por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Norte 2

Na vastidão geográfica da Diocese de Xingu Altamira, onde as distâncias são medidas pelo tempo das águas e das estradas de terra, um encontro profundo e transformador reafirmou que a Igreja não é feita de paredes, mas de lares que rezam. Entre os dias 10 e 12 de julho, a Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Uruará (PA), realizou a ‘Formação da Pastoral Familiar da Diocese de Xingu-Altamira’. Sob o tema “Eu e minha casa serviremos ao Senhor” (Josué 24,15), agentes de pastoral, leigos e clero mergulharam em um itinerário de fé, acolhimento e missão.

A formação contou com a assessoria nacional da Pastoral Familiar da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), padre Rodolfo Chagas, e da coordenação do regional Norte 2 da CNBB, com  Luciana Limão e seu esposo Carvalho. Mais do que um evento teórico, o encontro foi um exercício vivo de sinodalidade, um conceito que o Papa Leão XIV tem insistido, mas que no Xingu ganha contornos de sobrevivência e fraternidade.

Para o padre Rodolfo Chagas, a Igreja na Amazônia possui uma identidade de proximidade, mas que precisa ser constantemente aprimorada à luz da Exortação Amoris Laetitia. Em um território marcado por comunidades isoladas, a tecnologia deixa de ser um acessório para se tornar ferramenta de pastoreio. “A Igreja do Xingu-Altamira é uma igreja sinodal de escuta e de diálogo. Quando não podemos nos encontrar presencialmente devido às distâncias, rezamos o terço por chamada de vídeo, enviamos uma mensagem de texto. Isso é acompanhar”, destacou padre Rodolfo.

O assessor enfatizou que o trabalho com as famílias não pode ser pautado por “eventos”, mas por “processos”. Segundo ele, a Pastoral Familiar não deve ser vista como um “balcão de informações” ou um grupo fechado de casais, mas como uma força transversal que perpassa todas as outras pastorais. “A família não é um tema; ela é a prioridade orgânica da paróquia”, afirmou.

Um dos pontos mais profundos da reflexão do Assessor da CNBB foi a desconstrução de famílias “verticalizadas” em favor de famílias “horizontalizadas”, aquelas que, inspiradas pelo Concílio Vaticano II, sentam à mesa, olham nos olhos e convivem com as diferenças. “Ser católico não é estar em uma forma de gelo, em uniformidade. É conviver com as diferenças de pensamentos enxergando nelas a catolicidade. A sinodalidade não começa na paróquia, começa dentro de casa, entre pai, mãe e filhos”, ensinou o sacerdote.

A formação revisitou os 45 anos da Familiaris Consortio de São João Paulo II, e os 10 anos da Amoris Laetitia do Papa Francisco, traçando o que chamam de “Rota da Misericórdia”. O desafio proposto aos agentes foi claro: acolher, acompanhar, discernir e integrar, sem renunciar à verdade do Evangelho, mas priorizando a pessoa humana acima de sua condição civil ou social.

Padre Rodolfo usou uma metáfora poderosa, “quando alguém bate à nossa porta, não gritamos lá de dentro perguntando o que a pessoa quer. Nós abrimos a porta, conhecemos a história, as feridas e os vínculos. Cada realidade, seja de casais em crise, divorciados, viúvos ou avós que criam netos, exige um tempo e uma proximidade próprios”.

Para Luciana Limão, Coordenadora Regional da Pastoral Familiar Norte 2, a experiência em Uruará foi um “reabastecimento”. Ela destacou que, embora tenham ido para levar conteúdo, saíram com a bagagem cheia pela generosidade do povo do Xingu. “Saímos com uma bagagem muito maior do que a que levamos. Ver a dinâmica das comunidades rurais e as longas distâncias nos faz repensar como evangelizar. É preciso respeitar a realidade local”, afirmou Luciana.

Ela ressaltou a importância do testemunho do casal cristão e a seriedade do Sacramento do Matrimônio como um caminho de santificação e doação. Mas não fugiu das realidades sensíveis que emergiram nos grupos de trabalho, a preocupação com os idosos, os enfermos, as famílias atingidas pelas drogas e pela violência doméstica.

