por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2

No primeiro domingo da Quaresma, o Papa Leão XIV, ao proferir o Angelus na Praça de São Pedro, convidou os fiéis a encarar o período como um “itinerário luminoso” de renovação espiritual. O Pontífice usou o exemplo de Jesus no deserto, tentado após quarenta dias de jejum, para alertar contra as seduções da riqueza, fama e poder, que são “míseros substitutos da alegria” criados para a humanidade.

O Caminho da Penitência: Oração, Jejum e Esmola

A mensagem central da Quaresma, segundo o Papa, é cooperar com o Senhor para remover as “manchas e feridas” causadas pelo pecado e fazer a vida florescer em sua plenitude de amor. Citando São Paulo VI, o Pontífice reforçou que a penitência, longe de empobrecer, enriquece a humanidade, fortalecendo-a em direção ao amor.

Para concretizar essa renovação, Francisco ofereceu passos práticos como dar espaço ao silêncio, silenciando temporariamente televisões, rádios e *smartphones*; meditar a Palavra de Deus e aproximar-se dos Sacramentos. Além disso, instou à prática da misericórdia, pedindo que se dedique tempo aos que vivem sós, aos idosos, pobres e doentes, renunciando ao supérfluo e partilhando o que for poupado. “A nossa oração, feita com humildade e caridade… alcançará o Céu e nos dará paz”, concluiu.

Quatro Anos de Guerra: Apelo Veemente pela Paz

Após a reflexão quaresmal, o Leão XIV dirigiu seu coração à Ucrânia, marcando quatro anos desde o início da guerra. Com grande pesar, ele descreveu o conflito como uma “ferida infligida à inteira família humana”, que deixa um rastro de morte, devastação e dor intergeracional.

Renovando com veemência seu apelo, o Pontífice exigiu que “as armas se calem” e que os bombardeamentos cessem imediatamente. Ele enfatizou que a paz não pode ser adiada e deve traduzir-se em decisões responsáveis. Convidou todos os fiéis a se unirem em oração pelo povo ucraniano e por todos os que sofrem com os conflitos mundiais, para que o “tão esperado dom da paz possa brilhar nos nossos dias”.

Leia abaixo o seu discurso na integra.

ANGELUS

Praça de São Pedro
Domingo, 22 de fevereiro de 2026

Queridos irmãos e irmãs, bom domingo!

Hoje, primeiro domingo da Quaresma, o Evangelho fala-nos de Jesus que, conduzido pelo Espírito, vai para o deserto e é tentado pelo diabo (cf. Mt 4, 1-11). Depois de jejuar durante quarenta dias, sente o peso da sua humanidade: a fome, sob o plano físico, e as tentações do diabo, sob o plano espiritual. Ele experimenta o mesmo cansaço que todos nós vivenciamos no nosso caminho e, resistindo ao demónio, mostra-nos como vencer os seus enganos e insídias.

Com esta Palavra de vida, a liturgia convida-nos a olhar para a Quaresma como um itinerário luminoso no qual, com a oração, o jejum e a esmola, podemos renovar a nossa cooperação com o Senhor ao realizar da obra-prima única da nossa vida. Trata-se de permitir que Ele remova as manchas e cure as feridas que o pecado pode ter causado nela, e de nos comprometermos em fazê-la florescer em toda a sua beleza até à plenitude do amor, fonte exclusiva da verdadeira felicidade.

Trata-se, sem dúvida, de um percurso exigente, e o risco é desanimar ou deixarmo-nos seduzir por formas de gratificação menos árduas, como a riqueza, a fama e o poder (cf. Mt 4, 3-8). Estas, que também foram as tentações que Jesus enfrentou, são, no entanto, apenas míseros substitutos da alegria para a qual fomos criados e, no final, deixam-nos inevitável e eternamente insatisfeitos, inquietos e vazios.

Por isso, São Paulo VI ensinava que a penitência, longe de empobrecer, enriquece a nossa humanidade, purificando-a e fortalecendo-a no seu movimento em direção a um horizonte que tem «como finalidade o amor e o abandono no Senhor» (Const. ap. Paenitemini, 17 de fevereiro de 1966, I). Assim, a penitência, ao mesmo tempo que nos torna conscientes das nossas limitações, dá-nos a força para as superar e, com a ajuda de Deus, viver uma comunhão cada vez mais intensa com Ele e entre nós.

Neste tempo de graça, pratiquemo-la generosamente, a par da oração e das obras de misericórdia. Dêmos espaço ao silêncio: silenciemos um pouco as televisões, os rádios, os smartphones. Meditemos a Palavra de Deus, aproximemo-nos dos Sacramentos; escutemos a voz do Espírito Santo, que nos fala ao coração, e escutemo-nos uns aos outros, nas famílias, nos locais de trabalho, nas comunidades. Dediquemos tempo a quem vive sozinho, especialmente aos idosos, aos pobres e aos doentes. Renunciemos ao supérfluo e partilhemos o que pouparmos com quem carece do necessário. Então, como diz Santo Agostinho, «a nossa oração, feita com humildade e caridade, com jejum e esmola, com temperança e perdão, distribuindo coisas boas e não retribuindo na mesma moeda as más, afastando-nos do mal e fazendo o bem» (cf. Sermão 206, 3), alcançará o Céu e nos dará paz.

Confiemos o nosso caminho quaresmal à Virgem Maria, Mãe que sempre assiste os seus filhos nas provações.

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Depois do Angelus:

Queridos irmãos e irmãs,

Passaram-se já quatro anos desde o início da guerra contra a Ucrânia. O meu coração segue voltado para a dramática situação que está diante dos olhos de todos: quantas vítimas, quantas vidas e famílias despedaçadas, quanta destruição, quanto sofrimento indescritível! Toda guerra é realmente uma ferida infligida à inteira família humana: deixa para trás morte, devastação e um rastro de dor que marca gerações.

A paz não pode ser adiada: é uma necessidade urgente, que deve encontrar espaço nos corações e traduzir-se em decisões responsáveis. Por isso, renovo com veemência o meu apelo: que as armas se calem, que cessem os bombardeamentos, que se chegue sem demora a um cessar-fogo e que se reforce o diálogo para abrir caminho à paz.

Convido todos a unirem-se em oração pelo martirizado povo ucraniano e por aqueles que sofrem em razão desta guerra e dos outros conflitos no mundo, para que o tão esperado dom da paz possa brilhar nos nossos dias.

E agora dirijo a minha saudação a todos vós, fiéis de Roma e peregrinos italianos e de vários países.

Abençoo de coração, no centenário da fundação, o Instituto das Irmãs Operárias de Jesus. Saúdo a Escola de São José Calasanz de Prievidza, na Eslováquia, e dirijo o meu encorajamento às Associações que se empenham em enfrentar juntas as doenças raras.

Saúdo o grupo do Apostolado da Oração de Biella, os fiéis de Nicosia, Castelfranco Veneto e do Decanato de Melegnano; os crismandos de Boltiere, os jovens da Comunidade Pastoral Santa Maria Madalena de Milão e os escuteiros de Tarquinia.

Desejo a todos um bom domingo e um bom caminho quaresmal.

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