz de acolher todos os visitantes e para que os eventos jubilares e os que se seguiram à morte do Papa Francisco pudessem decorrer com serenidade e segurança.
A Santa Sé e a Itália compartilham não apenas a proximidade geográfica, mas sobretudo uma longa história de fé e cultura, que liga a Igreja a esta esplêndida península e ao seu povo. Um sinal disso são também as excelentes relações bilaterais, seladas este ano com a entrada em vigor das alterações ao Acordo sobre a assistência espiritual das Forças Armadas, que permitirá uma maior eficácia no acompanhamento espiritual das mulheres e dos homens que prestam serviço nas Forças Armadas em Itália e nas numerosas missões fora do país, assim como a assinatura do Acordo para uma central agrivoltaica em Santa Maria di Galeria, que permitirá o fornecimento de energia elétrica à Cidade do Vaticano através do recurso a fontes renováveis, confirmando assim o compromisso comum em favor da criação. Estou igualmente grato pelas visitas que me foram feitas pelas Altas Autoridades do Estado no início do meu Pontificado e pela aprimorada hospitalidade que, no Palácio do Quirinal, me foi reservada pelo senhor Presidente da República, a quem desejo enviar a minha cordial e reconhecida saudação.
Ao longo do ano, aceitando o convite que foi feito ao Papa Francisco, tive a alegria de poder ir à Türkiye e ao Líbano. Agradeço às autoridades de ambos os países pelo seu acolhimento. Em İznik, na Türkiye, tive a oportunidade de comemorar, com o Patriarca Ecuménico de Constantinopla e os representantes de outras confissões cristãs, os 1700 anos do primeiro Concílio Ecuménico. Foi uma ocasião importante para renovar o empenho no caminho rumo à plena unidade visível de todos os cristãos. No Líbano, encontrei um povo que, apesar das dificuldades, está cheio de fé e entusiasmo, e senti a esperança transmitida pelos jovens, que aspiram a construir uma sociedade mais justa e coesa, reforçando o entrelaçar de culturas e credos religiosos que torna único no mundo o País dos Cedros.
Estimados Embaixadores,
inspirado pelos trágicos acontecimentos do saque de Roma em 410 d.C., Santo Agostinho escreve uma das obras mais poderosas da sua produção teológica, filosófica e literária: De Civitate Dei, A Cidade de Deus. Como observou o Papa Bento XVI, trata-se de uma «obra imponente e decisiva para o desenvolvimento do pensamento político ocidental e para a teologia cristã da história», que se inspira numa “narrativa” – diríamos em termos contemporâneos – que se estava a difundir: «Numerosos pagãos ainda vivos, mas também muitos cristãos, disseram: Roma caiu e agora o Deus cristão e os apóstolos já não podem proteger a cidade. Durante a presença das divindades pagãs, Roma era caput mundi, a grande capital, e ninguém podia pensar que teria caído nas mãos dos inimigos. Agora, com o Deus cristão, esta grande cidade já não parecia segura».
Com certeza, os nossos tempos estão muito distantes daqueles acontecimentos. Não se trata apenas de uma distância temporal, mas também de uma sensibilidade cultural diferente e de uma evolução das categorias de pensamento. Todavia, não se pode desconsiderar que a nossa sensibilidade cultural se alimentou precisamente dessa obra que, como qualquer clássico, fala aos homens de todos os tempos.
Agostinho interpreta os acontecimentos e a realidade histórica segundo o modelo das duas cidades: a cidade de Deus, que é eterna e caracterizada pelo amor incondicional de Deus (amor Dei), ao qual se une o amor ao próximo, especialmente aos pobres; e a cidade terrena, que é um lugar de residência temporária onde os seres humanos vivem até à morte. Nos nossos dias, ela compreende todas as instituições sociais e políticas, desde a família ao Estado nacional e às organizações internacionais. Para Agostinho, esta cidade era encarnada pelo Império Romano. A cidade terrena está centrada no amor orgulhoso de si mesmo (amor sui), na ânsia de poder e glória mundanos que levam à destruição. Não se trata, porém, de uma leitura da história que pretenda contrastar este mundo com o outro mundo, a Igreja com o Estado, nem de uma dialética sobre o papel da religião na sociedade civil.
