por Dom Julio Endi Akamine
Arcebispo da Arquidiocese de Belém

Durante estes últimos dias, é comum recebermos ou darmos calendários e agendas do próximo ano. Esse gesto, tão simples e corriqueiro, nos recorda algo fundamental que constitui nossa vida: nós somos seres temporais.

Temos e somos nossa própria história, que já não existe mais, porque passou, mas que de alguma forma ainda existe, uma vez que esse passado se identifica conosco. A cada momento, estamos planejando o futuro, que ainda não existe, mas que, de algum modo, se antecipa no nosso hoje. Para o hoje da vida, o passado retorna e converge como recordação, memória e duração. Para o nosso agora, o futuro se insere como tensão e grande mobilização de nossas energias vitais.

Somos seres temporais, pois o tempo não está fora de nós como realidade acrescentada ao nosso viver. De fato, o tempo é a realidade que mais se adere a nós, pois ele não somente flui continuamente, nem nos faz passar inexoravelmente com ele, mas pode ser experimentado como oportunidade que interpela nossa liberdade, como acontecimento que nos faz descobrir o sentido de nossa vida, como momento qualitativamente superior ao simples escorrer dos instantes.

Além do tempo que flui em momentos indiferentes e quantitativamente iguais entre si, experimentamos ocasiões em que o tempo parece se concentrar, se tornar qualitativamente diferente e importante. Acontecimentos como o nascimento de filhos, a morte de nossos caros, o encontro dos enamorados, as decisões de vida, podem ser marcados em nossos calendários, mas, pelo seu significado, superam a simples contagem do tempo. É aquilo que os gregos chamavam de kairós (tempo forte e significativo) em oposição ao chronos (simples transcorrer das horas e dos dias).

Os cristãos não somente contam o tempo com o relógio, mas o assumem e o experimentam em comunhão com Cristo. O tempo é vivido pelos cristãos como graça, encontro e liberdade.

Podemos, com efeito, sofrer o tempo: junto com ele se esvai a vida, a nossa, a dos outros e a do mundo. Sentimos a ameaça de nossa destruição, quando o tempo cava em nossas faces as rugas, condena-nos à decrepitude e impõe-nos impiedosamente a demência.

Podemos, porém, acolher o tempo como dom e entrar nele com sabedoria cristã, nos apropriando dele, vivendo cada momento e instante como seguimento de Cristo e buscando sintonizar as etapas de nossa vida com o ritmo de Deus. De fato, podemos nos assemelhar a Cristo justamente porque nada de nossa vida é deixado à margem da sua encarnação e da sua vinda ao nosso tempo.

Com a encarnação do Verbo, a eternidade de Deus toca nossa caducidade. Deus derrama a sua eternidade no fluir de nosso tempo e antecipa para nosso hoje sua promessa. Para nós é muito difícil pensar e entender o que seja a eternidade, que não é o correr indefinido do tempo, mas uma qualidade diversa de ser e de viver, que é própria de Deus.

Assim, os cristãos não somente contam o tempo com o relógio, mas o preenchem e o experimentam em comunhão com Cristo. O tempo é vivido pelos cristãos como graça, encontro e liberdade.

Por isso, a Igreja celebra o Ano Litúrgico, que nos ajuda a viver o que é indizível e nos convida a experimentar o que supera nossa temporalidade. Na celebração da liturgia, o futuro e o passado (o nosso, o do mundo e o do Verbo encarnado) convergem e se concentram num presente que já não é mais tempo. Um “não-tempo” em que o amor não conhece desgaste; o afeto não se perverte em ciúme; a comunhão com Deus e com os irmãos não termina nem é seletivo; o sentido não é fragmentado nem parcial; a generosidade não se corrompe em mesquinhez.

Nesse sentido, desejar “feliz Ano Novo” carrega o desejo de que o tempo seja experimentado e vivido como a eternidade de Deus.

Caro amigo, querida amiga, feliz ano novo com Cristo!

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