Um dos momentos mais marcantes da formação foram os trabalhos em grupo. Foi ali que a “Igreja Sinodal” se manifestou na prática. As plenárias revelaram um “grito” latente por atenção à saúde mental.

Os participantes apontaram a depressão e o risco de suicídio como temas urgentes que a Igreja precisa abraçar com delicadeza e preparo. Além disso, o diálogo intergeracional, o abismo entre crianças, jovens e idosos, surgiu como um desafio que a Pastoral Familiar deve ajudar a superar através da escuta. “Durante as explanações, vimos muitas luzes. A liderança do Xingu-Altamira tem um compromisso eclesial de pertença muito bonito. Eles enxergaram os desafios, mas também as rotas para levar esperança a quem sofre”, observou Padre Rodolfo.

O encontro foi encerrado em clima de profunda gratidão. O padre Jeová de Jesus Morais, pároco de Uruará, acolheu os assessores e participantes com o calor típico da região, reforçando a importância de momentos como este para fortalecer o clero e o laicato.

Para Luciana Limão, o sentimento é de plenitude. “Gratidão! O coração está transbordando por tudo que vivemos. Quanto mais longe Deus nos leva em missão, mais rica se torna nossa caminhada”.

A formação em Uruará deixa um legado claro, a Pastoral Familiar no Xingu não é apenas uma estrutura organizacional, mas um “pegar na mão”, um “amamentar” a fé, como descreveu o Papa Francisco. No coração da Amazônia, as famílias reafirmaram que, apesar das distâncias e das cruzes, o serviço ao Senhor é o caminho que transforma a casa em Igreja e a dor em esperança.

Em sua mensagem final, deixada, pelo assessor da CNBB Nacional, padre Rodolfo Chagas, as família do Xingu ele diz: “Meus irmãos e minhas irmãs da Arquidiocese de Santarém e da Diocese de Xingu-Altamira, com o coração cheio de gratidão, lembro-lhes que no meio da mata amazônica, existe uma árvore que nos ensina muito sobre a família sem precisar pronunciar uma só palavra: a castanheira.
Ela não surge do nada. Nasce de uma pequena e resistente castanha que cai no chão e, silenciosamente, começa a criar raízes. A castanheira somente permanece de pé porque suas raízes descem profundamente, talvez ainda mais do que seus galhos se elevam. São essas raízes que a sustentam, que firmam a terra durante as enxurradas e que buscam água nos lugares que ninguém consegue ver. Assim também acontece com a família, pois o que sustenta uma casa não é aquilo que aparece no Facebook ou no Instagram, mas o que é vivido no silêncio e no cotidiano: a oração feita com fé, o “perdoa-me” dito baixinho, o pai que sai para trabalhar mesmo cansado, a mãe que reza o terço discretamente na cozinha, os pequenos gestos de cuidado, renúncia e fidelidade que somente Deus conhece.
Essa é a vocação da família cristã, ser uma casa que não vive apenas para si mesma, mas que abre suas portas para o sobrinho, para a vizinha, para o idoso e para quem necessita de acolhida. É uma casa que, mesmo enfrentando dificuldades, ainda encontra um prato de arroz para partilhar e um copo de água para oferecer.
Família é isso, plantar valores que talvez não vejamos florescer imediatamente. É ensinar a rezar, a perdoar, a trabalhar, a amar e a servir, mesmo quando os filhos parecem não estar ouvindo. É tornar-se raiz para que outros encontrem sombra, descanso, proteção e esperança.
Que Nossa Senhora, a grande castanheira que gerou para o mundo o maior de todos os Frutos, Jesus Cristo, e São José, o carpinteiro fiel que cuidou da Sagrada Família e preparou a madeira com suas próprias mãos, nos ensinem a ser verdadeiras famílias-castanheiras: profundamente enraizadas em Deus, firmes nas tempestades, generosas nos frutos e acolhedoras em sua sombra.
Minha profunda gratidão pela verdadeira aula de comunhão, fé e amor à Igreja que vocês me ofereceram. Sigamos firmes na missão, com ousadia, coragem e esperança. Meu abraço fraterno a todas as famílias!
” (Pe. Rodolfo Chagas Pinho – ‘O último de todos e servo de todos!’)

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