por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2

Neste domingo (24), Solenidade de Pentecostes, o Papa Leão XIV presidiu a Santa Missa na Basílica de São Pedro, encerrando o Ciclo Pascal com um forte apelo à renovação missionária e à reconciliação global. Em sua homilia, o Pontífice apresentou o Espírito Santo não apenas como um evento histórico, mas como uma força viva que transforma o “medo em alegria” e a “confusão em comunhão”.

Partindo do relato evangélico dos discípulos fechados no Cenáculo, o Papa traçou um paralelo com as “sepulturas” contemporâneas da humanidade, o medo, a guerra e a falta de saídas. Ele enfatizou que a presença do Ressuscitado e o sopro do Espírito transfiguram a dor. “O lugar da ceia e da traição se transforma e, de sepulcro dos Apóstolos, torna-se para toda a Igreja ventre de ressurreição”, afirmou o Santo Padre, lembrando que Pentecostes é, acima de tudo, a festa do corpo de Cristo, que a Igreja encarna por graça.

Leão XIV estruturou sua reflexão em três pilares, Paz, Missão e Verdade. Para o Papa, o Espírito Santo é o portador de uma lei escrita nos corações, que ele definiu como o “código da paz”. Este código se traduz no duplo mandamento do amor e na autoridade do perdão.

Ao falar sobre a dimensão missionária, o Pontífice deixou uma mensagem direta aos comunicadores e agentes de pastoral, “Caríssimos, verdadeiramente nós somos participantes do Evangelho, toda a Igreja é protagonista, não apenas guardiã. Com a força do Espírito, o nosso anúncio torna-se repleto de alegria e de esperança, porque nós, precisamente nós somos a novidade do mundo”.

No encerramento de sua fala, em um tom de prece fervorosa, o Papa tocou nas chagas sociais que assolam o mundo atual. Ele contrapôs a lógica das armas e do capital à lógica do Espírito, afirmando que as grandes crises da humanidade não serão resolvidas por forças meramente humanas ou econômicas. “Rezemos hoje para que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, que é vencida não por uma superpotência, mas pela Onipotência do amor. Rezemos para que liberte a humanidade da miséria, que é resgatada não por uma riqueza incalculável, mas por um dom inesgotável”, exclamou.

O Papa também alertou contra as divisões internas e as “modas que obscurecem a luz do Evangelho”, pedindo que o Espírito Santo, o “Paráclito”, proteja a Igreja das facções e das hipocrisias. Segundo Leão XIV, a verdade de Deus deve ser sempre uma “palavra libertadora para todos os povos”, capaz de transformar cada cultura a partir do seu interior.

A celebração foi encerrada com a tradicional oração à Maria, Mãe da Igreja, pedindo que o mesmo coragem que impulsionou os apóstolos no primeiro Pentecostes habite na Igreja de hoje.

Leia a homilia na integra abaixo.

SANTA MISSA NA SOLENIDADE DE PENTECOSTES

CAPELA PAPAL

HOMILIA DO SANTO PADRE LEÃO XIV

Basílica de São Pedro
Domingo, 24 de maio de 2026

“Queridos irmãos e irmãs,

O Tempo Pascal atinge hoje, solenidade de Pentecostes, o seu cumprimento. Para evidenciar a unidade deste evento de salvação, o Evangelho nos conduz novamente ao “primeiro dia da semana” (cf. Jo 20,19), isto é, àquele dia novo no qual Jesus ressuscitado aparece aos discípulos mostrando-lhes «as mãos e o lado» (v. 20). O Senhor revela o seu corpo glorioso, precisamente as suas chagas, as feridas da crucificação. Estes sinais da paixão, mais eloquentes do que qualquer discurso, estão transfigurados: Aquele que estava morto vive para sempre.

Ao ver o Senhor, também os discípulos voltam a viver: tinham-se sepultado no cenáculo cheios de medo, mas Jesus entra ali apesar das portas fechadas e enche-os de alegria. Ele passa através da nossa morte, abre o sepulcro e escancara-o onde para nós não havia mais saída. Ao seu gesto, Cristo une a palavra: «A paz esteja convosco» (v. 19); e logo depois sopra sobre os discípulos o Espírito Santo. O Ressuscitado está cheio de vida: depois de ter mostrado a do corpo, como verdadeiro homem, doa a de Deus, como Filho amado do Pai, feito para nós irmão e Redentor. No mesmo cenáculo onde instituiu a nova e eterna aliança, Jesus efunde o Espírito: o lugar da ceia e da traição se transforma e, de sepulcro dos Apóstolos, torna-se para toda a Igreja ventre de ressurreição. Por isso, o Pentecostes é festa pascal e festa do corpo de Cristo, que por graça somos nós.

Celebrando este mistério, gostaria de me deter em três aspectos.

Primeiramente, **o Espírito do Ressuscitado é o Espírito da paz**. De fato, na sua Páscoa, Cristo faz a paz entre Deus e a humanidade, e o Espírito Santo a infunde nos corações e a difunde no mundo. Esta paz vem do perdão e nos leva ao perdão: começa com o perdão doado pelo próprio Jesus, que foi por nós traído, condenado, crucificado. Surpreendendo-nos com o seu amor, precisamente Ele, o ressuscitado, diz: «Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados» (Jo 20,23). Com estas palavras, Jesus nos confia uma obra divina, porque só Deus pode perdoar os pecados (cf. Mc 2,7). Tal autoridade é doada no signo de uma reconciliação universal: o Senhor efunde o Espírito da paz de um extremo ao outro da história, porque não exclui ninguém Aquele que redimiu a todos da morte. O Espírito Santo, de fato, é Senhor e dá a vida desde o início da criação, quando pairava sobre as águas (cf. Gn 1,2), e agora, no seu resgate, muda a história do mundo: verdadeiramente o Pentecostes se cumpre como festa do Pacto novo, isto é, da aliança entre Deus e todos os povos da terra. Enquanto o fragor do céu, o vento e as línguas de fogo no cenáculo recordam os antigos sinais do Sinai (cf. At 2,2-3; Ex 19,16-19), a santa lei de Deus é escrita nos corações, gravada pelo Espírito com caracteres de amor na carne de Cristo e no seu corpo, que é a Igreja.

