Caros leitores, neste nosso encontro semanal vamos refletir sobre o Dia Mundial das Missões e a liturgia do 29º Domingo do Tempo Comum que nos convida a olhar a realidade com os olhos de Deus, mesmo diante das rejeições, das armadilhas e dos desafios enfrentados por quem segue Jesus Cristo. Nesta oportunidade, colabora comigo o seminarista Eduardo Augusto Rosa de Matos.

No Evangelho de Mateus (22,15-21), fariseus e partidários de Herodes se unem para tentar surpreender Jesus em suas palavras, perguntando se era lícito pagar imposto a César.

A pergunta escondia uma armadilha. O pagamento de impostos ao Império Romano representava a submissão do povo judeu a uma potência estrangeira. Enquanto alguns aceitavam essa dominação, outros a rejeitavam. Os interlocutores de Jesus pretendiam colocá-lo em uma situação sem saída: qualquer resposta poderia provocar oposição.

Jesus, porém, percebe a malícia da pergunta e questiona sobre a imagem e a inscrição presentes na moeda do imposto. Ao reconhecerem que pertenciam a César, ouvem a resposta que atravessou os séculos: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).

Essa palavra vai além de uma discussão política ou tributária. Jesus nos ensina a discernir nossas responsabilidades diante da sociedade e de Deus. Somos chamados a cumprir nossos deveres como cidadãos, sem esquecer que nossa vida, nossa dignidade e nossa missão encontram seu sentido pleno no amor de Deus. A fé não nos afasta da realidade; ao contrário, ajuda-nos a vivê-la com justiça, responsabilidade e compromisso com o bem comum.

A primeira leitura (Is 45,1.4-6) amplia essa compreensão. Deus escolhe Ciro, rei da Pérsia, mesmo sendo estrangeiro e não o reconhecendo, como instrumento para libertar seu povo. O profeta recorda que o Senhor é o único Deus e que sua ação ultrapassa fronteiras, povos e sistemas políticos. Assim, Deus pode suscitar instrumentos de libertação até onde menos esperamos.

Essa mensagem nos recorda que nenhum poder humano é absoluto. A história permanece nas mãos de Deus, cujo amor não se limita às nossas divisões ou expectativas. Se Ele conduziu Ciro para libertar Israel, podemos confiar ainda mais em seu amor, revelado plenamente em Jesus Cristo, seu Filho, enviado para a salvação da humanidade.

Na segunda leitura (1Ts 1,1-5b), São Paulo reconhece que o Evangelho chegou à comunidade de Tessalônica não apenas por palavras, mas pela força do Espírito Santo. É o Espírito quem sustenta a fé, fortalece a caridade e firma a esperança. Ele é o protagonista da missão e nos ajuda a reconhecer que somos amados pelo Pai em Jesus Cristo.

 

Como discípulos e missionários, somos chamados a responder a esse amor com a entrega da própria vida. Em sintonia com o chamado missionário da Igreja, somos convidados a testemunhar o Evangelho com alegria, perseverança e generosidade, superando barreiras e levando a todos a riqueza que é Jesus Cristo.

Por isso, a liturgia deste domingo nos provoca a refletir: estamos cumprindo nossas responsabilidades como cidadãos? Temos oferecido a Deus o que lhe pertence, colocando nossos dons, nosso tempo e nossas atitudes a serviço do Reino?

Neste Mês Missionário de 2026, somos convidados a renovar nosso compromisso com a missão da Igreja, inspirados pelo tema “Um em Cristo, unidos na missão” e pelo lema “Para que o mundo creia” (cf. Jo 17,21).

E neste ano em que celebramos o centenário do Dia Mundial das Missões no dia 18 de outubro, recordemos que evangelizar é responsabilidade de todos os batizados. Por isso, rezemos pelos missionários e missionárias que anunciam o Evangelho em diferentes realidades e colaboremos generosamente com a coleta missionária, contribuindo financeiramente para que a Boa Nova alcance os povos e as comunidades que mais necessitam.

Unidos a Cristo, façamos da oração, da solidariedade e da partilha sinais concretos do amor de Deus, para que o mundo creia e todos conheçam a riqueza que é Jesus Cristo. Que nossas orações e nossa contribuição material fortaleçam a missão evangelizadora da Igreja e o trabalho de tantos missionários e missionárias.

A exemplo de Maria, que nos apresenta Jesus, sejamos testemunhas de um amor capaz de transformar vidas e construir uma sociedade mais justa e fraterna.

Dom Paulo Andreolli, SX

Bispo auxiliar de Belém