por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2
com informações Museu do Vaticano
O Vaticano inaugura no próximo 14 de março de 2026, às 16h, no Palácio Papal de Castel Gandolfo, a exposição “El Greco ao Espelho: dois quadros em confronto”, que coloca lado a lado duas obras do célebre pintor cretense. O destaque da mostra é a apresentação pública de uma pintura inédita atribuída a El Greco, recentemente restaurada e estudada pelos Museus Vaticanos.
A exposição propõe um diálogo entre duas pequenas obras do artista, nascido em 1541 em Cândia (atual Heraklion, na ilha de Creta) e falecido em 1614 em Toledo, na Espanha, cuja produção marcou profundamente a arte europeia do final do Renascimento.
A peça central da mostra é “O Redentor”, uma pintura a óleo sobre madeira de aproximadamente 45 x 29 centímetros, datada entre 1590 e 1595. A obra é conservada na Sala dos Embaixadores do Apartamento Pontifício das Audiências do Palácio Apostólico Vaticano e foi doada em 1967 ao Papa Paulo VI pelo intelectual e político católico espanhol José Sánchez de Muniáin.
Durante décadas, a pintura permaneceu envolta em dúvidas devido à falta de estudos aprofundados e ao seu estado de conservação. Com o tempo, a obra sofreu intervenções e repinturas que ocultaram suas características originais. A valorização crescente de El Greco ao longo do século XX também favoreceu a circulação de falsificações, contexto no qual a pintura teria sido parcialmente alterada por um falsificador que sobrepôs novas camadas à imagem original.
Recentemente, “O Redentor” foi submetido a um cuidadoso processo de restauração no Laboratório de Restauração de Pinturas e Materiais em Madeira dos Museus Vaticanos. O trabalho, conduzido pela restauradora Alessandra Zarelli e acompanhado por análises científicas do Gabinete de Pesquisas Científicas do Vaticano, revelou uma descoberta surpreendente: sob a superfície da obra foram identificadas duas camadas pictóricas anteriores, contendo esboços de outras composições do próprio El Greco.
A investigação confirmou que a pintura apresenta um verdadeiro palimpsesto artístico, resultado de sucessivas fases de criação do artista. Após a limpeza e análise técnica, especialistas confirmaram a plena autoria da obra, reforçando sua importância histórica e artística.
Para estabelecer um diálogo visual e histórico, a exposição apresenta também uma pequena têmpera sobre madeira representando São Francisco, datada por volta de 1570, período em que El Greco vivia em Roma após sua passagem pelos ateliês venezianos de Tiziano e Tintoretto. A obra pertence à Fundação A. e M.A. Pagliara da Universidade Suor Orsola Benincasa, de Nápoles, e é considerada um importante testemunho da fase inicial do artista.
A pintura mostra São Francisco acompanhado de frei Leão, figura que desapareceria de muitas representações do santo durante a fase espanhola de El Greco, voltando a aparecer apenas nos últimos anos de sua produção artística.
Além de valorizar o patrimônio artístico conservado pela Santa Sé, a exposição também possui um significado simbólico. A iniciativa presta homenagem ao Papa Leão XIV no ano em que a Igreja recorda o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis.
Após a cerimônia de inauguração, o público poderá acompanhar o primeiro concerto da temporada 2026 da série “Música nos Museus”, iniciativa cultural promovida pelos Museus Vaticanos para integrar diferentes expressões artísticas.
O concerto apresentará a obra “Stabat Mater”, de Giovanni Battista Pergolesi, interpretada pela Orquestra de Câmara das Cento Cidades e pelo Coro Eos, sob a regência de Mirco Roverelli, em uma apresentação dedicada ao tema “A Dor e a Oração”.
Segundo a diretora dos Museus Vaticanos, Barbara Jatta, a iniciativa reafirma o compromisso da instituição em promover a beleza e o diálogo entre as artes, ampliando a experiência cultural e espiritual do público.
A exposição reforça o papel dos Museus Vaticanos como espaço de investigação, conservação e difusão do patrimônio artístico mundial, revelando ao público novas perspectivas sobre a obra de um dos pintores mais singulares da história da arte.