Na perspectiva agostiniana, as duas cidades coexistem até ao fim dos tempos e possuem tanto uma dimensão exterior como interior, pois não se medem apenas pelas atitudes exteriores com que são construídas na história, mas também pela atitude interior de cada ser humano perante a realidade da vida e os acontecimentos históricos. Nessa perspectiva, cada um de nós é protagonista e, portanto, responsável pela história. De modo particular, Agostinho salienta que os cristãos são chamados por Deus a viver na cidade terrena com o coração e a mente voltados para a cidade celeste, sua verdadeira pátria. No entanto, o cristão, vivendo na cidade terrena, não está alheio ao mundo político e procura aplicar ao governo civil a ética cristã, inspirada nas Escrituras.
A Cidade de Deus não propõe um programa político, mas fornece reflexões valiosas sobre questões fundamentais da vida social e política, como a busca por uma coexistência mais justa e pacífica entre os povos. Agostinho também alerta sobre os graves perigos para a vida política decorrentes de falsas representações da história, de um nacionalismo excessivo e da distorção do ideal do estadista.
Embora o contexto em que hoje vivemos seja diferente do século V, certas semelhanças permanecem bastante atuais. Como naquela altura, estamos numa época de profundos movimentos migratórios; como naquela altura, estamos num tempo de profunda reestruturação dos equilíbrios geopolíticos e dos paradigmas culturais; como naquela altura, estamos, segundo a conhecida expressão do Papa Francisco, não numa época de mudança, mas numa mudança de época.
Neste nosso tempo, preocupa particularmente a fragilidade do multilateralismo no plano internacional. Uma diplomacia que promove o diálogo e procura o consenso de todos está a ser substituída por uma diplomacia da força, de indivíduos ou de grupos de aliados. A guerra voltou a estar na moda e um fervor bélico está a alastrar. Foi quebrado o princípio, estabelecido após a Segunda Guerra Mundial, que proibia os países de recorrerem à força para violar fronteiras alheias. Já não se procura a paz como um dom e um bem desejável em si mesmo «na busca de uma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os homens», mas procura-se a paz através das armas, como condição para afirmar o próprio domínio. Isto compromete gravemente o Estado de direito, que é a base de toda a coexistência civil pacífica.
Por outro lado, como observa Santo Agostinho, «não há ninguém que não deseje a paz. Mesmo aqueles que querem a guerra não querem outra coisa senão vencer, desejam portanto alcançar uma paz gloriosa através da guerra. Na verdade, a vitória não é mais do que a subjugação daqueles que opõem resistência e, quando isso acontecer, haverá paz. […] Mesmo aqueles que querem que a paz em que vivem seja interrompida não odeiam a paz, mas desejam que ela seja transferida para o seu livre poder. Portanto, não querem que não haja paz, mas que haja a paz que eles querem» (XIX, 12.1)
Foi precisamente esta atitude que conduziu a humanidade ao drama da Segunda Guerra Mundial, de cujas cinzas nasceu a Organização das Nações Unidas, que celebrou recentemente o seu 80.º aniversário. Ela foi fruto da determinação de 51 nações como eixo da cooperação multilateral para prevenir futuras catástrofes globais, salvaguardar a paz, defender os direitos humanos fundamentais e promover o desenvolvimento sustentável.
Gostaria de salientar particularmente a importância do direito internacional humanitário, cujo respeito não pode depender das circunstâncias e dos interesses militares e estratégicos. O direito humanitário, além de garantir, nos flagelos da guerra, um mínimo de humanidade, é um compromisso que os Estados assumiram. Ele deve sempre prevalecer sobre as veleidades dos beligerantes, a fim de mitigar os efeitos devastadores da guerra, também numa ótica de reconstrução. Não se pode silenciar que a destruição de hospitais, infraestruturas energéticas, habitações e locais essenciais à vida quotidiana constitui uma grave violação do direito internacional humanitário. A Santa Sé reitera com firmeza a sua condenação de qualquer forma de envolvimento de civis em operações militares e espera que a Comunidade Internacional tenha presente que a proteção do princípio da inviolabilidade da dignidade humana e da sacralidade da vida conta sempre mais do que qualquer mero interesse nacional.
