Padres missionários evangelizando pela Amazônia / Prelazia Itaituba

por Vivian Marler / Assessora de Comunicação CNBB do Regional Norte 2

O ar no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, entre os dias 15 e 24 de abril de 2026, não era apenas o da devoção tradicional que move milhões de romeiros. No auditório que abrigou a 62ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o clima era de um “novo Cenáculo”. Ali, o maior episcopado do mundo, 373 bispos ativos e eméritos, deu à luz um documento que promete não apenas orientar, mas transformar a face da Igreja Católica no país pelos próximos seis anos.

credito Regional Norte 2

As novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE) para o período de 2026-2032 foram aprovadas por unanimidade. Mas o que parece um rito burocrático é, na verdade, o desfecho de uma “gestação” espiritual de três anos. Como define Dom Antônio de Assis Ribeiro, bispo da Diocese de Macapá (AP), a produção desse texto foi orgânica, “Compreendeu pontos de partida, processos, sujeitos e etapas. O texto foi crescendo e se tornando pluridimensional, como um bebê que forma seus membros e órgãos à medida que a vida se impõe”.

credito Regional Norte 2

A grande novidade simbólica desta Assembleia é a transição da imagem da Igreja como uma “Casa” de paredes rígidas para a imagem bíblica da “Tenda”. Segundo Dom Antônio, essa metáfora, reforçada pelo Sínodo sobre a Sinodalidade e pelo Documento de Aparecida, quer enfatizar a necessidade de flexibilidade e acolhida. “Não queremos uma Igreja engessada, imóvel, que não acompanha os tempos. A tenda pode ser alargada à medida que chega mais gente”, explica o bispo de Macapá. Para sustentar essa estrutura móvel e resistente aos ventos da modernidade, o documento apoia-se em três “estacas” fundamentais, a Fé, a Esperança e a Caridade.

credito AG CNBB

Essa visão é corroborada por Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, que em sua homilia de encerramento lembrou que o encontro pessoal com Cristo torna o fiel um peregrino, não um morador estático. “Nós nos tornamos aquilo que amamos. O modo de ser de Jesus é o da doação, da entrega e do serviço. Assimilar o Filho amado é amar a todos”, enfatizou o cardeal, alertando para a necessidade de uma “vigilância contínua” contra o entorpecimento da alma diante das injustiças e dos discursos para “plateias fanatizadas”.

Ao tratar da Amazônia, a ’62ª Assembleia Geral’ deu um passo profético. A região deixou de ser vista como um território de missão “para outros” e consolidou-se como um sujeito eclesial ativo. Seguindo as orientações do documento, a Amazônia não é apenas geografia; é uma “casa viva” de povos, culturas e espiritualidades, uma biodiversidade que sustenta o equilíbrio do planeta.

A Igreja reafirma que seu papel nesse “chão sagrado e pulsante” é o de uma presença que escuta, discerne e caminha junto. Como destacou a Comissão Episcopal para a Amazônia, o amadurecimento dessa “Igreja em rede” reflete o que se viveu em 2025, quando a Amazônia falou ao mundo através da COP 30 em Belém. “Cuidar da Amazônia é cuidar da humanidade”, ecoou nos corredores da Assembleia.

credito Jaison Alves da Silva

Dom Irineu Roman, arcebispo de Santarém e presidente do Regional Norte 2, ao ser questionado sobre como as novas diretrizes contemplam os desafios locais, foi categórico em dizer que a sinodalidade, o caminhar juntos, é a resposta. “As diretrizes abordam as questões propriamente amazônicas, especialmente a ecologia integral, a proteção dos povos indígenas e ribeirinhos. Elas não substituem os planos pastorais locais, mas oferecem o horizonte de uma Igreja que se encarna na realidade”, afirmou.

credito Arquidiocese Belem

A força das novas diretrizes reside na capacidade de gerar unidade sem buscar a uniformidade. Dom Julio Endi Akamine, Arcebispo de Belém, trouxe um depoimento pessoal marcante sobre essa realidade. Ao ser transferido de Sorocaba (SP) para Belém (PA), ele pôde constatar que, “apesar das abissais diferenças históricas e culturais, existe uma profunda unidade de ação evangelizadora. Atribuo essa unidade ao empenho pastoral em aplicar as DGAE. Elas garantem que a unidade eclesial fecunde as particularidades de cada região”, pontuou Dom Julio, reforçando que as diretrizes são bússolas, não trilhos engessados.

credito Jaison Alves da Silva

Nessa mesma linha de conversão integral, Dom Paulo Andreolli, Bispo Auxiliar de Belém, ressalta que o compromisso agora é trabalhar na direção de uma Igreja que se reconhece como “povo de Deus” em movimento. “A primeira conversão é reconhecer-se Igreja onde ela existe, valorizando a animação bíblica, a iniciação à vida cristã e a piedade popular”, destacou.

credito Jaison Alves da Silva

Para Dom Raimundo Possidonio, bispo de Bragança no Pará, as diretrizes sintonizam com uma história que a Amazônia já vem construindo desde o Documento de Santarém em 1972. Ele recorda a metáfora da “Igreja que se faz carne e arma sua tenda na Amazônia”. “Tudo o que aparece no documento, a escuta dos sinais, a Igreja sinodal, nós já vivemos de certa forma aqui. As diretrizes da CNBB são um reforço e uma fortaleza para que continuemos este caminho”, afirmou Dom Possidonio. Ele, contudo, fez uma ressalva importante, embora o objetivo geral de evangelizar e manter a opção pelos pobres esteja claro, ele sente que o cuidado explícito com a Casa Comum poderia estar ainda mais centralizado no enunciado inicial, como síntese de toda a caminhada.

credito Jaison Alves da Silva

Já Dom José Ionilton Lisboa, bispo da Prelazia do Marajó, destacou o valor da iniciação à vida cristã com inspiração catecumenal. Ele celebrou que o texto aponte para o cuidado com a vida em todas as suas etapas, “da gestação à morte natural”, com menção direta aos povos indígenas, ribeirinhos e pescadores. “As diretrizes incentivam o laicato a assumir seu lugar, não só na Igreja, mas de modo incisivo na política e na defesa dos conselhos de direitos”, sublinhou o bispo marajoara.

A Igreja não fechou os olhos para as transformações rápidas da sociedade. Dom Antônio de Assis Ribeiro ressaltou que, embora as diretrizes aprofundem propósitos já conhecidos, elas trazem desafios contemporâneos urgentes. “Precisamos dar mais atenção ao uso pastoral, catequético e pedagógico da inteligência artificial”, alertou Dom Antônio. Além disso, destacou a urgência de preparar os católicos para a liderança política com sérios compromissos éticos e renovar o investimento na Pastoral Juvenil. “As juventudes têm um papel indispensável na renovação sinodal. É necessário investir tempo, energia e recursos para que os jovens sejam evangelizadores de outros jovens”.

credito AGC NBB

A 62ª Assembleia Geral terminou com uma Missa em ação de graças e a consagração a Nossa Senhora Aparecida, feita por Dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa. O texto final, enriquecido por cerca de 1,5 mil contribuições e emendas, será publicado pelas Edições CNBB em breve.

O sentimento ao final dos dez dias de trabalho era o de que o desafio agora deixa o auditório de Aparecida e segue para as bases. Como uma “baía que recolhe águas de muitos rios”, a Igreja no Brasil sai renovada, consciente de que as novas diretrizes são luzes para iluminar os próximos seis anos de uma caminhada que se quer cada vez mais sinodal, samaritana e, acima de tudo, profundamente humana.

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