por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2
foto Decasterio para Comunicação/ Vaticano

O dia 21 de abril, marcado simultaneamente pelo aniversário de Roma e pelo primeiro ano da morte do Papa Francisco, foi celebrado com memória, gratidão e um gesto editorial que revelou novas dimensões da formação intelectual do pontífice argentino. A data foi assinalada por uma homenagem institucional do presidente da República Italiana, Sergio Mattarella, e pela publicação inédita de um ensaio juvenil de Jorge Mario Bergoglio sobre a obra clássica ‘Eneida, de Virgílio’.

Em artigo publicado com exclusividade pelo jornal L’Osservatore Romano, Mattarella definiu o pontificado de Francisco como uma presença que deixou “uma marca indelével na história da humanidade”. O chefe de Estado recordou especialmente a atuação do Papa em momentos críticos da história recente, destacando a força simbólica da oração realizada na Praça São Pedro durante a pandemia de Covid-19. “Sua oração no adro da Basílica, em uma Praça São Pedro deserta, foi, para o mundo inteiro, voz da humanidade”, afirmou o presidente, ressaltando ainda a sobriedade e a profundidade da relação institucional que manteve com o pontífice.

Além da homenagem institucional, o sistema de comunicação do Vaticano lançou uma estratégia multimídia voltada à memória do Papa Francisco. Entre as iniciativas, destaca-se o documentário “Todos, todos, todos”, produzido pelo Vatican News, e que está disponível nas plataformas de mídia do Vaticano com legendas em italiano, espanhol, inglês, francês e árabe ( https://www.youtube.com/watch?v=Jfd8J3dr4AA ) , reúne imagens históricas e testemunhos para apresentar um retrato abrangente de um pontífice marcado pelo diálogo, pela inclusão e pela defesa da paz e da justiça social.

Entretanto, a grande surpresa editorial veio das páginas do próprio L’Osservatore Romano, que publicou na íntegra um texto datilografado e inédito de Jorge Mario Bergoglio dedicado à Eneida. O manuscrito, guardado por anos pelo diretor do jornal, Andrea Monda, revela um aspecto menos conhecido do futuro Papa, o de leitor atento e intérprete apaixonado da tradição clássica. Segundo Monda, o texto foi entregue pelo próprio Francisco ainda antes de seu pontificado, acompanhado da observação humilde de que se tratava apenas de uma “brincadeira juvenil”. A publicação, agora tornada pública, foi compreendida como uma devolução cultural e espiritual à comunidade, permitindo acesso a uma dimensão fundamental da formação do primeiro Papa latino-americano.

O ensaio juvenil demonstra forte sensibilidade literária e simbólica. No texto, o jovem Bergoglio descreve a queda de Troia como uma noite dominada pelo terror e pela destruição, na qual o esplendor de uma grande cidade se reduz a cinzas. Em meio ao caos, surge a figura de Eneias como protagonista de uma profunda luta interior — não apenas pela sobrevivência, mas pela aceitação de uma missão maior. A narrativa apresenta a destruição como ponto de partida para um novo começo, simbolizado pelo surgimento de Roma e pela continuidade histórica da civilização latina.

Ao interpretar Eneias como símbolo da vocação e da responsabilidade coletiva, o jovem autor destaca o momento decisivo em que o herói aceita seu destino e assume a condução do povo sobrevivente. Esse gesto, descrito simbolicamente como a colocação da “primeira pedra da Mãe Roma”, revela um pensamento profundamente marcado pela ideia de missão, renúncia e serviço, elementos que, anos mais tarde, se tornariam centrais no magistério do Papa Francisco.

Papa Francisco, em seu texto, descreve a queda de Troia como uma noite dominada pelo terror e pelo silêncio aterrador, na qual o esplendor de uma grande cidade se transforma em cinzas sob o peso do destino. No meio do caos, surge uma vocação que luta para tomar forma no coração de Eneias, sinalizada simbolicamente pela pomba que retorna com um ramo de oliveira.

A narrativa é apresentada como a luta interior de Eneias contra a própria vocação, um combate entre o desejo humano de permanecer ou morrer com a pátria e o chamado superior que o impulsiona a seguir adiante. A destruição de Troia não representa apenas o fim, mas também o início de uma nova história, da qual nascerá a estirpe latina e as muralhas da futura Roma. Era una notte in cui «il terrore s’insinuava ovunque e persino lo stesso silenzio era raccapricciante» (Era uma noite em que “o terror se insinuava por toda parte e até o próprio silêncio era aterrador”). Il fasto di una grande città si era trasformato in ceneri schiacciate dal peso implacabile dei fati. (O esplendor de uma grande cidade havia se transformado em cinzas esmagadas pelo peso implacável do destino.) La vita fuggiva con il fumo nero che velava le stelle. (A vida fugia com a fumaça negra que velava as estrelas). In quell’ambiente caotico fluttuava solo un respiro, una vocazione che lottava con l’uomo nel quale doveva incarnarsi: (Naquele ambiente caótico flutuava apenas um sopro, uma vocação que lutava com o homem no qual deveria encarnar-se:) «e la colomba tornò e aveva nel becco un ramoscello d’olivo». (“e a pomba voltou trazendo no bico um ramo de oliveira”).

No momento decisivo, Eneias compreende que precisa aceitar sua missão. Ao reunir aqueles que esperam por ele, torna-se símbolo de renúncia pessoal e responsabilidade coletiva. É nesse instante que, segundo o jovem autor, se coloca simbolicamente a primeira pedra da Mãe Roma, não apenas como fundação histórica, mas como ato espiritual de aceitação do destino. «la lotta di Enea con la vocazione voluta dagli dei» (“a luta de Eneias com a vocação desejada pelos deuses”), «di dove la stirpe latina… e le mura dell’alta Romana» («de onde descende a estirpe latina… e as muralhas da alta Roma»). «qui… si pone la prima pietra della Madre Roma» («aqui.. é colocada a primeira pedra da Mãe Roma»).

A escolha do dia 21 de abril para a divulgação do texto carrega forte significado simbólico. A coincidência entre o aniversário da morte de Francisco e o tradicional Natal de Roma, cidade associada ao mito de Eneias, estabelece uma ponte entre a herança cultural clássica e a tradição cristã. Essa convergência evidencia como a formação intelectual de Bergoglio foi marcada pela integração entre literatura, espiritualidade e reflexão histórica, dimensões que acompanharam sua trajetória pastoral e influenciaram sua visão universal de Igreja e humanidade.

Mais do que uma recordação histórica, as celebrações deste primeiro aniversário da morte de Francisco reafirmam a atualidade de seu legado espiritual e cultural. Ao tornar público um texto escrito ainda na juventude, o Vaticano oferece ao mundo não apenas uma peça literária inédita, mas uma chave interpretativa para compreender a profundidade humanista e a sensibilidade pastoral que moldaram a vida e o pontificado daquele que se tornou uma das figuras religiosas mais influentes do século XXI.

Leia também (continuação)ENTRE TROIA E ROMA’ COMO ENEIDA INSPIRA A FORMAÇÃO MORAL E PASTORAL NA VISÃO DA IGREJA” 

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