por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2

Em um momento de profunda reflexão e comunhão, o Papa Leão XIV presidiu a Santa Missa com os 170 cardeais participantes do Consistório Extraordinário, reafirmando a vocação fundamental do Colégio Cardinalício. Longe de ser um mero ajuntamento de peritos, o Santo Padre enfatizou que esta assembleia deve funcionar primariamente como uma comunidade de fé.

Em sua homilia, o Papa deixou claro que o propósito de “parar” (consistere) neste encontro não é promover “agendas” individuais ou setoriais. Pelo contrário, o foco está em sintonizar-se com a urgência do mundo atual — uma humanidade “sedenta de bem e de paz”. A responsabilidade dos cardeais, como sucessores dos Apóstolos, é canalizar os seus dons e competências para o serviço da Igreja universal, guiados pelo discernimento divino e não por interesses particulares. O gesto de se reunirem é, em si, um ato profético de amor e de renúncia ao ritmo frenético exterior, para melhor escutar o que o Senhor pede para o Seu Povo.

O Colégio Cardinalício encerra hoje os trabalhos do seu Consistório Extraordinário, convocado pelo Papa Leão XIV, um encontro que se desenrolou sob o signo da reflexão profunda e da fraternidade. Mais do que um encontro administrativo, o evento serviu como um poderoso lembrete da essência da missão da Igreja no terceiro milénio: ser um polo de atração movido pelo Amor.

A Força da Charis

O Santo Padre ecoou o ensinamento dos seus antecessores, Papa Bento XVI e Papa Francisco, ao sublinhar que a Igreja não promove proselitismo, mas cresce por atração. Esta força motriz é a Charis, o Agape — o Amor de Deus encarnado em Jesus Cristo. Como disse o Papa, citando São Paulo, “O amor de Cristo nos impele” (Caritas Christi urget nos), um amor que nos possui e nos move a servir. A unidade e a caridade mútua entre os Cardeais, portanto, tornam-se o primeiro e mais credível testemunho desta atração divina.

A Importância de “Parar” (Consistere)

Um dos pontos mais significativos do discurso foi a reflexão sobre a própria palavra “Consistório” (Consistorium), que implica “deter-se” ou “parar”. Numa sociedade frenética, esta pausa é vista como um ato profético de amor: suspender as agendas pessoais e de grupo para focar no discernimento que transcende a nossa capacidade humana.

O Papa apelou a que os presentes se concentrassem em encontrar, através da oração e do olhar mútuo, os “cinco pães e dois peixes” que a Providência nunca nega àqueles que pedem ajuda, para alimentar a fome de paz e bem da humanidade.

Sinodalidade como Estilo de Vida

A assembleia foi também uma reafirmação do caminho sinodal, aprendido nas recentes Assembleias do Sínodo dos Bispos. A escuta da mente, do coração e do espírito de cada um, foi o método privilegiado, com o objetivo de construir um modelo de colegialidade onde cada dom, oferecido ao Senhor, produza o máximo fruto para o Corpo Místico.

Ao concluir, o Papa Leão XIV invocou Santo Agostinho, lembrando a todos a sua origem humilde “Lembra-te, Senhor, que somos pó”. Este reconhecimento da graça como fonte de todo o talento e responsabilidade reforça a entrega dos Pastores ao serviço da Igreja, sob a orientação do Espírito Santo.

A mensagem final do Consistório é clara ‘a Igreja avança não pela força da sua organização, mas pela irradiação do Amor de Cristo, manifestado na comunhão e na escuta atenta’.

Leia abaixo a homilia do Papa Leão XIV, na integra.

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CONSISTÓRIO EXTRAORDINÁRIO

SANTA MISSA

HOMILIA DO SANTO PADRE LEÃO XIV

Basílica de São Pedro
Quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus» (1Jo 4,7). A Liturgia propõe-nos esta exortação enquanto celebramos o Consistório extraordinário: momento de graça em que se expressa o nosso ser unidos ao serviço da Igreja.

Como sabemos, a palavra Consistório, Consistorium, “assembleia”, pode ser lida à luz da raiz do verbo consistere, isto é, “deter-se”. E, de facto, todos nós nos “detivemos” para estar aqui: suspendemos por um certo tempo as nossas atividades e renunciámos a compromissos mesmo importantes, para nos encontrarmos juntos a discernir o que o Senhor nos pede para o bem do seu Povo. Isto é já, em si, um gesto muito significativo, profético, particularmente no contexto da sociedade frenética em que vivemos. Recorda, de facto, a importância, em qualquer percurso da vida, de parar, para rezar, escutar, refletir e assim focar sempre melhor o olhar no objetivo, direcionando para ele todo o esforço e recurso, para não corrermos o risco de correr cegamente ou de esmurrar o ar em vão, como adverte o apóstolo Paulo (cfr 1Cor 9,26). Não estamos, de facto, aqui para promover “agendas” – pessoais ou de grupo –, mas para confiar os nossos projetos e as nossas inspirações ao crivo de um discernimento que nos supera «quanto o céu sobrepõe à terra» (Is 55,9) e que só pode vir do Senhor.

