por Vívian Marler / Assessora Comunicação CNBB N2

No Vaticano, o Papa Leão XIV divulgou nesta segunda-feira (15) sua mensagem oficial para o ‘VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos’, que será celebrado em 26 de julho. Com o tema extraído do profeta Isaías “Eu, porém, nunca te esquecerei”, o Santo Padre propõe uma reflexão profunda sobre o papel da terceira idade em uma sociedade marcada pela pressa e pelo lucro.

Para o Pontífice, a data não é apenas uma efeméride, mas um grito contra o “anonimato” e o esquecimento. Em seu texto, Leão XIV enfatiza que o amor de Deus transcende a biologia, “O Senhor nos assegura que traz nossos rostos gravados nas palmas de Suas mãos. É um amor maior do que o de uma mãe por seu filho”, afirma o Papa, lembrando que a velhice não retira de ninguém a dignidade de ser filho de Deus.

Um dos pontos altos da mensagem é a crítica à desumanização nas relações modernas. Citando sua encíclica Magnifica humanitas, o Papa reconhece os avanços da tecnologia, mas faz um alerta sobre a solidão nas casas de repouso e nas famílias. “A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade irrenunciável de proximidade”, comenta Leão XIV. Segundo ele, é preciso que mãos humanas, capazes de ternura, substituam o tratamento frio que muitas vezes reduz o idoso a um “número de leito ou a uma patologia”.

Diante de um cenário global de conflitos e violência, o Papa se dirige aos idosos como um “novo povo”, uma parcela da população que nunca foi tão numerosa na história. Ele subverte o conceito de fraqueza associado à idade avançada. “Não tenham medo da fragilidade! Precisamente esta debolezza esconde em si uma nova potencialidade”, explica.

Para o Pontífice, reconhecer a própria fragilidade é o que permite ao ser humano abrir o coração para o apoio mútuo e para a paz verdadeira, em oposição à arrogância do poder e das guerras. “Neste tempo marcado pela violência bélica, muitos se perguntam como será o mundo dos seus netos. A força do idoso está na calma e no abandono confiante em Deus”, ressalta.

A mensagem encerra com um apelo prático e urgente direcionado às novas gerações. Leão XIV pede que os jovens retomem o “belo hábito” de visitar os avós e aqueles que vivem sós. O objetivo é que a promessa bíblica de que Deus não esquece seu povo ganhe rosto e corpo através da presença física. “Façam com que as palavras do profeta tomem a forma de um encontro terno e afetuoso”, exorta o Papa, que agradece aos idosos pelo sustento espiritual que oferecem à Igreja através da oração do Rosário.

O Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é celebrado anualmente no quarto domingo de julho, próximo à festa de Sant’Ana e São Joaquim. Em 2026, as celebrações ocorrerão no domingo, 26 de julho.

 

 

MENSAGEM DO SANTO PADRE LEÃO XIV
PARA O VI DIA MUNDIAL DOS AVÓS E DOS IDOSOS

Celebrado no quarto domingo de julho, este ano, no dia 26 de julho, 

sobre o tema “Eu, porém, nunca te esquecerei” (Is 49, 15)

Eu, porém, nunca te esquecerei” (Is 49, 15)

Queridos irmãos e irmãs,

Pela boca do profeta Isaías, o Senhor promete que jamais se esquecerá de nenhum de nós. Ele nos assegura que traz nossos rostos gravados nas palmas de Suas mãos (cf. Is 49, 16) e que o Seu amor é maior do que o de uma mãe por seu filho (cf. Is 49, 15). O profeta nos deixa antever um diálogo íntimo e próximo, no qual Deus se dirige a cada um e ao próprio povo tratando-os por “tu”. Ainda hoje podemos ler estas palavras referidas a cada um de nós, e cada um pode sentir aquele “Nunca te esquecerei” dirigido a si mesmo.

São palavras que nos enchem de consolação e confiança. Elas são a resposta a um sentimento angustiante que agita o coração: «O Senhor me abandonou, o Senhor se esqueceu de mim» (Is 49, 14). Quantas vezes na Sagrada Escritura, particularmente nos Salmos, a oração nasce do desorientamento de quem tem a impressão de que a própria vida não desperta o interesse de ninguém e é negligenciada! A dolorosa sensação de ser esquecido acomuna, infelizmente, muitas pessoas, e entre estas, não poucas são idosas. O amor de Deus, que ao contrário não esquece ninguém, oferece-se como um ato de justiça e resposta ao anonimato no qual, com frequência excessiva, a vida humana acaba por se perder.

Sobre as existências de muitos idosos, em particular, parece estar estendido um véu que desbota os traços dos rostos e os envolve no esquecimento. É o que acontece nas casas onde reina a solidão, e também naqueles lugares de acolhimento onde a singularidade de cada pessoa corre o risco de ser reduzida ao número do seu leito ou à sua patologia.