Nessa perspectiva, as Nações Unidas têm mediado conflitos, promovido o desenvolvimento e auxiliado os Estados na proteção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. Num mundo marcado por desafios complexos, tais como tensões geopolíticas, desigualdades e crises climáticas, a Organização deve desempenhar um papel fundamental na promoção do diálogo e do apoio humanitário, contribuindo para a construção de um futuro mais justo. Por conseguinte, são necessários esforços para que as Nações Unidas não só espelhem a situação do mundo atual – e não a do pós-guerra –, mas também sejam mais orientadas e eficientes na prossecução não de ideologias, mas de políticas que visem a unidade da família dos povos.
O objetivo do multilateralismo é, portanto, oferecer um lugar onde as pessoas possam encontrar-se e falar, seguindo o modelo do antigo foro romano ou da praça medieval. Todavia, para dialogar, é necessário que haja um entendimento sobre as palavras e os conceitos que elas representam. Redescobrir o significado das palavras é talvez um dos primeiros desafios do nosso tempo. Quando as palavras perdem a sua correspondência com a realidade e a própria realidade se torna sujeita a opiniões e, em última análise, incomunicável, tornamo-nos como aqueles dois, de que fala Santo Agostinho, que são obrigados a permanecer juntos sem que nenhum deles conheça a língua do outro. «Os mudos animais, – observa Agostinho – mesmo sendo de espécies diferentes, entendem-se entre si mais facilmente do que eles, embora ambos sejam homens. Com efeito, uma vez que apenas por causa da diversidade da língua não podem manifestar um ao outro os seus pensamentos, uma grande afinidade de natureza não adianta nada para estabelecer relações, de tal forma que um homem prefere estar mais com o seu cão do que com um estranho» (XIX, 7).
Hoje em dia, o significado das palavras é cada vez mais fluido e os conceitos que elas representam cada vez mais ambíguos. A linguagem já não é o meio privilegiado da natureza humana para conhecer e encontrar, mas, nas malhas da ambiguidade semântica, torna-se cada vez mais uma arma com a qual se engana ou se atinge e ofende os adversários. Precisamos que as palavras voltem a expressar de forma inequívoca realidades certas. Só assim poderá retomar-se um diálogo autêntico e sem mal-entendidos. Isso deve acontecer nas nossas casas e praças, na política, nos meios de comunicação e nas redes sociais, bem como no contexto das relações internacionais e do multilateralismo, para que este último possa recuperar a força necessária para desempenhar aquele papel de encontro e mediação, necessário para prevenir conflitos, de modo que ninguém seja tentado a sobrepor-se ao outro pela lógica da força, seja ela verbal, física ou militar.
É importante notar que o paradoxo deste enfraquecimento da palavra é com frequência reivindicado em nome da própria liberdade de expressão. No entanto, se olharmos bem, é verdade o contrário: a liberdade de palavra e de expressão é garantida precisamente pela certeza da linguagem e pela certeza de que cada termo está ancorado na verdade. Ao contrário, é doloroso constatar que, especialmente no Ocidente, os espaços para a liberdade de expressão estejam cada vez mais a ser reduzidos, enquanto se desenvolve uma nova linguagem, ao estilo de Orwell, que, na tentativa de ser cada vez mais inclusiva, acaba por excluir aqueles que não se adaptam às ideologias que a animam.
Infelizmente, desta deriva resultam outras que acabam por restringir os direitos fundamentais da pessoa, a começar pela liberdade de consciência. Neste contexto, a objeção de consciência permite ao indivíduo recusar obrigações de natureza legal ou profissional contrárias aos princípios morais, éticos ou religiosos profundamente consolidados na sua esfera pessoal: seja a recusa do serviço militar em nome da não violência ou a rejeição de práticas como o aborto ou a eutanásia no caso de médicos e profissionais de saúde. A objeção de consciência não é uma rebelião, mas um ato de fidelidade a si mesmo. Neste particular momento histórico, a liberdade de consciência parece ser objeto de um crescente questionamento por parte dos Estados, mesmo daqueles que se declaram fundados na democracia e nos direitos humanos. Essa liberdade estabelece, porém, um equilíbrio entre o interesse coletivo e a dignidade individual, sublinhando que uma sociedade autenticamente livre não impõe a uniformidade, mas protege a diversidade de consciências, prevenindo derivas autoritárias e promovendo um diálogo ético que enriquece o tecido social.
