
credito: Dom Antonio de Assis / Bispo de Macapá – localização: Oiapoque (AP)
por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2
No sábado, dia 13 de junho, memória de Santo Antônio de Pádua, o Vaticano publicou a mensagem do Papa Leão XIV para o ‘X Dia Mundial dos Pobres’, que será celebrado em 15 de novembro de 2026. Com o tema “O Senhor é o refúgio do pobre” (Salmo 14,6), o Papa faz uma análise contundente da conjuntura social atual, denunciando uma “dissacrante lógica de descarte” que silencia as populações mais vulneráveis.
Para o Santo Padre, a crise que o mundo atravessa não é apenas material, mas fruto de uma perda do sentido da transcendência que se reflete na política e na economia. “Nota-se, infelizmente, uma injustiça social que sgorga da corrupção tracotante, tanto deplorevole quanto discriminatória”, afirma o Pontífice no documento.
Um dos pontos de destaque da mensagem é o alerta sobre como a tecnologia tem sido usada para isolar ainda mais quem nada tem. O Papa observa que o grito por justiça é, hoje, abafado por técnicas sutis. “O ambiente digital radicaliza o preconceito em relação aos pobres e aumenta a cortina de indiferença que rodeia as suas causas”, alerta Leão XIV.
Para comunicadores e agentes de pastoral, o alerta ressoa como um chamado à ação. Na Amazônia, onde as distâncias geográficas e o isolamento muitas vezes tornam os pobres “invisíveis”, essa reflexão ganha contornos urgentes. No Regional Norte 2, onde a luta pela dignidade humana se mistura aos desafios da região amazônica, a mensagem do Papa encontra eco na vida de quem atua na ponta. O Papa nos pede para sermos esse refúgio, mas também para reconhecermos que nós também somos pobres diante de Deus”.
A mensagem papal também cita a Exortação Apostólica Dilexi te, reforçando que a Igreja deve ser a “Igreja das Bem-aventuranças”, um lugar onde os pequenos têm lugar privilegiado.
O documento faz uma ponte histórica com o oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis. O Papa recorda o gesto profético do “Poverello” que, em Roma, trocou suas vestes pelas de um mendigo para entender sua dor. “Queremos testemunhar que é possível, também hoje, experimentar a mesma alegria ao colocar-se no lugar dos pobres e ao ouvi-los em vez de apenas falar deles”, escreve o Papa.
O Papa encerra a mensagem com perguntas que desafiam as comunidades paroquiais e as estruturas diocesanas. Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Chegamos onde se encontram os pobres, experimentando a sua marginalidade? Pronunciamos seus nomes com ternura divina?
Para o Regional Norte 2, estas questões se tornam sugestões para um roteiro, para o planejamento das atividades do ‘X Dia Mundial dos Pobres’ em novembro, reforçando o compromisso com uma evangelização que não ignora o “calvário” vivido pelos povos da floresta e das periferias urbanas.
Leia abaixo na integra a mensagem do Pontífice, traduzido do original em Italiano.
MENSAGEM DO SANTO PAPA LEÃO XIV PARA O ‘X DIA MUNDIAL DOS POBRES’
a ser celebrado no domingo, 15 de novembro de 2026,
XXXIII Domingo do Tempo Comum:
“O Senhor é o refúgio do pobre (cf. Sl 14,6)
1. O Senhor é o refúgio do pobre (cf. Sl 14,6). As palavras do Salmista sugerem o caminho que somos chamados a percorrer em vista do X Dia Mundial dos Pobres. Mais uma vez, é necessário retornar à Palavra de Deus para verificar a importância que os pobres têm na vida da Igreja. A expressão do Salmo torna-se critério de julgamento para a existência cristã, porque revela o rosto de Deus e reconhece a pobreza humana.
Em um momento histórico dramático, como foi a destruição do templo de Jerusalém, o povo sentiu-se privado da presença de Deus e experimentou uma miséria material e moral sem precedentes. Em cada geração, esta Palavra aparece em toda a sua atualidade. Desde o início, mostra a contradição em que muitas vezes se cai ainda nos nossos dias. A primeira constatação, com efeito, é esta: «Diz o insensato em seu coração: “Deus não existe”. São corruptos, fazem coisas abomináveis; não há quem faça o bem» (Sl 14,1). Ela evidencia o contraste entre aqueles que se comportam com sabedoria e aqueles que, ao contrário, arrastam a sua vida como se não houvesse nada acima deles.
