
por Vívian Marler / Assessoria Comunicação CNBB Norte 2
O coração da Igreja no Brasil pulsa mais forte nesta semana na capital federal. De 20 a 24 de julho, coordenadores de pastoral de todo o país estão reunidos para o ‘Encontro de Coordenadores de Pastoral 2026’ realizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O evento é um marco para a recepção do Sínodo da Sinodalidade e para a implementação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE).
Representando o vigor da Amazônia, a delegação do Regional Norte 2 (Pará e Amapá) participa ativamente dos debates, levando a realidade das periferias geográficas e existenciais para o centro da reflexão eclesial. Estão presentes Irmã Maria Rejiane – Articuladora Regional, Lady Anne de Souza e o padre Matheus Felipe – da Diocese de Marabá, padre Sandro Giovani – da Diocese de Cametá, padre Raphael Filho – da Arquidiocese de Santarém, padre Adalberto – da Diocese de Óbidos, Monsenhor Agostinho- da Arquidiocese de Belém, padre Lenilson Ferreira da Diocese de Bragança e padre Jeová de Jesus da Diocese de Xingu-Altamira.
Ao fazer memória dos primeiros dias do encontro, Irmã Maria Rejiane, comenta que o primeiro dia foi marcado pela imagem bíblica da “Tenda do Encontro”. Segundo a Irmã as reflexões de Dom Leomar Antônio Brustolin, Arcebispo de Santa Maria (RS) e presidente da Comissão Episcopal para a Animação Bíblico-catequetica da CNBB, e Dom Ricardo Hoepers, bispo Auxiliar de Brasilia, e Secretário-Geral da CNBB, deixaram claro que a Igreja deve ser um “hospital de campanha”, onde a hospitalidade é a regra. “O ponto alto da caminhada é justamente essa compreensão de que o poder é serviço”, pontuou a Irmã.
A articuladora destaca um ponto crucial sobre a natureza do poder na Igreja, “o ponto alto da caminhada é justamente essa compreensão de que o poder é serviço”, pontua a Irmã. Para ela, a Igreja precisa abandonar a postura estática. “Não podemos ser uma Igreja de balcões, que espera as pessoas virem buscar informações. Precisamos ser uma Igreja que vai ao encontro, principalmente daqueles que estão afastados”, afirma Irmã Rejiane, ecoando o pensamento de Dom Leomar.
Um dos momentos mais tocantes do primeiro dia foi a denúncia social. Ao citar o exemplo de famílias que, em situações de extrema pobreza, chegam a fazer “sopa de papelão”, a Irmã reforçou que o anúncio do Evangelho é indissociável da justiça social. “A missão deve fazer brilhar os sinais do Reino… se celebrar a fé é cuidar da vida, não podemos dormir bem sabendo que o humano sofre”.
Essa visão é compartilhada por Lady Anne de Souza, da Diocese de Marabá, que vê nas novas diretrizes um sopro de renovação para as bases. “Estamos vivenciando a recepção das diretrizes com muita esperança. O documento está bem acessível e plural, permitindo um diálogo real com as nossas realidades locais”, afirmou Lady Anne. Para ela, a DGAE inspira ações concretas de evangelização, destacando que “a escuta é o caminho fundamental para a conversão de todos os nossos processos pastorais”.
O Padre Jeová de Jesus Morais, representante da Diocese de Xingu Altamira, destacou os pilares que nortearão a Igreja no Brasil entre 2026 e 2032. O foco central está na recepção das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora, que buscam uma conexão profunda com o caminho sinodal proposto pelo Papa Francisco.
Para o Padre Jeová, o momento atual exige um triplo processo de conversão, pessoal, pastoral e espiritual. Segundo ele, as novas diretrizes não são apenas normas, mas um convite para que a Igreja redescubra sua “nova maneira de ser”, pautada pela escuta atenta e pela valorização real dos conselhos diocesanos e paroquiais.
Citando as reflexões de Dom Joel Portella Amado, bispo de Petrópolis, padre Jeová reforçou que a missão evangelizadora é um esforço coletivo. “Ninguém trabalha sozinho. O trabalho é feito sempre com um (o Papa), com alguns (os bispos) e com todos (os batizados), exercendo nosso papel de missionários nos desafios do mundo atual”, pontuou.
No segundo dia, o foco voltou-se para a conversão das relações e o legado do Sínodo. O Padre Matheus Felipe, também da Diocese de Marabá, destacou a profundidade do momento que a Igreja atravessa. “O Sínodo convocado pelo Papa Francisco constitui um caminho longo e progressivo, que exige esforço e perseverança”, explicou o sacerdote.
Padre Matheus ressaltou que o processo atual é uma atualização fiel do Concílio Vaticano II. “O Sínodo nos convida a ler os sinais dos tempos. Trata-se de discernir, com clareza, a forma como Deus continua a agir na história e no tempo presente”, concluiu, reforçando que a missão da Igreja é estar atenta onde a vida está mais vulnerável.
