3. George Rouy, Meditations II 2026 Detail

por Vívian Marler/ Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2

A fronteira entre o sagrado e a expressão artística contemporânea ganha um novo e fascinante capítulo em Roma. O Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa Sé acaba de anunciar o programa “Leggere, di nuovo” (Ler, de novo), um ciclo de exposições de arte contemporânea com duração de um ano que promete transformar a forma como o público interage com as obras de arte na Cidade Eterna.

2. George Rouy Meditations II (2026) Installation View at Conciliazione 5, Rome © Francesco Gili _ Courtesy Dicastery for Culture and Education

Com curadoria do aclamado historiador da arte e filólogo Donatien Grau, o projeto convida artistas renomados a refletirem sobre o ato da leitura, não apenas de textos, mas da própria imagem. A proposta é desafiadora, em um mundo saturado de estímulos visuais rápidos, a Igreja convida a parar e “ler” a arte com a profundidade de quem folheia um livro sagrado ou uma obra clássica.

O pontapé inicial deste ciclo ocorreu em março com a exposição Presence in Form, do britânico George Rouy, que inovou ao integrar pintura e sonoridade. Agora, o projeto ganha um novo fôlego com a chegada da artista Pan Daijing.

A apresentação oficial desta nova etapa acontece nesta quinta-feira, 2 de julho, na Sala São Pio X, e conta com uma presença do Cardeal José Tolentino de Mendonça. A participação do cardeal português, que é um reconhecido poeta e intelectual, reforça o compromisso do Vaticano em manter a Igreja como uma protagonista ativa no debate cultural moderno, reafirmando que a beleza e a arte são caminhos privilegiados para o encontro com o transcendente.

A exposição está instalada no espaço Conciliazione 5, uma localização estratégica próxima à Basílica de São Pedro. O ciclo se destaca por não se limitar às paredes da galeria. No caso de Rouy, por exemplo, o artista criou uma obra sonora a partir dos audiolivros que ouviu durante sua criação, liberando o áudio uma vez por dia na rua via QR Code, uma forma de levar a arte ao encontro do peregrino e do transeunte.

4. George Rouy, Meditations II 2026 Detail

Com a chegada de Pan Daijing, o público pode esperar uma continuidade desse percurso criativo que utiliza a natureza do “palimpsesto” (aquilo que é escrito e reescrito sobre camadas anteriores) para falar sobre a condição humana. Além da presença física em Roma, o projeto se estende para as plataformas digitais, com ações especiais no Instagram, permitindo que o mundo todo participe dessa reflexão sobre o que significa “ler” o mundo hoje.

Para quem está em Roma ou acompanha os movimentos culturais da Santa Sé, o ciclo Leggere, di nuovo é um convite à contemplação. Como define a proposta curatorial, é uma oportunidade de redescobrir que cada forma, cor e som carrega em si uma mensagem que espera por um leitor atento e disposto ao encontro.

Curadoria: Donatien Grau A leitura e a escrita são componentes essenciais da prática de Pan Daijing em diferentes meios: ler- se a si própria, ler emoções e pensamentos, ler lugares, ler sons, ao mesmo tempo que os inscreve no mundo. A perceção e a criação da arte e do mundo fazem parte de uma única experiência de vida. A sensação do mundo como uma realidade legível é fundamental para a sua perceção da arte. Ler não significa limitar- se à separação entre meios ou a uma conceção formal da arte: significa partir do mundo para decifrar e desvendar significados. Este significado nunca é estático; implica deslocamento e transformação, uma compreensão constantemente renovada daquilo que existe. Quanto mais o significado e a experiência são trabalhados e elaborados, mais centrais se tornam. A leitura surge então como uma realidade simultaneamente interior e pública — precisamente a condição arquitetónica da Conciliazione 5. Para ler, é necessário estar fisicamente presente no processo mental de descoberta de um novo mundo; é necessário confrontar a escuridão que nos rodeia para a atravessar e experimentar a luz do texto. A leitura é, portanto, uma experiência que nos liga ao que nos rodeia e que, ao mesmo tempo, abre um espaço profundamente pessoal dentro do mundo. O trabalho de Pan Daijing nasce dessa profundidade e cria pontes entre formas, associando escultura, filme e som na construção de uma única realidade.

 

Serviço:
Apresentação: Quinta-feira, 2 de julho de 2026, às 18h.
Local: Sala São Pio X (Via dell’Ospedale 1, Roma).
Inauguração da Exposição: Das 19h às 20h.

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