Corre-se igualmente o risco de restringir a liberdade religiosa, que – como recordava Bento XVI – é o primeiro dos direitos humanos, pois expressa a realidade mais fundamental da pessoa. Os dados mais recentes mostram que as violações da liberdade religiosa estão a aumentar e que 64% da população mundial sofre graves violações deste direito.
Ao pedir o total respeito pela liberdade religiosa e de culto para os cristãos, a Santa Sé solicita-o também para todas as outras comunidades religiosas. Por ocasião do 60.º aniversário da promulgação da Declaração Nostra Aetate, um dos frutos do Concílio Ecuménico Vaticano II, concluído a 8 de dezembro de 1965, tive a oportunidade de reiterar a rejeição categórica de qualquer forma de antissemitismo, que infelizmente continua a semear ódio e morte, e a importância de cultivar o diálogo judaico-cristão, aprofundando as nossas comuns raízes bíblicas.
Na mesma ocasião comemorativa, o encontro com os representantes de todas as religiões permitiu-me renovar o meu apreço pelo caminho percorrido na via do diálogo inter-religioso nas últimas décadas, porque em toda a procura religiosa sincera há «um reflexo do único Mistério divino que abraça toda a criação». Nesse sentido, solicito à comunidade dos Estados que garanta total liberdade religiosa e de culto aos seus respectivos cidadãos.
No entanto, não se pode ignorar que a perseguição aos cristãos continua a ser uma das crises de direitos humanos mais difundidas atualmente, afetando mais de 380 milhões de crentes em todo o mundo, os quais sofrem níveis elevados ou extremos de discriminação, violência e opressão devido à sua fé. O fenómeno afeta aproximadamente um em cada sete cristãos a nível global e, em 2025, agravou-se por causa dos conflitos em curso, dos regimes autoritários e do extremismo religioso. Infelizmente, todos estes dados mostram que, em muitos contextos, a liberdade religiosa é considerada mais um “privilégio” ou uma concessão do que um direito humano fundamental.
Neste momento, penso de modo especial nas numerosas vítimas daquela violência também marcada por motivos religiosos no Bangladesh, na região do Sahel e na Nigéria, bem como nas vítimas do grave atentado terrorista ocorrido em junho passado na paróquia de Santo Elias, em Damasco, sem esquecer as vítimas da violência jihadista em Cabo Delgado, Moçambique.
Não se deve, contudo, esquecer uma forma subtil de discriminação religiosa contra os cristãos, que se está a difundir também em países em que eles estão em maioria, como na Europa ou nas Américas, onde às vezes, por razões políticas ou ideológicas, se veem limitados na possibilidade de anunciar as verdades evangélicas, especialmente quando defendem a dignidade dos mais frágeis, dos nascituros, dos refugiados e dos migrantes, ou promovem a família.
No âmbito das suas relações e ações a nível internacional, a Santa Sé assume constantemente uma posição em defesa da dignidade inalienável de cada pessoa. Por isso, não se pode ignorar, por exemplo, que cada migrante é uma pessoa e que, como tal, possui direitos inalienáveis, que devem ser respeitados em todos os contextos. Além disso, nem todos os migrantes se deslocam por opção, pois muitos são forçados a fugir por causa de violências, perseguições, conflitos e até mesmo devido aos efeitos das alterações climáticas, como em várias partes da África e da Ásia. Neste ano, em que se celebra o 75.º aniversário da Organização Internacional para as Migrações, renovo o desejo da Santa Sé para que as ações que os Estados empreendem contra a ilegalidade e o tráfico de seres humanos não se tornem pretexto para prejudicar a dignidade dos migrantes e refugiados.
As mesmas considerações são válidas para os detidos, que nunca podem ser reduzidos à condição dos crimes que cometeram. Nesta ocasião, quero expressar o meu profundo reconhecimento aos Governos que responderam positivamente ao apelo do meu venerado Antecessor por gestos de clemência durante o Ano Jubilar, manifestando o desejo de que o espírito do Jubileu inspire de forma permanente e estrutural a administração da justiça, de modo que as penas sejam proporcionais aos crimes cometidos, sejam garantidas aos reclusos condições dignas e, sobretudo, se trabalhe pela abolição da pena de morte, medida que elimina toda a esperança de perdão e renovação. Não podemos esquecer o sofrimento de tantos detidos por motivos políticos, presentes em muitos Estados.
