por Dom Paulo Andreolli, SX
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém

Caríssimos leitores, já estamos na terceira semana do primeiro mês deste ano de 2026 e cabe aqui uma reflexão sobre o “Ser testemunha da paz de Cristo”. Para esta partilha, conto com a colaboração do missionário Xaveriano, Padre René Casillas Barba, SX. A seguir, trazemos alguns itens com suas contribuições acerca da temática da paz.

A paz que o mundo não dá

Vivemos numa época paradoxal. Nunca estivemos tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão fragmentados socialmente. As redes sociais amplificam polarizações, as notícias multiplicam ansiedades, e a velocidade da vida moderna deixa pouco espaço para o silêncio interior. Neste cenário, falar sobre a paz de Cristo pode soar anacrônico. Contudo, talvez seja exatamente por isso que este testemunho se torna mais necessário e radical do que nunca. A paz que Cristo oferece difere substancialmente daquilo que o mercado e a cultura contemporânea vendem como tranquilidade.

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá” (Jo 14,27). Esta paz é um estado de ser que permanece mesmo quando tudo ao redor desmorona, quando o diagnóstico médico é grave, quando o desemprego bate à porta, quando relacionamentos se rompem.

Testemunhar no cotidiano

João Batista exemplifica o autêntico testemunho dessa paz. No Evangelho de João (1, 29-34), ele aponta para Cristo dizendo: “Eis o Cordeiro de Deus”. Sua missão não era promover-se, mas indicar o caminho. Assim também nós: testemunhar a paz de Cristo significa tornar-nos transparentes para que outros O vejam através de nós.

Testemunhar essa paz no cotidiano significa enfrentar o cinismo com esperança fundamentada, responder à cultura do cancelamento com possibilidade de redenção, e contrapor à lógica da rivalidade a prática da reconciliação.

Nas discussões acaloradas sobre política ou questões sociais que dominam grupos de WhatsApp, ser testemunha da paz não implica omissão, mas capacidade de dialogar sem desumanizar o interlocutor.

No ambiente de trabalho contemporâneo, marcado por competitividade extrema e burnout epidêmico, testemunhar a paz de Cristo pode significar recusar-se a participar de fofocas grupais, estabelecer limites saudáveis, ou tratar com dignidade aquele colega que todos evitam. São gestos pequenos que criam microclimas de humanidade em espaços frequentemente desumanizadores.

Missão ad gentes hoje

A dimensão missionária dessa paz revela-se essencial quando compreendemos que a missão ad gentes não é privilégio de religiosos em terras distantes, mas vocação de todo batizado.

O Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium, ensina que “a Igreja peregrina é missionária por sua natureza” (LG 2).

Hoje, essa missão acontece em territórios inexplorados pelo Evangelho: ambientes de trabalho secularizados, universidades marcadas pelo relativismo, periferias existenciais onde pessoas vivem sem horizonte de transcendência.

A missão ad gentes contemporânea exige nova pedagogia. Não se trata de impor verdades, mas de propor uma experiência.

Quando um cristão mantém serenidade em meio ao caos, quando responde com misericórdia onde todos esperam vingança, quando sustenta esperança diante do cinismo, ele está realizando missão ad gentes silenciosa, mas eloquente.

A paz interior torna-se apologética viva, mais convincente que argumentos teológicos.

A paz como apologética

São Paulo escreveu: “Como são belos os pés dos que anunciam a paz” (Rm 10,15). No contexto dele, eram pés que caminhavam por estradas empoeiradas. No nosso, podem ser mãos que digitam mensagens de encorajamento, braços que abraçam o diferente, ouvidos que escutam sem julgar.

A autenticidade deste testemunho será testada quando a paz parece impossível. Quando a injustiça nos revolta, quando a perda nos desola. É ali que se revela se nossa paz tem raízes profundas em Cristo ou é apenas verniz psicológico.

A paz de Cristo não nega a dor, mas a atravessa com esperança transformadora, tornando-nos sinais vivos de que outro mundo é possível mesmo em meio à desordem contemporânea.

A exemplo do Mestre Jesus, sejamos autênticos sinais de paz e esperança no mundo atual!

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