
por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2
Neste domingo de Páscoa, 5 de abril, a Basílica de São Pedro não foi apenas o palco de uma tradição secular, mas o centro de um apelo urgente. Diante de uma multidão atenta, o Papa Leão XIV pronunciou sua primeira mensagem ‘Urbi et Orbi’ (para a cidade e para o mundo) de Páscoa, marcando um pontificado decidido a enfrentar o que chamou de “drama da nossa liberdade”.
A mensagem pascal deste ano foi além do anúncio da ressurreição; foi um manifesto contra a “globalização da indiferença”, termo que Leão XIV fez questão de resgatar de seu antecessor, o Papa Francisco, citando as últimas palavras proferidas por ele deste mesmo balcão há exatamente um ano.
Com uma retórica sensível e profundamente humana, o Pontífice utilizou a metáfora do grão de trigo para explicar o poder da ressurreição. Para Leão XIV, a vitória de Cristo sobre a morte não se deu pela força das armas, mas pela “potência do Amor fiel até o fim”.
“A força com que Cristo ressuscitou é totalmente não violenta”, afirmou o Papa. “É semelhante à de um coração humano que, ferido por uma ofensa, rejeita o instinto de vingança e, cheio de piedade, reza por quem o ofendeu”.
Essa reflexão ressoa de forma especial em contextos de conflitos sociais e territoriais, como os que marcam a nossa Amazônia, lembrando que a paz verdadeira nasce da capacidade de “encontrar o outro” em vez de dominá-lo.
O Papa demonstrou profunda preocupação com a forma como a humanidade tem se acostumado com o horror. Em um tom de denúncia profética, ele lamentou a rresignação diante da morte de milhares e as consequências econômicas e sociais que os conflitos semeiam, uma realidade que atinge em cheio as periferias geográficas e existenciais.
“Não podemos continuar a ser indiferentes! E não podemos nos resignar ao mal!”, exclamou. O apelo foi direto aos que detêm o poder, depor as armas e escolher o diálogo como único caminho para uma paz que não seja apenas o silêncio dos canhões, mas uma mudança real no coração humano.
Como gesto concreto de sua mensagem, o Santo Padre fez uma convocação mundial, uma “Vigília de Oração pela Paz” no próximo sábado, 11 de abril, na Basílica de São Pedro. O convite é para que todos, crentes e não crentes, unam-se ao grito que brota do coração de quem sofre.
Ao concluir sua mensagem com votos de “Feliz Páscoa” em dez idiomas, incluindo o chinês e o árabe, Leão XIV deixou claro que a “humanidade nova” por ele proposta não tem fronteiras. É uma promessa de justiça, liberdade e paz para todos que, diante do sepulcro vazio, escolhem o espanto e a esperança em vez do medo e do subterfúgio.
Para nós, que acompanhamos os desafios diários das nossas dioceses e movimentos sociais, a mensagem deste domingo deixa uma pergunta inquieta, diante do Ressuscitado, qual será o uso que faremos da nossa liberdade?
Leia a mensagem do Pontífice, na integra, abaixo.
MENSAGEM «URBI ET ORBI»
DO SANTO PADRE LEÃO XIV
PÁSCOA 2026
Lógia central da Basílica de São Pedro
Domingo, 5 de abril de 2026
“Irmãos e irmãs,
Cristo ressuscitou! Feliz Páscoa!
Há séculos a Igreja canta com exultação o acontecimento que é origem e fundamento da sua fé: «O Senhor da vida estava morto / mas agora, vivo triunfa. / Sim, estamos certos: / Cristo verdadeiramente ressuscitou. / Tu, Rei vitorioso, / tem piedade de nós» (Sequência de Páscoa).
A Páscoa é uma vitória: da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, do amor sobre o ódio. Uma vitória a um preço altíssimo: o Cristo, o Filho do Deus vivo (cf. Mt 16,16) teve que morrer, e morrer em uma cruz, após ter sofrido uma injusta condenação, ter sido escarnecido e torturado, e ter derramado todo o seu sangue. Como verdadeiro Cordeiro imolado, tomou sobre si o pecado do mundo (cf. Jo 1,29; 1Pe 1,18-19) e assim nos libertou a todos, e com todos nós também a criação, do domínio do mal.
Mas *como* Jesus venceu? Qual é a força com que derrotou de uma vez por todas o antigo Adversário, o Príncipe deste mundo (cf. Jo 12,31)? Qual é a potência com que ressuscitou dos mortos, não retornando à vida de antes, mas entrando na vida eterna e abrindo assim na própria carne a passagem deste mundo para o Pai?
Esta força, esta potência é o próprio Deus, Amor que cria e gera, Amor fiel até o fim, Amor que perdoa e resgata.
Cristo, nosso «Re vitorioso», combateu e venceu a sua batalha com o abandono confiante à vontade do Pai, ao seu desígio de salvação (cf. Mt 26,42). Assim percorreu até o fim o caminho do diálogo, não com palavras, mas com fatos: para encontrar a nós, os perdidos, fez-se carne; para libertar a nós, os escravos, fez-se escravo; para dar a vida a nós, os mortais, deixou-se matar na cruz.