Por outro lado, segundo a perspectiva cristã, o ser humano é criado à imagem e semelhança de Deus, que, «chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor». Tal vocação manifesta-se de maneira privilegiada e única no seio da família. É neste contexto que se aprende a amar e se desenvolve a capacidade de se colocar ao serviço da vida, contribuindo assim para o desenvolvimento da sociedade e para a missão da Igreja.
Apesar da sua centralidade, a instituição familiar enfrenta hoje dois desafios cruciais. Por um lado, assiste-se a uma tendência preocupante no sistema internacional de negligenciar e subestimar o seu fundamental papel social, levando a uma sua progressiva marginalização institucional. Por outro lado, não se pode ignorar a crescente e dolorosa realidade das famílias frágeis, desestruturadas e sofredoras, atormentadas por dificuldades internas e fenómenos inquietantes, entre os quais a violência doméstica.
A vocação ao amor e à vida, que se manifesta de forma proeminente na união exclusiva e indissolúvel entre a mulher e o homem, impõe um imperativo ético fundamental: colocar as famílias em condições de acolher e cuidar plenamente da vida nascente. Isto é especialmente prioritário nos países que estão a atravessar uma dramática queda da taxa de natalidade. Com efeito, a vida é um dom inestimável que se desenvolve no âmbito de um projeto relacional baseado na reciprocidade e no serviço.
É à luz desta profunda visão da vida como dom a ser cuidado e da família como sua responsável guardiã que se impõe a rejeição categórica de práticas que negam ou instrumentalizam a origem da vida e o seu desenvolvimento. Entre elas, está o aborto, que interrompe uma vida nascente e nega o acolhimento do dom da vida. Nesse sentido, a Santa Sé expressa profunda preocupação relativamente a projetos destinados a financiar a mobilidade transfronteiriça com o objetivo de garantir o acesso ao chamado “direito ao aborto seguro” e considera deplorável que recursos públicos sejam destinados à eliminação da vida, em vez de serem investidos no apoio às mães e às famílias. O objetivo principal deve continuar a ser a proteção de cada nascituro e o apoio efetivo e concreto a todas as mulheres para que possam acolher a vida.
Do mesmo modo, existe a gestação de substituição, a qual, ao transformar a gravidez num serviço que pode ser comercializado, viola a dignidade tanto da criança, reduzida a um “produto”, como da mãe, instrumentalizando o seu corpo e o processo de gestação, e alterando o projeto de relacionamento original da família.
Semelhantes considerações podem ser estendidas aos doentes e às pessoas idosas e sozinhas, que por vezes têm dificuldade em encontrar uma razão para continuar a viver. É também tarefa da sociedade civil e dos Estados responder concretamente às situações de fragilidade, oferecendo soluções para o sofrimento humano, tais como os cuidados paliativos, e promovendo políticas de autêntica solidariedade, em vez de encorajar formas ilusórias de compaixão, como a eutanásia.
Uma reflexão análoga pode ser feita em relação aos muitos jovens obrigados a enfrentar inúmeras dificuldades, entre as quais a toxicodependência. É necessário um esforço conjunto de todos para erradicar este flagelo da humanidade, bem como o narcotráfico que o alimenta, a fim de evitar que milhões de jovens em todo o mundo acabem por ser vítimas do consumo de drogas. A par deste esforço, não devem faltar políticas adequadas de recuperação da dependência e maiores investimentos na promoção humana, na instrução e na criação de oportunidades de emprego.
À luz destes desafios, é necessário reiterar com veemência que a salvaguarda do direito à vida constitui o fundamento imprescindível de todos os outros direitos humanos. Uma sociedade só é saudável e avançada quando tutela a sacralidade da vida humana e se empenha ativamente em promovê-la.
As considerações que apresentei levam a pensar que, no contexto atual, esteja a ocorrer um verdadeiro “curto-circuito” dos direitos humanos. O direito à liberdade de expressão, à liberdade de consciência, à liberdade religiosa e até mesmo o direito à vida sofrem limitações em nome de outros direitos considerados novos, resultando na perda de vigor do próprio sistema de direitos humanos, o que abre caminho à força e à opressão. Isso ocorre quando cada direito se torna autorreferencial e, sobretudo, quando perde a sua conexão com a realidade das coisas, a sua natureza e a verdade.