Nota-se, infelizmente, como também é difundida nos nossos dias uma injustiça social que brota da corrupção insolente, tão deplorável quanto discriminatória. A perda do sentido da transcendência na vida cotidiana já não é tanto uma negação teórica da existência de Deus; antes, evidencia-se na falta de consideração pela sua bondade e misericórdia para a construção da justiça pessoal e social. Os primeiros a sofrer as consequências são os pobres, não por acaso em aumento em muitas sociedades. A ausência de Deus coloca as pessoas não mais umas ao lado das outras no respeito mútuo, mas umas sobre as outras sob o signo do domínio e da opressão. Exibe-se assim uma lógica dessacralizadora de prevaricação e de descarte que marginaliza e humilha. Nesta condição encontram-se não apenas indivíduos, mas populações inteiras. As palavras do Salmo ressoam ainda cheias de verdade: «Devoram o meu povo como se fosse pão» (Sl 14,4).
2. O grito de justiça dos pobres hoje é abafado por múltiplas técnicas, cada vez mais sutis, a ponto de tornar afônico qualquer esforço deles para fazer ouvir as suas reivindicações. O ambiente digital radicaliza o preconceito em relação a eles e aumenta a cortina de indiferença que rodeia as suas causas. Ao pobre não resta senão gritar a Deus (cf. Sl 34,7) e elevar até Ele o seu lamento, tendo a certeza de ser ouvido porque Deus é fiel e rico em misericórdia. Aqueles que são oprimidos, humilhados e indefesos crescem ainda hoje na certeza de terem de se abandonar a Deus cheios de confiança e de esperança.
Nesta entrega total, refloresce o sentido da própria dignidade, reconhecem-se irmãs e irmãos com quem organizar os próprios sonhos, e a esperança torna-se silenciosamente realidade. Refugiar-se em Deus equivale a encontrar a proteção verdadeira e segura, aquela que os poderosos não podem garantir e preferem negar. O pobre, porém, sabe reconhecer o essencial mais do que os outros, porque vive do essencial. Mais semelhante a Cristo do que todos, reconhece Deus como o seu refúgio mesmo quando as circunstâncias parecem desmenti-lo, e está cheio de esperança na sua justiça, que não tarda a manifestar-se. Na noite do abandono e da solidão, o pobre “habita sob o amparo do Altíssimo” (cf. Sl 91,1). Aqueles que estão aflitos, os que sofrem injustiças e são ofendidos, os que estão no sofrimento e na dor, os que estão sozinhos e sem sentido na vida podem encontrar consolação e nova motivação junto do Senhor.
3. Ser refúgio não é apenas uma promessa, mas torna-se realidade na pessoa de Jesus Cristo. Deus faz morada entre nós com a encarnação do Filho, que torna concreto e visível o refúgio esperado. Jesus Cristo é realmente o refúgio de Deus para os pobres. Pela sua obediência ao Pai, desce até ao ponto mais baixo, onde se encontram os últimos. Vem ao encontro de todos e a cada um oferece um refúgio seguro: «Vinde a mim, todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei» (Mt 11,28). Em Jesus, Deus não apenas protege, mas partilha a pobreza humana até à cruz.
I poveri dos nossos dias são os esquecidos e os marginalizados: roubados de uma palavra e de um rosto, além do pão. Possam eles encontrar o Filho de Deus, que de todos se faz próximo sem negligenciar ninguém. Que O encontrem, antes de tudo, naqueles que se dizem cristãos. Na Igreja, seu Corpo, é Jesus quem oferece pão e amizade; traz luz e um horizonte de esperança; pronuncia o nome de cada um e devolve a todos a dignidade. Jesus de Nazaré é o dom de Deus aos pobres. Nele, todas as promessas se tornam realidade. Para aqueles que estão privados de uma casa, de um trabalho, de educação, de comida, de saúde, abre-se um novo caminho: a partilha como expressão do Reino de Deus (cf. Mt 5,3). À obsessão daqueles que acumulam riquezas apenas para si, opõe-se a obstinação de Deus que, no testemunho de pessoas de carne e osso, abre o coração e acolhe no seu amor.
