por Dom Julio Endi Akamine
Arcebispo da Arquidiocese de Belém

Ele apareceu na igreja e começou a frequentar as missas. Todos se enterneceram vendo o bichano roçando as pernas dos fiéis, se espreguiçando debaixo do altar e bebendo a água da pia batismal. Infalivelmente aparecia durante as celebrações da missa. Até parecia que estava habituado a responder ao chamado dos sinos.

O padre, no entanto, não conseguia se concentrar na celebração e se perdia em sua homilia por causa do gato que gostava de se exibir exatamente na hora da missa. Por um bom tempo, tentou ignorar a presença do gato. Não conseguiu. Tentou redobrar os esforços de concentração. Chegou até mesmo a pensar que Deus o estava provando e que tal prova lhe resultaria em uma celebração mais devota. Se conseguisse vencer a distração que o gato lhe causava, ele estaria progredindo na arte de celebrar e alcançaria uma capacidade superior de concentração na vida de oração.

Não teve jeito. O gato vencia sempre os esforços do padre. Por mais bem-intencionado que estivesse, o padre perdeu a paciência com o gato. Ainda que irritado, porém, se decidiu por uma solução menos radical para não chocar os fiéis que tinham se afeiçoado ao gato. Pediu ao sacristão que o amarrasse ao pé do altar durante a missa. Assim o gato não ficaria andando de um lado para outro, distraindo-o durante as funções litúrgicas.

Os anos passaram, e o gato morreu. Houve comoção entre os paroquianos apegados ao bichano que todos os dias devotamente assistia as missas. Para consolar os seus fiéis, o pároco resolveu adotar um outro gato para as celebrações da missa. O povo aprovou e aceitou com gosto o novo fiel felino de raça incerta, mas tão comportado quanto o seu predecessor.

Também esse gato morreu e foi substituído por outro. Assim alguns gatos se sucederam nas missas daquela paróquia.

Muitos outros anos se passaram. O pároco envelheceu, e um dia faleceu. As exéquias foram muito concorridas. Todos os paroquianos vieram à missa de corpo presente. Até o gato estava presente no seu lugar de costume. O bispo que presidiu as exéquias achou aquilo um pouco estranho, mas achou melhor não contrariar os fiéis que demostravam saudade do velho pároco que os batizou, administrou-lhes a primeira comunhão, os confessou e batizou seus filhos e netos.

Quando o novo pároco chegou notou imediatamente o gato com sua bela coleira ao pé do altar. Estranhou um pouco, mas não comentou nem perguntou nada. Depois de algumas missas, não aguentou a curiosidade e perguntou para um frequentador assíduo da missa a razão daquele costume insólito de amarrar um gato aos pés do altar para celebrar a missa.

Como se tratava de um fiel da quarta geração felina, não conhecia mais a origem daquele costume. Por isso, simplesmente respondeu que naquela paróquia nunca se rezava a missa sem um gato amarrado ao pé do altar. Com o passar do tempo, houve até várias publicações de artigos no boletim paroquial sobre a “Importância do gato na celebração da missa”.

Caro leitor, querida leitora, essa fábula pode ter diversas aplicações para diferentes destinatários. Tiro uma lição para mim.

O gato é uma circunstância passageira que se tornou uma tradição acrescentada artificialmente ao mistério eucarístico. Foi uma solução que valia para o passado, mas acabou por se tornar um peso e considerada erroneamente como uma tradição a ser preservada: “nesta paróquia só se celebra a missa com o gato”. Com efeito, uma solução pode se desconectar do problema concreto ao qual responde e ser alçada a uma condição falsa de essencial.

A reforma litúrgica propugna fazer com que “os fiéis possam participar das ações litúrgicas de forma consciente, ativa e frutuosa”. Exatamente para isso alguns gatos foram tirados da liturgia.

Vou me esforçar para não ressuscitar gatos!

 

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