É por isso que é importante que agora, na Eucaristia, coloquemos todo o nosso desejo e pensamento no Altar, juntamente com o dom da nossa vida, oferecendo-o ao Pai em união com o Sacrifício de Cristo, para o recebermos purificado, iluminado, fundido e transformado, por graça, num único Pão. Só assim, de facto, saberemos verdadeiramente escutar a sua voz, acolhendo-a no dom que somos uns para os outros: motivo pelo qual nos reunimos.

O nosso Colégio, embora rico em tantas competências e dotes notáveis, não é chamado a ser, em primeiro lugar, uma equipa de peritos, mas uma comunidade de fé, na qual os dons que cada um traz, oferecidos ao Senhor e por Ele restituídos, produzam, segundo a Sua Providência, o máximo fruto.

Além disso, o Amor de Deus, do qual somos discípulos e apóstolos, é Amor “trinitário”, “relacional”, fonte daquela espiritualidade de comunhão da qual a Esposa de Cristo vive e quer ser casa e escola (cfr Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 6 de janeiro de 2001, 43). São João Paulo II, ao desejar o seu crescimento no início do terceiro milénio, definia-a como um «olhar do coração levado sobre o mistério da Trindade que habita em nós, e cuja luz deve ser captada também no rosto dos irmãos que nos estão ao lado» (ibid.).

O nosso “deter-nos”, então, é antes de mais um grande ato de amor – a Deus, à Igreja e aos homens e mulheres de todo o mundo –, com o qual nos deixamos moldar pelo Espírito: antes de tudo na oração e no silêncio, mas depois também no olharmos para o rosto uns dos outros, no escutarmo-nos mutuamente e no darmos voz, através da partilha, a todos aqueles que o Senhor confiou à nossa solicitude de Pastores, nas mais variadas partes do mundo. Um ato a viver com coração humilde e generoso, na consciência de que é por graça que estamos aqui, e que nada do que trazemos é nosso, mas tudo recebemos, como dom e talento para não deixar desperdiçar, mas para investir com prudência e coragem (cfr Mt 25,14-30).

São Leão Magno ensinava que «é coisa grande e muito preciosa aos olhos do Senhor quando todo o povo de Cristo se aplica junto aos mesmos deveres, e todos os graus e todas as ordens […] colaboram com o mesmo espírito […]. Então – dizia – os famintos são nutridos, os nus são vestidos, os enfermos são visitados, e ninguém procura os seus próprios interesses, mas os dos outros» (Sermões, 88, 4). Este é o espírito com que queremos trabalhar juntos: o de quem deseja que no Corpo Místico de Cristo cada membro coopere ordenadamente para o bem de todos (cfr Ef 4,11-13), desempenhando com dignidade e em plenitude o seu ministério sob a guia do Espírito, feliz por oferecer e ver amadurecer os frutos do seu trabalho, como por receber e ver crescer os da obra alheia (cfr S. Leão Magno, Sermões, 88,5).

Há dois milénios que a Igreja encarna este mistério na sua beleza multifacetada (cfr Francisco, Carta Encíclica Fratelli tutti, 280). Esta mesma assembleia é testemunha disso, na variedade das proveniências e das idades e na unidade de graça e de fé que nos reúne e nos irmana.

Certamente, também nós, perante a “grande multidão” de uma humanidade faminta de bem e de paz, num mundo onde a saciedade e a fome, a abundância e a miséria, a luta pela sobrevivência e o desesperado vazio existencial continuam a dividir e a ferir as pessoas, as nações e as comunidades, podemos sentir-nos como os discípulos perante as palavras do Mestre: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6,37): inadequados e sem meios. Jesus, porém, volta a repetir-nos: «Quantos pães tendes? Ide ver» (Mc 6,38), e isto podemos fazê-lo juntos. Nem sempre, de facto, conseguiremos encontrar soluções imediatas para os problemas que temos de enfrentar. Sempre, porém, em qualquer lugar e circunstância, poderemos ajudar-nos mutuamente – e em particular ajudar o Papa – a encontrar os “cinco pães e dois peixes” que a Providência nunca deixa faltar onde os seus filhos pedem ajuda; e a acolhê-los, entregá-los, recebê-los e distribuí-los, enriquecidos pela bênção de Deus e pela fé e pelo amor de todos, para que a ninguém falte o necessário (cfr Mc 6,42).

Caríssimos, aquilo que oferecem à Igreja no vosso serviço, a todos os níveis, é algo grande e extremamente pessoal e profundo, único para cada um e precioso para todos; e a responsabilidade que partilham com o Sucessor de Pedro é grave e onerosa.

Por isso vos agradeço de coração, e gostaria de concluir confiando os nossos trabalhos e a nossa missão ao Senhor com as palavras de Santo Agostinho: «Muitas graças concedeste às nossas preces; também aquelas que recebemos antes de rezar são um dom teu, e também reconhecê-las depois de as termos recebido é um dom teu […]. Lembra-te, Senhor, que somos pó, e com o pó criaste o homem» (Confissões, 10, 31, 45). Por isso te dizemos: «Dá o que mandas e manda o que queres» (ibid.)“.

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