A força com que Cristo ressuscitou é totalmente não violenta. É semelhante à de um grão de trigo que, morrendo na terra, cresce, abre caminho entre os torrões, germina e torna-se uma espiga dourada. É ainda mais semelhante à de um coração humano que, ferido por uma ofensa, rejeita o instinto de vingança e, cheio de piedade, reza por quem o ofendeu.
Irmãos e irmãs, esta é a verdadeira força que traz a paz à humanidade, porque gera relações respeitosas em todos os níveis: entre as pessoas, as famílias, os grupos sociais, as nações. Não visa ao interesse particular, mas ao bem comum; não quer impor o próprio plano, mas contribuir para projetá-lo e realizá-lo junto aos outros.
Sim, a ressurreição de Cristo é o princípio da humanidade nova, é a entrada na verdadeira terra promessa, onde reinam a justiça, a liberdade, a paz, onde todos se reconhecem irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai que é Amor, Vida, Luz.
Irmãos e irmãs, com a sua ressurreição, o Senhor nos coloca ainda mais poderosamente diante do drama da nossa liberdade. Diante do sepulcro vazio, podemos nos encher de esperança e de espanto, como os discípulos, ou de medo, como os guardas e os fariseus, obrigados a recorrer à mentira e ao subterfúgio apenas para não reconhecer que aquele que havia sido condenado verdadeiramente ressuscitou (cf. Mt 28,11-15)!
Na luz da Páscoa, deixemo-nos surpreender por Cristo! Deixemo-nos transformar o coração pelo seu immenso amor por nós! Quem tem armas nas mãos, que as deponha! Quem tem o poder de desencadear guerras, escolha a paz! Não uma paz perseguida com a força, mas com o diálogo! Não com a vontade de dominar o outro, mas de encontrá-lo!
Estamos nos habituando à violência, resignamo-nos a ela e tornamo-nos indiferentes. Indiferentes à morte de milhares de pessoas. Indiferentes às repercussões de ódio e divisão que os conflitti semeiam. Indiferentes às consequências econômicas e sociais que eles produzem e que todos nós sentimos. Há uma cada vez mais acentuada “globalização da indiferença”, para recordar uma expressão cara ao Papa Francisco, que há um ano, desta loggia, dirigia ao mundo as suas últimas palavras, lembrando-nos: «Quanta vontade de morte vemos todos os dias nos muitos conflitos que afetam diferentes partes do mundo!» (Mensagem Urbi et Orbi, 20 de abril de 2025).
A cruz de Cristo nos lembra sempre o sofrimento e a dor que cercam a morte e o tormento que ela acarreta. Todos temos medo da morte e, por medo, viramos o rosto para o outro lado, preferimos não olhar. Não podemos continuar a ser indiferentes! E não podemos nos resignar ao mal! Santo Agostinho ensina: «Se tens medo da morte, ama a ressurreição!» (Sermo 124, 4). Amemos também nós a ressurreição, que nos lembra que o mal não é a última palavra, porque foi derrotado pelo Ressuscitado.
Ele atravessou a morte para nos dar vida e paz: «Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo a dá» (Jo 14, 27). A paz que Jesus nos entrega não é aquela que se limita a fazer calar as armas, mas aquela que toca e muda o coração de cada um de nós! Convertamo-nos à paz de Cristo! Façamos ouvir o grito de paz que brota do coração! Por isso, convido a todos a se unirem a mim na vigília de oração pela paz que celebraremos aqui na Basílica de São Pedro no próximo sábado, 11 de abril.
Neste dia de festa, abandonemos toda vontade de contenda, de domínio e de poder, e imploremos ao Senhor que conceda a sua paz ao mundo assolado pelas guerras e marcado pelo ódio e pela indiferença que nos fazem sentir impotentes diante do mal. Ao Senhor recomendamos todos os corações que sofrem e esperam a verdadeira paz que só Ele pode dar. Confiemo-nos a Ele e abramos-lhe o nosso coração! Só Ele faz novas todas as coisas (cf. Ap 21,5)!
Feliz Páscoa!”
AUGURI PASQUALI
Em diversas línguas
(Ao final da Mensagem Urbi et Orbi, antes da Bênção)
A todos os que me ouvem, dirijo uma saudação cordial em diversas línguas:
Italiano
Buona Pasqua! Portate a tutti la gioia di Gesù risorto e presente in mezzo a noi.
Francês
Joyeuses Pâques ! Portez à tout le monde la joie de Jésus ressuscité et présent parmi nous.
Inglês
Happy Easter! May you bring the joy of Jesus, who is risen and present in our midst, to all you meet.
Alemão
Frohe Ostern! Bringt allen die Freude des auferstandenen Jesus, der unter uns gegenwärtig ist.
Espanhol
¡Feliz Pascua! Lleven a todos la alegría de Jesús resucitado y presente entre nosotros.
Portugues
Feliz Páscoa! Levai a todos a alegria do Senhor Ressuscitado e presente entre nós.
Polonês
Radosnych Świąt Wielkanocnych!
Arabe
قِيامَة مَجِيدَة!
Chinês
复活节快乐
Latim
Felix sit vobis Domini resurrectionis festivitas! Iesu resuscitati, inter nos adstantis, laetitiam cum omnibus communicate.
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