por Vívian Marler / Assessora Comunicação CNBB Regional Norte 2

Neste domingo (12 de julho), o Estado do Amapá bateu no ritmo do batuque e da oração. A Vila Histórica de Mazagão Velho e a comunidade quilombola de Igarapé do Lago celebraram uma das tradições mais profundas da região, a ‘Festa em honra a Nossa Senhora da Piedade’. Em 2026, a festividade alcança a marca histórica de 160 anos, reafirmando-se como um pilar da identidade e da fé do povo negro da Amazônia.

Para entender a fé de Mazagão Velho, é preciso olhar para o passado. A vila foi fundada em 1770 por famílias portuguesas e africanas que vieram de uma possessão portuguesa no Marrocos (também chamada Mazagão). Elas cruzaram o Atlântico para “refundar” a cidade em pleno solo amazônico. Ao longo dos séculos, essa herança se fundiu com a resistência quilombola, transformando a região em um solo sagrado de cultura afro-brasileira.

A Festa de Nossa Senhora da Piedade, especificamente, é o símbolo maior da comunidade de Igarapé do Lago (território quilombola irmão de Mazagão Velho). Diz a tradição que a devoção começou como um refúgio de fé para os escravizados e seus descendentes, que viam em Maria, a Mãe da Piedade, o consolo para as dores e a força para a liberdade.

A fé desse povo é “encarnada”. Ela não está apenas nos livros, mas no som dos tambores e no suor da dança. O diferencial da festa é a ‘Folia, onde os devotos percorrem as casas com a bandeira da santa, entoando cânticos ancestrais.

Um dos momentos mais emocionantes e simbólicos é a ‘Procissão da Meia-Lua’, uma característica única onde os fiéis caminham em formato semicircular, simbolizando o acolhimento e a união da comunidade. Recentemente, em 2025, essa festividade foi reconhecida como ‘Patrimônio Cultural Imaterial do Amapá’, um justo título para uma tradição que resiste há 16 décadas.

Situado a cerca de 70 km da capital Macapá, o distrito de Mazagão Velho mantém o ar de vila colonial com suas casas coloridas e ruas que exalam história. É o principal polo cultural do município de Mazagão, servindo como guardião de tradições que atraem pesquisadores e turistas do mundo todo.

Durante a programação da festividade deste ano, o dia de ontem foi marcado pela chegada das comitivas de foliões, o hasteamento do mastro e o início das alvoradas festivas, onde o som dos fogos e do batuque anunciou que a “Mãe da Piedade” estava em festa.

Neste domingo, o ponto alto aconteceu pela manhã com a Missa Solene, presidida pelo clero local, seguida pela tradicional procissão e o almoço comunitário, onde a partilha foi o prato principal.

“Celebrar os 160 anos da Piedade não é apenas um ato religioso; é um manifesto político e cultural. É dizer que, no coração da Amazônia, a memória dos antepassados continua viva e que a fé é o combustível que sustenta o povo de Mazagão Velho e seus arredores”, disse padre Paulo Roberto da Conceição.

Os Símbolos da Piedade: Onde o Céu e a Terra se Encontram no Amapá

Para quem vê de longe, o hasteamento do mastro, as alvoradas e a Procissão da Meia-Lua são belos espetáculos. Mas, para o povo de Mazagão Velho e Igarapé do Lago, cada um desses gestos é uma conversa com o sagrado e com os antepassados.

O Mastro
O hasteamento do mastro é o rito que “abre o céu” para a festa. No catolicismo popular e nas tradições quilombolas, o mastro não é apenas um pedaço de madeira; ele é um símbolo de gratidão e de pedido por fartura. Erguê-lo significa colocar a comunidade sob a proteção divina, conectando o chão que pisamos com o alto.

A Alvorada e os Fogos
O som dos fogos de artifício e o batuque ao amanhecer têm a função de “despertar” a santidade e avisar a toda a natureza que o tempo sagrado começou. É o convite para que todos, vivos, mortos e santos, participem da alegria. O batuque aqui não é apenas música; é a batida do coração da resistência quilombola, uma oração feita com os pés e as mãos.

A Procissão da Meia-Lua
A Procissão da Meia-Lua é um dos ritos mais singulares do Amapá. Ela recebe esse nome pela forma como as barcas (no rio) ou os fiéis (em terra) se movimentam.
O formato de “meia-lua” simboliza o movimento da vida, as fases da lua que regem as colheitas e as marés dos rios amazônicos. Diferente de uma procissão em linha reta, o semicírculo abraça a comunidade, criando um elo de proteção onde ninguém fica de fora. É o povo rodeando a sua Mãe em um abraço coletivo.

Nossa Senhora da Piedade é a representação da Virgem Maria segurando Jesus morto em seus braços (como na famosa Pietà de Michelangelo). Por essa imagem tão forte de dor e amor, ela é considerada a ‘Protetora dos Aflitos e Sofredores’, porque Ela entende a dor da perda e do luto, sendo o refúgio de quem passa por momentos de desespero.

Também é conhecida como a ‘Mãe do Consolo’, para as comunidades quilombolas, ela foi a força para suportar as dores da escravidão, oferecendo o “colo de mãe” a quem não tinha nada, e também chamada de ‘Padroeira das Vocações e das Famílias’, devido a sua entrega total ao plano de Deus, ela inspira a união familiar e a resposta ao chamado divino.

“O mastro erguido aponta o caminho do céu, enquanto o batuque na alvorada firma nossos pés na terra dos antepassados. Na Procissão da Meia-Lua, não apenas caminhamos; nós abraçamos a Mãe da Piedade, aquela que acolheu a dor do mundo em seus braços para nos ensinar que, depois de todo Calvário, existe a ressurreição da nossa cultura e da nossa fé”, finalizou padre Paulo Roberto.

 

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