Senhores Embaixadores,
Se Santo Agostinho destaca a coexistência da cidade celestial e da cidade terrena até o fim dos tempos, a nossa época parece mais inclinada a negar o “direito de cidadania” à cidade de Deus. Parece existir apenas a cidade terrena, encerrada exclusivamente dentro dos seus próprios limites. A procura exclusiva de bens imanentes mina aquela “tranquilidade da ordem” (cf. XIX, 13) que, para Agostinho, constitui a própria essência da paz, a qual diz respeito tanto à sociedade e às nações quanto à própria alma humana, e é essencial para qualquer convivência civil. Na ausência de um fundamento transcendente e objetivo, prevalece apenas o amor a si mesmo, até à indiferença para com Deus que governa a cidade terrena (cf. XIV, 28). Contudo, como observa Agostinho, «grande é a insensatez do orgulho nestes indivíduos que colocam na vida presente o fim do bem e que pensam tornar-se felizes por si mesmos» (XIX, 4.4).
O orgulho ofusca a própria realidade e a empatia para com o próximo. Não é por acaso que na origem de todo conflito está sempre uma raiz de orgulho. Como tive oportunidade de recordar na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, «assim, perde-se o realismo e se cede a uma representação parcial e distorcida do mundo, sob o sinal das trevas e do medo», abrindo deste modo caminho à lógica do confronto, preâmbulo de toda a guerra.
Vemos isso em muitos contextos, a começar pelo prolongar-se da guerra na Ucrânia, com o enorme sofrimento infligido à população civil. Perante esta dramática situação, a Santa Sé reafirma com determinação a urgência de um cessar-fogo imediato e de um diálogo animado pela procura sincera de vias capazes de conduzir à paz. Dirijo um apelo urgente à Comunidade internacional para que não desista do compromisso de encontrar soluções justas e duradouras para proteger os mais frágeis e devolver a esperança às populações afetadas, renovando a total disponibilidade da Santa Sé para acompanhar qualquer iniciativa que promova a paz e a concórdia.
Vemos o mesmo na Terra Santa, onde, apesar da trégua anunciada em outubro, a população civil continua a sofrer uma grave crise humanitária, que acrescenta ainda mais sofrimento ao que já é vivido. A Santa Sé segue com especial atenção todas as iniciativas diplomáticas que visam garantir aos palestinianos da Faixa de Gaza um futuro de paz e justiça duradouras na sua própria terra, bem como a todo o povo palestiniano e ao inteiro povo israelita. De modo particular, a solução de dois Estados continua a ser a perspectiva institucional que responde às legítimas aspirações de ambos os povos, embora, infelizmente, se verifique na Cisjordânia o aumento da violência perpetrada contra a população civil palestiniana, que tem o direito de viver em paz na sua terra.
O intensificar-se das tensões no Mar das Caraíbas e ao longo da costa americana do Pacífico também suscita grande preocupação. Gostaria de renovar o meu urgente apelo para que se procurem soluções políticas pacíficas à atual situação, tendo em mente o bem comum das populações e não a defesa de interesses de parte.
Isto aplica-se particularmente à Venezuela, na sequência dos recentes acontecimentos. Neste sentido, renovo o apelo ao respeito pela vontade do povo venezuelano e ao empenho na defesa dos direitos humanos e civis de todos e na construção de um futuro de estabilidade e concórdia, haurindo inspiração no exemplo dos seus dois filhos que tive a alegria de canonizar em outubro passado, José Gregorio Hernández e Irmã Carmen Rendiles, a fim de construir uma sociedade baseada na justiça, na verdade, na liberdade e na fraternidade, e assim superar a grave crise que há muitos anos aflige o país.
Outras crises assinalam o panorama mundial. Refiro-me, em primeiro lugar, à dramática situação no Haiti, marcada por todo o tipo de violência, desde o tráfico de seres humanos a exílios forçados e sequestros. A este respeito, faço votos de que, com o apoio necessário e concreto da Comunidade internacional, o país possa, o mais rapidamente possível, dar os passos necessários para restabelecer a ordem democrática, pôr fim à violência e alcançar a reconciliação e a paz.
