
por Dom Paulo Andreolli, SX
Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém
Caríssimos leitores, muito obrigado por acompanharem semanalmente este artigo. Deus seja louvado! Neste 10º Domingo do Tempo Comum, a Liturgia nos conduz ao coração da vida cristã: a MISERICÓRDIA. As leituras propostas (Os 6,3-6; Sl 49 (50); Rm 4,18-25; Mt 9,9-13) revelam um Deus que não se contenta com práticas religiosas exteriores, sem coerência entre fé e vida, mas deseja um coração capaz de amar, acolher e servir.
A 1ª Leitura da profecia de Oséias transmite uma mensagem que atravessa os séculos e permanece extremamente atual: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Deus não despreza o culto, a oração ou as celebrações, mas recorda que toda expressão religiosa perde seu valor quando não se traduz em gestos concretos de amor ao próximo. Afinal, a verdadeira fé não se mede apenas pelo que acontece dentro dos templos, mas sobretudo pelo que realizamos fora deles, no encontro com os irmãos e irmãs que necessitam de cuidado, carinho e atenção.
O Evangelho também reforça essa mensagem ao narrar o chamado de Mateus. Jesus dirige seu olhar para um cobrador de impostos, alguém desprezado pela sociedade de seu tempo. Em vez de condená-lo, convida-o a segui-Lo. Logo depois, senta-se à mesa com pecadores, provocando a crítica dos fariseus. No entanto, a resposta de Jesus é clara: “Não vim chamar os justos, mas os pecadores”.
Essa atitude revela o rosto misericordioso de Deus. Jesus não ignora o pecado, mas oferece a possibilidade da conversão. Ele não exclui, mas acolhe; não humilha, mas levanta. Sua presença junto aos marginalizados mostra que ninguém está fora do alcance do amor divino, pois o próprio Cristo é a revelação concreta do amor do Pai.
Diante dessa Palavra, somos convidados a refletir sobre as obras de misericórdia, tão valorizadas pela tradição da Igreja. Elas constituem uma resposta concreta ao mandamento do amor e expressam a fé em ações visíveis. As obras corporais nos chamam a dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, vestir os nus, acolher os peregrinos, visitar os enfermos e os presos, e sepultar os mortos. Já as obras espirituais nos convidam a aconselhar, ensinar, corrigir com caridade, consolar os aflitos, perdoar as ofensas, suportar com paciência as fraquezas do próximo e rezar pelos vivos e pelos falecidos.
Em um mundo marcado pelo individualismo, pela indiferença e pela pressa, essas obras tornam-se um verdadeiro programa de vida cristã. Muitas vezes, a maior pobreza não é material, mas afetiva e espiritual. Há pessoas que necessitam apenas de uma palavra de esperança, de um sorriso, de uma escuta sincera, de um gesto de reconciliação ou, simplesmente, de alguém que lhes faça companhia.
Caros leitores, as obras de misericórdia não exigem grandes recursos ou ações extraordinárias. Elas começam nas pequenas atitudes do cotidiano: na atenção dedicada a quem sofre, na visita a um familiar doente, no perdão concedido a quem nos ofendeu ou na disponibilidade para ouvir quem precisa desabafar. São gestos simples que refletem a presença de Deus e tornam o mundo mais humano e fraterno.
Além disso, a prática da misericórdia transforma não apenas quem a recebe, mas também quem a realiza. Quando ajudamos alguém, crescemos na capacidade de amar, aprendemos a vencer o egoísmo e nos aproximamos cada vez mais do exemplo de Cristo. A misericórdia educa o coração e fortalece os laços de comunhão dentro das famílias, das comunidades e da sociedade.
É importante mencionar ainda a 2ª Leitura da Carta aos Romanos, que apresenta Abraão como exemplo de fé perseverante. Ele acreditou contra toda esperança. Também nós somos chamados a acreditar que a misericórdia tem força para transformar pessoas, famílias e comunidades. Cada gesto de bondade, por menor que pareça, faz o Reino de Deus acontecer, isto é, torna-o presente entre nós.
Por fim, a liturgia dominical nos recorda que a santidade não consiste apenas em cumprir normas religiosas, mas em permitir que o amor misericordioso de Deus alcance os outros por meio de nossas mãos. Que estas reflexões nos inspirem a fazer da misericórdia um estilo permanente de vida, pois é nela que Deus deseja ser encontrado e reconhecido.
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