
por Dom Paulo Andreolli, SX
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém
Caros leitores, no último dia 18 de fevereiro, Quarta-feira de Cinzas, iniciamos o tempo quaresmal e com ele, a Igreja no Brasil nos convida a refletir sobre a Campanha da Fraternidade, que neste ano de 2026 tem como tema: “Fraternidade e Moradia” e o lema: “Ele veio morar entre nós!” (Jo 1,14). E para esta reflexão semanal conto com a colaboração de Ir. Maria Rejiane da Mata Dias, Filha da Caridade.
Neste 1º Domingo da Quaresma a Igreja nos convida a olhar para dentro do coração e também para a realidade ao nosso redor. É tempo de conversão, de mudança de vida, de rever escolhas. A liturgia de hoje nos ajuda a entender que o pecado desfigura o projeto de Deus, mas a graça restaura, reconstrói e devolve dignidade.
A reflexão ganha um destaque especial com o tema da Campanha da Fraternidade 2026 sobre moradia. Falar de conversão também é falar de compromisso com a vida concreta das pessoas, especialmente aquelas que não têm uma casa digna para morar.
A 1ª Leitura do livro do Gênesis (Gn 2,7-9.3,1-7) apresenta Deus criando o ser humano com carinho. Ele molda o homem do pó da terra e sopra em suas narinas o sopro da vida. Ele planta um jardim e coloca ali o ser humano para viver. É uma imagem bonita: Deus prepara um lugar para que a pessoa tenha vida, proteção, alimento e dignidade. Desde o início, o Senhor quer que o ser humano tenha um “lar”.
Mas o texto também mostra a ruptura. A serpente engana, o homem e a mulher desobedecem, e o pecado entra na história. Eles passam a sentir medo, vergonha, desconfiança. O relacionamento com Deus e entre eles fica ferido. O pecado sempre produz desordem: onde havia harmonia, nasce divisão; onde havia confiança, surge medo.
O Salmo 50(51) é o grito de quem reconhece o erro: “Piedade, Senhor, tende piedade”. É a oração de quem sabe que precisa recomeçar. O salmista pede um coração novo, um espírito renovado. A Quaresma é exatamente isso: um tempo de pedir a Deus que refaça em nós o que foi quebrado.
Na 2ª leitura (Rm 5,12-19), São Paulo explica que, se pelo pecado de um só – Adão – o mal entrou no mundo, por um só homem – Jesus Cristo – veio a salvação. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Cristo não apenas perdoa; Ele reconstrói. Ele abre um novo caminho de vida.
O Evangelho de Mateus (Mt 4,1-11) apresenta Jesus sendo tentado no deserto. Durante quarenta dias, Ele jejua e enfrenta o tentador. São três tentações que, no fundo, continuam presentes na nossa vida.
A primeira é transformar pedra em pão. É a tentação de colocar as necessidades materiais acima de tudo, de achar que a vida se resume ao consumo. Jesus responde: “Nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus”. O pão é importante, mas não é tudo. A vida humana precisa de sentido, de fé, de valores.
A segunda tentação é se jogar do alto do templo para provar que Deus o protegeria. É a tentação do espetáculo, da busca por poder e reconhecimento. Jesus responde que não se deve tentar a Deus. Fé não é exibicionismo; é confiança humilde.
A terceira tentação é receber todos os reinos do mundo em troca de adoração ao mal. É a tentação do poder a qualquer preço. Jesus rejeita com firmeza: “Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele servirás”. Ele escolhe o caminho da fidelidade, mesmo que isso leve à cruz.
O que essas leituras têm a ver com a moradia? Tudo.
No Gênesis, Deus oferece um jardim, um lugar de vida. Hoje, milhões de pessoas vivem sem casa adequada, em áreas de risco, nas ruas das grandes cidades. Falta saneamento, falta segurança, falta dignidade. A ausência de moradia digna é um sinal concreto de que o projeto de Deus ainda não se realiza plenamente entre nós.
O pecado também aparece nas estruturas injustas que geram desigualdade. Quando há concentração de terra e imóveis nas mãos de poucos e multidões sem teto, algo está errado. Quando há famílias que vivem em ambientes insalubres, estamos diante de uma ferida social.
Que esta Quaresma seja um tempo de revisão de vida. Que possamos vencer as tentações da indiferença, do consumismo exagerado e da busca de vantagens pessoais. Que aprendamos a partilhar mais, a olhar mais para quem sofre, a transformar fé em ação concreta. Assim, não será apenas um tempo de palavras, mas de gestos concretos de fraternidade.
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