por Dom Paulo Andreolli, SX
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém

com colaboração com Sylvia Calandrini,
licenciada em Letras e professora do Instituto Vicentino Catarina Labouré

Aos homens e mulheres de nosso tempo, graça e paz.

Escrevo a vocês numa época marcada por muitas vozes e poucas escutas; por avanços extraordinários da tecnologia e por inquietações que continuam habitando o coração humano. Escrevo, sobretudo, na semana em que a Igreja celebra São Pedro e São Paulo, dois homens que atravessaram os séculos não por terem acumulado poder ou riqueza, mas porque permitiram que suas vidas fossem transformadas pelo amor de Deus.

Talvez alguém pergunte o que pescadores da Galileia, missionários do primeiro século e antigas cartas escritas em pergaminhos ainda tenham a dizer ao mundo de hoje. A resposta pode ser encontrada numa pergunta feita por Jesus há quase dois mil anos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15).

No Evangelho proclamado neste domingo, Jesus conduz os discípulos a uma experiência decisiva. Depois de ouvir as opiniões da multidão, dirige-lhes uma pergunta pessoal. A fé não poderia permanecer no terreno do que os outros pensam. Era preciso uma resposta que brotasse do coração. Pedro então declara: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. A partir dessa profissão de fé, recebe uma missão: tornar-se pedra sobre a qual Cristo edificaria a sua Igreja.

Observem um detalhe. Jesus não entrega uma missão a Pedro porque ele ser o mais forte, o mais sábio ou o mais perfeito. Os Evangelhos mostram justamente o contrário. Pedro era impulsivo, vacilante e, em alguns momentos, profundamente frágil. Negou o Mestre quando o medo falou mais alto. Ainda assim, foi escolhido. Não porque fosse impecável, mas porque aprendera a amar.

Algo semelhante aconteceu com Paulo. Antes de ser o grande missionário das nações, foi perseguidor dos cristãos. Antes de anunciar Cristo, combateu aqueles que acreditavam nele. Contudo, ao encontrar-se com o Senhor no caminho de Damasco, descobriu que a verdadeira força não está em impor convicções, mas em deixar-se transformar pela verdade que liberta.

Pedro e Paulo possuíam histórias diferentes, temperamentos distintos e trajetórias quase opostas. No entanto, encontraram-se naquilo que é essencial: ambos compreenderam que a missão nasce no coração que ama.

Essa talvez seja uma das lições mais necessárias para os nossos dias. Frequentemente associamos missão a cargos, funções ou atividades extraordinárias. Pensamos que somente algumas pessoas são chamadas a transformar o mundo. Entretanto, a tradição cristã ensina algo diferente. A missão começa quando alguém permite que o amor recebido de Deus se converta em amor oferecido aos outros.

Por isso, a missão não pertence apenas aos templos. Ela acontece nas casas, quando pais e mães educam os filhos com responsabilidade. Acontece nas escolas, quando educadores ajudam seus alunos a descobrir sentido para a vida. Acontece nos hospitais, quando profissionais da saúde cuidam dos enfermos com respeito e compaixão. Acontece nas instituições públicas, quando servidores compreendem que sua função é promover o bem comum. Acontece nas ruas, quando alguém escolhe a honestidade em vez da vantagem fácil.

Santa Teresa de Calcutá expressou essa verdade de maneira admirável ao dizer que “o fruto do amor é o serviço”. O amor autêntico nunca permanece fechado em si mesmo. Ele transborda. Torna-se compromisso. Gera responsabilidade. Produz transformação.

Talvez por isso a Igreja celebre nesta mesma solenidade o Dia do Papa. Como sucessor de Pedro, o Santo Padre recorda que a missão confiada por Cristo continua viva através dos séculos. Mais do que uma função administrativa, o ministério petrino é um serviço à unidade e à comunhão. Em tempos de fragmentação e conflitos, sua presença recorda que a Igreja é chamada a ser sinal de encontro e não de divisão.

Caros leitores, talvez a pergunta mais importante desta solenidade não seja o que Pedro e Paulo fizeram no passado, mas o que seu testemunho inspira em nosso presente. Num mundo que valoriza a aparência, eles falam de autenticidade. Num tempo marcado pela pressa, falam de encontro. Em meio a tantas divisões, falam de comunhão. Onde muitos veem apenas interesses, eles recordam a força transformadora do amor.

Ao concluir esta carta, deixo-vos uma convicção simples e exigente. As grandes mudanças da história raramente começaram nos centros do poder. Muitas vezes nasceram no silêncio de corações que aprenderam a amar. Foi assim com Pedro. Foi assim com Paulo. Continua sendo assim conosco.

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