
Caros leitores, convido-os a refletir que amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com todo o entendimento significa entregar a Ele a nossa vida, nossas escolhas e nossos projetos. Mas esse amor só se torna pleno quando chega ao próximo. Não existe verdadeira experiência de Deus que nos deixe indiferentes diante do sofrimento de quem está ao nosso lado. E para oportunidade conto com a colaboração do seminarista providentino Antonio Wemerson Barbosa da Silva.
As leituras deste 30º Domingo do Tempo Comum nos conduzem ao centro da vida cristã: o amor a Deus e ao próximo (Mt 22,34-40). Jesus nos ensina que amar não é apenas cumprir regras ou professar a fé com palavras. É colocar toda a nossa vida a serviço de Deus e dos irmãos, fazendo do amor uma atitude concreta no dia a dia.
A 1ª Leitura (Ex 22,20-26) destaca o cuidado com os estrangeiros, as viúvas, os órfãos e os pobres. São pessoas que, muitas vezes, vivem em situações de abandono, vulnerabilidade e injustiça. Deus escuta o clamor dos que sofrem e nos chama a fazer o mesmo. Quem ama verdadeiramente a Deus não fecha os olhos às necessidades dos irmãos, mas se aproxima deles com compaixão e solidariedade.
São Paulo, na 1ª Carta aos Tessalonicenses (1,5c-10), também nos mostra que a fé se revela por meio das atitudes. A Palavra de Deus, quando acolhida com alegria, transforma a vida e faz do cristão uma testemunha de Jesus. Mais do que falar do Evangelho, somos chamados a vivê-lo, para que nossas ações revelem o amor de Cristo ao mundo.
Ao encerrarmos o mês do Círio de Nazaré, voltamos nosso olhar para Maria, a serva do Senhor e modelo de discípula missionária. Depois de receber o anúncio do anjo, ela partiu apressadamente para visitar e ajudar sua prima Isabel. Em Caná, percebeu a necessidade dos noivos e apresentou a Jesus. Aos pés da cruz, permaneceu fiel, e, com os discípulos, esteve reunida em oração no início da missão da Igreja, em Pentecostes.
Maria nos ensina que estar perto de Deus nos torna mais disponíveis para servir. Sua vida foi uma resposta de amor, confiança e entrega. Nela encontramos o exemplo de quem acolhe a Palavra, deixa-se transformar por ela e se põe a caminho para levar esperança aos outros.
Essa também foi a missão de Jesus. Desde a Encarnação até a cruz, Ele revelou o amor do Pai por meio de palavras e gestos concretos. Curou os doentes, acolheu os excluídos, alimentou os famintos, perdoou os pecadores e devolveu a esperança a quem sofria. Ao entregar a própria vida, mostrou que amar é doar-se.
A missão da Igreja é dar continuidade a esse amor na história. Somos chamados a prolongar a presença de Cristo no mundo, permitindo que sua Palavra encontre morada em nossos corações e se manifeste em nossas atitudes. Ser missionário é levar Cristo aos outros, mas também reconhecer sua presença na vida dos pobres, dos doentes, dos abandonados e de todos os que necessitam de acolhida.
Neste domingo, recordamos também Santo Antônio de Sant’Ana Galvão, conhecido como Frei Galvão, o primeiro santo nascido no Brasil. Sua vida de oração e consagração a Deus foi acompanhada de uma dedicação concreta aos que mais precisavam. A construção do Mosteiro da Luz, seu cuidado com os enfermos e sua atenção aos sofredores são sinais de uma fé que se transforma em serviço. Sua história nos recorda que o amor a Deus ganha força e visibilidade quando se traduz em cuidado com o próximo.
Diante dessa Palavra, somos convidados a fazer um exame de consciência: temos amado mais a nós mesmos do que aos outros? Nossas escolhas consideram apenas os interesses pessoais ou também o bem comum? Nossa oração nos leva ao encontro dos que sofrem? A fé que professamos se transforma em gestos de caridade e solidariedade?
Em uma sociedade marcada pelo individualismo, pela indiferença e pela busca de reconhecimento, o Evangelho nos chama a seguir outro caminho. O amor cristão não pode ficar restrito às palavras. Ele precisa ganhar mãos e pés, tempo, escuta, presença e serviço. Há muitas pessoas que precisam de uma visita, de uma palavra amiga, de alimento, de acolhida e, sobretudo, de alguém disposto a caminhar com elas.
A Igreja oferece diferentes espaços para viver essa missão. Nas pastorais sociais, na Cáritas, na Pastoral da Criança, na Pastoral da Pessoa Idosa, na Pastoral Carcerária e na Pastoral Juvenil, entre tantas outras iniciativas, encontramos oportunidades para transformar a fé em compromisso com a vida e a dignidade humana.
Amar a Deus e ao próximo é a essência da vida cristã e o coração da missão. Que Maria nos ensine a acolher Jesus, a reconhecer sua presença nos mais necessitados e a anunciar o Evangelho com a vida. Com os corações ardentes e os pés a caminho, sejamos uma Igreja que ama, acolhe e serve. O Senhor conta conosco!
Dom Paulo Andreolli, SX
Bispo auxiliar de Belém e nomeado para a
Diocese de Ponta de Pedras