4. Em Cristo, somos chamados, portanto, também nós a tornar-nos pobres e a fazer-nos refúgio para o pobre. A comunidade cristã não pode permanecer insensível perante os muitos que hoje batem à porta e permanecem invisíveis para aqueles que estão fechados entre os seus próprios muros. A Igreja, por sua própria natureza, é chamada a ser pobre e refúgio para os pobres. Não esqueçamos o comentário de Santo Agostinho sobre a parábola do homem rico e do pobre Lázaro: «Omitiu-nos o nome do rico e disse-nos o nome do pobre. O nome do rico andava de boca em boca, mas Deus calou-o; o nome do pobre passava sob silêncio, mas Deus no-lo revelou. […] O que escolherias? Ser pobre como Lázaro ou ser rico como o outro? Não te deixes enganar! Ouve qual foi o fim e nota a má escolha» (Sermo 33A, 4).
Como recordei na Exortação Apostólica Dilexi te, «para com os pobres Deus mostra predileção: antes de mais nada a eles se dirige a palavra de esperança e de libertação do Senhor e, por isso, mesmo na condição de pobreza ou fraqueza, ninguém deve sentir-se mais abandonado. E a Igreja, se quer ser de Cristo, deve ser Igreja das Bem-aventuranças, Igreja que abre espaço aos pequenos e caminha pobre com os pobres, lugar onde os pobres têm um lugar privilegiado» (n. 21).
Surgem inevitáveis algumas perguntas, que neste X Dia Mundial dos Pobres temos urgência em fazer ressoar na nossa mente e no nosso coração. Somos sinal de um Deus que é refúgio para os pobres? Temos consciência da nossa pobreza e a preferimos à riqueza injusta? Chegamos onde se encontram os pobres, experimentando a sua marginalidade? Escutamos os seus pensamentos e partilhamos as suas expectativas? Pronunciamos os seus nomes com ternura divina? A nossa caridade reativa e sustenta neles o desejo de justiça e de resgate? Estas e muitas outras interrogações obrigam a um sério exame de consciência, para verificar quanto ainda somos chamados a tornar-nos a favor dos pobres e pela sua libertação.
Veremos então que os próprios pobres se tornam refúgio para os outros. A experiência da pobreza torna particularmente sensível a uma solidariedade renovada perante os desafios. O amor de Cristo torna-nos, de fato, participantes da vida de amor de Deus. Neste sentido, os cristãos são chamados não apenas a procurar refúgio em Deus, mas também a fazer-se em Deus um refúgio para os outros, sem «distinguir entre quem assiste e quem é assistido, entre quem parece dar e quem parece receber, entre quem parece pobre e quem sente que oferece tempo, competências, ajuda. Somos a Igreja do Senhor, uma Igreja de pobres, todos preciosos, todos sujeitos, cada um portador de uma Palavra singular de Deus. Cada um é um dom para os outros» (Homilia, 17 de agosto de 2025).
5. O oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis solicita-nos a recordar como, tendo chegado a Roma peregrino ao túmulo do apóstolo Pedro, ele foi tomado de compaixão pelos mendigos. Para compreender e experimentar o seu sofrimento, despiu as suas próprias roupas e trocou-as pelas roupas esfarrapadas de um deles, sentando-se a pedir esmola e passando o dia inteiro no meio dos pobres com alegria de espírito (cf. Fontes Franciscanas, 1405-1406). Queremos testemunhar que é possível, também hoje, experimentar a mesma alegria ao colocar-se no lugar dos pobres e ao ouvi-los em vez de apenas falar deles. Quem tem Deus por refúgio é livre para fazer escolhas proféticas, que testemunham como tudo pode ser repensado a partir de baixo, na humildade e na fraternidade que, sozinhas, reparam um mundo ferido pela prepotência.
Confio que este X Dia Mundial dos Pobres possa constituir uma etapa significativa para redescobrir o rosto de tantos irmãos e irmãs que procuram refúgio em Deus e desejam sentir-se em casa nas nossas comunidades. Mantenhamos viva a obediência à Palavra de Deus, que provoca a conversão do coração. A Virgem Maria, que na carne crucificada do Filho contemplou o amor de Deus que cumula de bens os famintos e despede os ricos de mãos vazias (cf. Lc 1,53), interceda por nós.
Vaticano, 13 de junho de 2026, memória de Santo Antônio de Pádua.
Papa Leão XIV
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