Não podemos também esquecer a situação que há décadas afeta a região africana dos Grandes Lagos, assolada por violências que ceifaram inúmeras vidas. Encorajo as partes envolvidas a procurarem uma solução definitiva, justa e duradoura, que ponha fim a um conflito que já dura há demasiado tempo. Da mesma forma, penso na situação no Sudão, transformado num vasto campo de batalha, e na instabilidade política que persiste no Sudão do Sul, o país mais jovem da família das nações, surgido após o referendo de há quinze anos.
Não podemos deixar de mencionar ainda o intensificar-se dos sinais de tensão no Leste Asiático, expressando o desejo de que todas as partes envolvidas adotem uma abordagem pacífica e dialogante face às questões controversas que são fonte de potencial conflito.
Penso de modo particular na grave crise humanitária e de segurança que aflige Mianmar, ainda mais agravada pelo devastador terramoto do passado mês de março. Com renovada intensidade, apelo a que se escolham com coragem caminhos de paz e diálogo inclusivo, garantindo a todos um acesso justo e rápido à ajuda humanitária. Os percursos democráticos, para serem autênticos, devem ser acompanhados pela vontade política de procurar o bem comum, reforçar a coesão social e promover o desenvolvimento integral de cada pessoa.
Em muitos destes cenários, como salienta o próprio Agostinho, verificamos que no centro está sempre a ideia de que a paz é possível apenas com a força e sob o efeito da dissuasão. Além disso, enquanto a guerra se contenta em destruir, a paz, ao contrário, exige um esforço contínuo e paciente de construção e permanente vigilância. Tal esforço interpela todos, a começar pelos países que possuem arsenais nucleares. Penso, em particular, no importante seguimento a dar ao Tratado New START, que termina no próximo mês de fevereiro. O perigo é que o sonho seja o da corrida a produzir novas armas cada vez mais sofisticadas, mesmo recorrendo à inteligência artificial. Esta última é uma ferramenta que requer uma gestão adequada e ética, bem como quadros normativos centrados na proteção da liberdade e na responsabilidade humana.
Estimados Embaixadores,
Apesar do quadro dramático que temos diante dos nossos olhos, a paz continua a ser um bem árduo, mas possível. Ela, como recorda Agostinho, «é o fim do nosso bem» (XIX, 11), pois é o fim próprio da cidade de Deus, à qual aspiramos, mesmo inconscientemente, e da qual podemos gozar antecipadamente na cidade terrena. Durante a nossa peregrinação nesta terra, ela exige humildade e coragem. A humildade da verdade e a coragem do perdão. Na vida cristã, elas são representadas pelo Natal, em que a Verdade, o Verbo eterno de Deus, se faz humilde carne, e pela Páscoa, em que o Justo condenado perdoa os seus perseguidores, dando-lhes a sua vida de Ressuscitado.
Depois, olhando bem, também não faltam no nosso tempo sinais de corajosa esperança, que devem ser constantemente apoiados. Penso, por exemplo, nos Acordos de Dayton, que há trinta anos puseram fim à sangrenta guerra na Bósnia e Herzegovina, e que, apesar das dificuldades e tensões, abriram a possibilidade de um futuro mais próspero e harmonioso. Penso também na Declaração conjunta de paz entre a Arménia e o Azerbaijão, assinada em agosto passado, que esperamos possa abrir caminho a uma paz justa e duradoura no Cáucaso meridional, resolvendo os problemas ainda em aberto com o contentamento de ambas as partes. Por analogia, penso no grande empenho demonstrado nestes anos pelas autoridades vietnamitas em melhorar as relações com a Santa Sé e as condições em que a Igreja atua no país. São rebentos de paz, que precisam de ser cultivados.
No próximo mês de outubro, comemoraremos o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis, um homem de paz e diálogo, universalmente respeitado, mesmo por aqueles que não pertencem à Igreja católica. A sua vida é luminosa porque foi animada pela coragem da verdade e pela consciência de que um mundo pacífico se constrói a partir de um coração humilde, voltado para a cidade celestial. Um coração humilde e construtor de paz é o que desejo a cada um de nós e a todos os habitantes dos nossos países no início deste novo ano.
Obrigado!“
__________________
…..
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, se inscreva no nosso canal do WhatsApp https://whatsapp.com/channel/0029Var4FMQ6RGJE2FtlnS1V e você receberá notícias das Arquidioceses, Dioceses e Prelazias no Pará e Amapá. E aproveite para nos seguir no instagram https://www.instagram.com/cnbbn2/