Já a Irmã Rejiane observou que a reforma da Igreja começa na base das relações, entre gerações, entre pastorais e entre a Igreja e a sociedade. onde todos pescam juntos, serviu de base para discutir a sinodalidade como forma de viver o Evangelho. “A escuta é o primeiro ato missionário”, destaca a Irmã em seu depoimento. Ela ressalta que a prioridade das novas diretrizes não é apenas aumentar números, mas gerar vínculos. “Jesus é aquele que escuta e restaura vidas. Ele não reduz as pessoas à sua condição moral, Ele acolhe a todos. Precisamos ultrapassar a falta de caridade e não ver as pessoas como invisíveis dentro da nossa própria Igreja”, reflete.
O debate também tocou em feridas abertas, como o clericalismo e a necessidade de maior espaço para o protagonismo feminino e dos leigos. Para o Norte 2, o recado é claro, é preciso respeitar as linguagens e realidades amazônicas, sob o risco de a Igreja ficar “muda” se não ouvir o chão onde pisa.
“A escuta é o primeiro ato missionário”, destaca a Irmã em seu depoimento. Ela ressalta que a prioridade das novas diretrizes não é apenas aumentar números, mas gerar vínculos. “Jesus é aquele que escuta e restaura vidas. Ele não reduz as pessoas à sua condição moral, Ele acolhe a todos. Precisamos ultrapassar a falta de caridade e não ver as pessoas como invisíveis dentro da nossa própria Igreja”, reflete.
O coordenador da Diocese de Xingu Altamira, padre Jeová destacou, ainda, que a sinodalidade corrige distorções de poder dentro da instituição. “Como bem disse Dom Joel, a Igreja não é uma democracia e também não é uma monarquia. A Igreja é sinodal, onde todos caminham juntos como irmãos. O objetivo é a evangelização e a centralidade na pessoa de Jesus Cristo”, afirmou o sacerdote.
Um dos pontos mais enfáticos do depoimento de padre Jeová foi o apelo para que as dioceses e paróquias realizem seus próprios processos de escuta. O objetivo é entender a realidade local e “escutar o grito que vem do povo”, as ansiedades que brotam das comunidades de base.
Para o padre, respeitar a diversidade de dons é o caminho para formar a verdadeira unidade, tendo o Espírito Santo como centro. “Este é o convite para toda a Igreja: tornar-se uma Igreja sinodal que responde aos desafios atuais com presença e escuta”.
Nesta quarta-feira (22), o encontro entra em sua fase mais prática e propositiva. A programação prevê o aprofundamento nos eixos de “Testemunho e Serviço”, com foco em como a Igreja pode ser presença efetiva nas periferias urbanas e digitais.
Os participantes do Regional Norte 2 dedicam o dia de hoje ao trabalho em grupos e painéis que discutem o “Porto Novo” da liturgia e da piedade popular, além da urgência de novas metodologias que respondam aos desafios da saúde mental e do isolamento em um mundo hiperconectado.
O debate subiu de tom com a reflexão de Dom Joel Portela sobre a conversão dos processos. O Monsenhor Agostinho Cruz, Vigário Geral e Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Belém, detalhou como as novas diretrizes concretizam as conclusões do Sínodo.
Para o Monsenhor, a Igreja precisa entender que já não vive em uma “era de cristandade” e deve responder a um mundo plural e mutante. “A Igreja deve contrapor-se à autorreferencialidade com a sinodalidade. Nossa força deve ser profética, baseada no testemunho que interpela o mundo presente”, explicou Monsenhor Agostinho.
Ele enfatizou que o discernimento eclesial não é uma técnica administrativa, mas uma prática espiritual: “O centro está na escuta. Não podemos ser uma Igreja incapaz de dialogar com o mundo”. O Monsenhor traçou o roteiro dessa conversão: escutar, discernir, decidir, avaliar, testemunhar e evangelizar. Ele reforçou o ensinamento do Papa Francisco de que a pastoral não se faz por decretos, mas por uma sincera conversão e formação do povo de Deus. “O caminho sinodal não é fazer coisas novas, mas fazer novas todas as coisas”, concluiu o Monsenhor, ressaltando o intercâmbio de dons até com membros da sociedade civil.
Apesar dos desafios como o enfraquecimento do sentido comunitário e a mercantilização da fé, o clima entre os representantes do Pará e Amapá é de esperança. Para a Irmã Rejiane e os padres coordenadores, o encontro é um combustível para “avançar para águas mais profundas”.
“Precisamos mudar muitas coisas em nossos planos de pastoral: a linguagem, as metodologias e os esquemas que não respondem mais. O lugar só se torna nosso quando amamos quem está ali”, concluiu Irmã Rejiane, reafirmando o compromisso de voltar para o Norte 2 com um ardor missionário renovado e uma Igreja mais próxima do povo.
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