Esta lei é o código da paz: é o duplo mandamento do amor, que o Espírito nos recorda a cada batida do coração. Com o nosso coração podemos, por isso, invocar: “*Veni Sancte Spiritus*”, porque Ele já nos foi doado. Podemos desejá-lo, porque já nos foi prometido. Podemos acolhê-lo, porque Ele mesmo é o doce hóspede da alma.

Um segundo aspecto: **o Espírito do Ressuscitado é o Espírito da missão**: «Assim como o Pai me enviou», diz o Senhor, «também eu vos envio» (Jo 20,21). Somos assim envolvidos na missão de Jesus: a de Aquele que sai de Deus e a Deus retorna com o poder do Espírito, que procede do Pai e do Filho, com eles é adorado e glorificado, único Deus. O Espírito Santo é a viva caridade de Cristo que nos perpassa, nos impulsiona, nos sustenta na missão (cf. 2Cor 5,14). Enquanto dá aos Apóstolos o poder de se expressarem na variedade das línguas (cf. At 2,4), o mesmo Espírito ensina à humanidade a palavra da salvação. Agora que os Apóstolos receberam o Sopro do Ressuscitado dentro de si, este anúncio vem de sua boca, tem a voz de Pedro e de quantos estão com ele. Precisamente no dia de Pentecostes os Apóstolos começam a anunciar Jesus, crucificado e ressuscitado: as «maravilhas de Deus» (At 2,11) resumem-se todas na redenção, que começa com a fé. De fato, a primeira obra do Espírito Santo em nós é a fé com a qual professamos: «Jesus é o Senhor!» (1Cor 12,3). Esta fé vive e se expressa em cada boa ação, em cada ato de misericórdia e de virtude. A obra de Deus, portanto, somos nós, que viemos aqui hoje de todas as partes do mundo, convidados à mesa do Senhor, reunidos na escuta da sua palavra e enviados a testemunhá-la em toda parte.

Caríssimos, verdadeiramente nós somos participantes do Evangelho: toda a Igreja é protagonista, não apenas guardiã. Com a força do Espírito, o nosso anúncio torna-se repleto de alegria e de esperança, porque nós, precisamente nós somos a novidade do mundo, a luz e o sal da terra (cf. Mt 5,13-14). Certamente não por nosso mérito, nem por privilégio, mas pela palavra do Senhor, que santifica o pecador, cura o leproso, faz de quem o negou um apóstolo. Por um lado – vemo-lo bem –, há mudanças que não renovam o mundo, mas o envelhecem entre erros e violências. Por outro lado, porém, o Espírito Santo ilumina as mentes e desperta nos corações novas energias de vida. É assim que transfigura a história abrindo-a à salvação, isto é, ao dom que o único Senhor compartilha com todos. A missão da Igreja atesta tal compartilhamento, transformando a confusão do mundo em comunhão com Deus e entre nós.

Esta missão começa dizendo a verdade de Deus e do homem, porque **o Espírito do Ressuscitado é o «Espírito da verdade»** (Jo 14,17). O Senhor mesmo nos prometeu, pedindo unidade para a sua Igreja, uma unidade fundada no amor de Deus, fonte do nosso amor. O Espírito, que falou por meio dos profetas, promove sempre a unidade na verdade, porque suscita em nós compreensão, concórdia e coerência de vida. Como ensina Santo Agostinho, «o Espírito Santo quis que este fosse o sinal da sua presença» (Discurso 269,1): o dom de línguas que se entendem na única fé. O Paráclito defende-nos, então, de tudo o que obstaculiza este entendimento: das facções, das hipocrisias, das modas que obscurecem a luz do Evangelho. A verdade que Deus nos doa permanece, assim, palavra libertadora para todos os povos, mensagem que transforma a partir de dentro cada cultura.

O Espírito do Ressuscitado, de fato, não é efundido uma única vez, mas constantemente. Como a Eucaristia é a presença viva de Cristo, que sempre nos nutre, assim o Espírito Santo imprime em nós o seu caráter no Batismo, que nos faz cristãos; no Crisma, que nos torna testemunhas; na Ordem, que constitui ministros e pastores para o povo de Deus. Em cada Sacramento, Ele é *dator munerum* (doador dos dons), fonte de santidade que multiplica dons e carismas na oração, nas obras de misericórdia, no estudo da palavra de Deus. Como ensina o Apóstolo: «A cada um é dada uma manifestação particular do Espírito para o bem comum» (1Cor 12,7). Precisamente por isso somos Igreja, único corpo que vive de Deus e serve ao mundo. Graças ao Espírito podemos levar a todos a paz verdadeira, a verdade que salva, isto é, o próprio Cristo Senhor.

Caríssimos, com o coração ardente, rezemos hoje para que o Espírito do Ressuscitado nos salve do mal da guerra, que é vencida não por uma superpotência, mas pela Onipotência do amor. Rezemos para que liberte a humanidade da miséria, que é resgatada não por uma riqueza incalculável, mas por um dom inesgotável. Rezemos a Ele para que nos cure da chaga do pecado, pela redenção anunciada a todos os povos em nome de Jesus. É esta a graça que infunde coragem aos Apóstolos: que a infunda também em nós, hoje e sempre, por intercessão de Maria, Mãe da Igreja”.

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