
Caros leitores, iniciamos um novo mês, que coincide com a Solenidade de Todos os Santos. Essa celebração nos recorda que todos os cristãos são chamados à santidade, isto é, a viver de acordo com os ensinamentos do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pelo Batismo, tornamo-nos membros da grande família de Deus e somos incorporados à Igreja. Esse sacramento é a porta de entrada para a vida cristã e nos introduz também no caminho da santidade, que é um chamado dirigido a todos, sem distinção.
O próprio Jesus nos apresenta um caminho para a santidade por meio das Bem-aventuranças, que compõem o Evangelho proclamado nesta Solenidade. Cada uma delas nos aponta uma maneira concreta de viver segundo a vontade de Deus. Jesus começa dizendo: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). Aqui, não se trata apenas da pobreza material, mas, sobretudo, de um coração desapegado, humilde e confiante na Providência Divina. Ser pobre em espírito é reconhecer que precisamos de Deus e que nossa verdadeira riqueza está na comunhão com Ele.
Mais adiante, Jesus afirma: “Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,11-12). Com essas palavras, o Senhor nos ensina que o caminho da santidade exige compromisso, perseverança, testemunho e coragem para viver os valores do Evangelho, mesmo diante das dificuldades. Ser santo não significa estar livre dos problemas, mas permanecer fiel a Deus e ao próximo, inclusive nos momentos de provação.
Encontramos também no livro do Levítico o convite que o próprio Deus faz ao seu povo por meio de Moisés: “Sejam santos, porque eu, Javé, o Deus de vocês, sou santo” (Lv 19,2). Esse chamado revela que a santidade faz parte do projeto de Deus para a humanidade. Não se trata de um ideal reservado a algumas pessoas especiais, mas de um caminho possível para todos os que desejam viver na amizade com o Senhor. Embora não seja uma tarefa fácil, a santidade é uma resposta de amor ao Deus que nos chama e nos acompanha em nossa caminhada.
Diante disso, vale a pena refletir sobre o título deste artigo: a santidade se constrói no dia a dia. As leituras desta solenidade nos ajudam a compreender que esse chamado não se realiza apenas por meio de grandes feitos ou acontecimentos extraordinários. A santidade se manifesta nas situações comuns da vida, nas pequenas escolhas, nas atitudes de respeito, no perdão oferecido, na paciência com os outros e na disposição de fazer o bem. Afinal, como nos recorda o Papa Francisco na exortação apostólica Gaudete et Exsultate, a santidade “não é mais do que a caridade plenamente vivida” (n. 21).
Ao olharmos para a vida dos santos e das santas reconhecidos pela Igreja, percebemos que cada um viveu sua vocação de maneira particular, em diferentes épocas e circunstâncias. Eles não foram pessoas sem limites ou dificuldades, mas homens e mulheres que procuraram permanecer fiéis a Deus e colocar o amor em prática. Suas histórias nos mostram que a santidade não consiste em nunca errar, mas em reconhecer as próprias fragilidades, buscar a conversão e recomeçar sempre que necessário. Por isso, os santos são exemplos que nos inspiram e nos ajudam a compreender que também podemos trilhar esse caminho.
Além dos santos canonizados, existem muitas pessoas que vivem a santidade de maneira discreta, sem receber reconhecimento público. São mães e pais que educam os filhos com amor, trabalhadores que cumprem suas responsabilidades com honestidade, pessoas que cuidam dos doentes, jovens que se dedicam ao bem comum e idosos que, mesmo diante das limitações da idade, continuam testemunhando a fé e a esperança. São os chamados “santos ao pé da porta”, expressão utilizada pelo Papa Francisco na Gaudete et Exsultate. No número 7 dessa exortação, ele afirma: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir”.
Portanto, a santidade pode ser vivida em todos os lugares, por meio de pequenos gestos de amor, solidariedade, justiça e perdão. O importante é que nossas atitudes revelem o amor de Deus e o desejo de fazer a sua vontade. E nessa caminhada, não estamos sozinhos. A oração, a escuta da Palavra de Deus, a participação nos sacramentos e a convivência comunitária nos fortalecem na fé e nos ajudam a crescer na santidade.
As Bem-aventuranças nos apresentam um verdadeiro caminho para seguir Jesus. Praticar a misericórdia, promover a paz, buscar a justiça e permanecer fiel ao Evangelho são atitudes que transformam nossa vida e contribuem para a construção de um mundo mais humano e fraterno.
Meus irmãos e minhas irmãs, ao celebrarmos a Solenidade de Todos os Santos, renovemos nosso compromisso com Deus. A santidade começa nas pequenas atitudes de cada dia, no modo como amamos, servimos e nos relacionamos com o próximo. Peçamos ao Senhor a graça de viver as Bem-aventuranças com fé, humildade e perseverança, lembrando sempre que a santidade se constrói no dia a dia.
Dom Paulo Andreolli, SX
Bispo auxiliar de Belém e nomeado
para a Diocese de Ponta de Pedras