A celebração do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos é uma oportunidade para redescobrir que a Igreja é chamada a ser mãe de todos e que, em cada idade, é sempre possível descobrir-se filhos e filhas de Deus. Que este Dia seja, portanto, um estímulo para todos, especialmente para os mais jovens, a retomar o belo hábito de visitar os seus avós, os idosos da família e também aqueles que não recebem nenhuma visita. Levem a eles, com esta mensagem e a vossa presença, a proximidade e o afeto do Papa. Façam com que as palavras do profeta “Eu, porém, nunca te esquecerei” tomem a forma de um encontro terno e afetuoso.

«Em uma época que tende a acelerar e fragmentar, a carne humana continua a pedir para ser cuidada e reconhecida por mãos capazes de ternura, por mentes atentas e por palavras boas. A cultura digital multiplica as conexões e oferece novas possibilidades de encontro; no entanto, o coração humano conserva uma necessidade irrenunciável de proximidade» (Carta Enc. *Magnifica humanitas*, 239).

A Igreja conhece o sofrimento dos seus filhos mais velhos, sabe bem que muitas vezes se olha para eles com preconceito e os considera um peso; está consciente de que uma economia centrada no lucro enfraquece os laços familiares; sabe que muitos idosos são deixados pelos filhos obrigados a migrar ou, em alguns casos, a combater na guerra. Por cada um destes motivos, ela se alegra em anunciar a promessa do Senhor: “Eu, porém, nunca te esquecerei!”. É doce, em todas as idades, mas especialmente quando já não se é jovem, descobrir — como disse o Beato João Paulo I — que somos destinatários «por parte de Deus, de um amor imorredouro. Sabemos: Ele tem sempre os olhos abertos sobre nós, mesmo quando parece ser noite. É pai; mais ainda, é mãe» (Angelus, 10 de setembro de 1978).

Mesmo que não venha espontaneamente pensar assim, a verdade é que nem mesmo quando velhos deixamos de ser filhos e filhas e, por isso, continua válido, todos os dias, o convite a voltar para os braços de Deus, cujo amor é paternal e maternal ao mesmo tempo. A descoberta da ternura de Deus, para muitos, ocorre ao longo da existência, por vezes precisamente no último trecho da vida. Cada vez mais frequentemente, de fato, ao contrário do passado, é possível chegar à velhice sem ter tido uma real experiência de fé. A idade avançada, neste caso, a partir das questões que nesta estação da vida se colocam com mais urgência, pode tornar-se o tempo oportuno para iniciar ou retomar uma vida espiritual. Neste novo caminho, pode-se reconhecer que Deus, como diz Santo Agostinho, «é mãe porque aquece, porque nutre, porque amamenta, porque guarda» (Comentário ao Salmo 26, II, 18). É uma consciência que ajuda a não sentir vergonha da fragilidade que emerge e também a compreender que todos, sempre, precisamos uns dos outros e somos mendicantes de atenção e de cuidado.

A Deus, que se faz próximo e que aprendemos a reconhecer na Sua ternura, podemos agora dirigir-nos com confiança filial na oração. Nunca é tarde demais para começar a dirigir-se a Ele. Pode ser um grande dom para todos.

Queridos idosos e idosas, o Papa Francisco falava de vós como de um “novo povo” (Catequese, 23 de fevereiro de 2022), visto que o número de pessoas com idade avançada nunca foi tão alto na história humana. É, então, mais importante do que nunca refletir convosco, “novo povo”, sobre qual pode ser a nossa vocação quando a fragilidade, companheira do homem desde o nascimento, parece levar a melhor. Sinto-me no dever de lhes dizer: não tenham medo da fragilidade! Precisamente esta fraqueza esconde em si uma nova potencialidade que ilumina também as outras idades da vida. De fato, quando é aceita e reconhecida, a fragilidade «abre o coração ao apoio mútuo e à invocação Daquele que pode dar o que nenhum poder humano é capaz de garantir: a reconciliação profunda dos corações e, com ela, a paz verdadeira» (Encontro com a comunidade argelina, Basílica de Nossa Senhora da África, Argel, 13 de abril de 2026).

É assim que podemos viver como cristãos o tempo da velhice: “frágeis”, mas ao mesmo tempo “chamados”. Um homem e uma mulher podem, de fato, renascer sendo velhos (cf. Jo 3, 4-6) e exclamar, com o profeta: «Na conversão e na calma está a nossa salvação, no abandono confiante está a nossa força» (Is 30, 15). Uma força que pode tornar-se um convite a não recorrer às vias da arrogância e do poder para garantir a convivência humana, mas às vias da reconciliação e da paz verdadeira.

Neste tempo, marcado de maneira tão dura pela violência bélica e social, muitos se perguntam como será o mundo no qual crescerão os seus netos. Exorto-vos, caríssimos, a unirem-se a mim na oração insistente para que chegue logo a paz ao mundo inteiro.

Irmãs e irmãos idosos, agradeço-vos porque me sustentam todos os dias com as vossas orações, especialmente quando recitam o santo Rosário. Retribuo de coração e deixo-vos este voto: que o Senhor nos renove sempre na fé, na esperança e na caridade, Ele que nunca se esquece de nós!”

Do Vaticano, 15 de junho de 2026

PAPA LEÃO XIV

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