
por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Norte 2
No encerramento do Encontro Nacional de Coordenadores de Pastoral, a urgência da “conversão dos vínculos” e o discernimento ético da Inteligência Artificial desenham o rosto de uma Igreja que escolhe ser ponte em um mundo de ruídos.
Coordenadores de Pastorais, representantes dos 19 regionais da Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), estiveram reunidos nesta ultima semana, na Casa Dom Luciano, em Brasilia, para um exercício de “escuta do Espírito” que culminou, nesta sexta-feira (24/7), em uma convicção compartilhada, a Igreja precisa ser, mais do que nunca, uma ‘Tenda Alargada’.
O Regional Norte 2, com sua mística amazônica, levou para o debate a realidade de uma Igreja que já nasce entre rios e desafios, onde o vínculo não é opção, é sobrevivência.
Para o Padre Sandro Giovani, da Diocese de Cametá (PA), o encontro foi um marco no processo de recepção das novas Diretrizes, uma caminhada de implementação do Sínodo em solo brasileiro que se projeta até 2032. “A sinodalidade não é mais uma pastoral ou um método, mas o jeito da própria Igreja viver o Evangelho através da escuta e do discernimento”, afirma o sacerdote, destacando que essa é a resposta cristã aos desafios do pluralismo e do relativismo contemporâneos.
A Irmã Maria Rejiane, articuladora do Norte 2, sintetizou com maestria a reflexão conduzida por Dom Joel Portela e padre Abimael Oliveira. A imagem bíblica da tenda deixou de ser uma metáfora para se tornar um plano de ação. “Não podemos ser como a tartaruga, que se fecha no casco diante do medo”, alertou a Irmã Rejiane, ecoando as palavras de Dom Joel Portella, bispo da Diocese de Petrópolis. Para ela, a conversão dos vínculos exige uma transição corajosa, de ser feudo para ser cidade; de ser muro para ser ponte.
A reflexão técnica transformou-se em poesia eclesial ao analisar a estrutura da tenda, as estacas representam as virtudes teologais (fé, esperança e caridade), mas são as cordas, os vínculos, que garantem a estabilidade e a expansão. “O objetivo não é ser estaca ou lona, mas ser tenda. As cordas precisam ser esticadas para garantir que a missão chegue mais longe”, explicou a articuladora, destacando que a “porosidade” da Igreja é a sua garantia de fidelidade ao Evangelho.
O padre Jeová Jesus Morais, da Diocese de Xingu Altamira, trouxe a voz da “Igreja de base”. Para ele, a conversão é dupla. No plano interno, trata-se de curar as relações entre clero e leigos, superando o autoritarismo e promovendo a transparência. No plano externo, é a “saída da própria bolha”. “Sair de si, como a Igreja que abandona sua autorreferencialidade e vai ao encontro do outro sem medo de perder sua identidade, tendo Cristo como ponto de partida”, afirmou o padre Jeová. Esse diálogo não é opcional, mas uma convivência necessária pela paz e pelo bem comum, abraçando outras confissões cristãs e a sociedade civil.
Um dos momentos mais impactantes da semana foi a conferência do padre Danilo Pinto dos Santos sobre a Inteligência Artificial, à luz do documento ‘Magnífica Humanitas’. Em um mundo “onlife”, onde o offline e o online se fundem, a Igreja é chamada a um novo letramento.
O alerta do padre Danilo foi contundente, a engenharia do caos dos algoritmos pode gerar racismo, preconceito e bolhas de ódio. “Que tipo de pessoa nossa prática pastoral, influenciada pela IA, está formando?”, questionou. A indicação pastoral é clara, a tecnologia deve ser transversal, mas nunca substituir a mediação humana.
A proposta de um “jejum das telas e das mídias sociais” surgiu não como uma proibição, mas como um caminho de saúde mental e equilíbrio espiritual, permitindo que o “artesanato da paz” supere o ruído digital. “A IA não substitui a escuta da consciência, o acompanhamento espiritual ou a presença do ministro no sacramento”, reforçou o especialista.
Monsenhor Agostinho Filho de Sousa Cruz, da Arquidiocese de Belém, e Padre Jean Paul Hassen, da CNBB, fecharam o arco da reflexão focando na operacionalização desse novo rosto eclesial. Planejar, na Igreja do Brasil, é um ato de esperança. “Avaliar para avançar”, resumiu o Monsenhor Agostinho. O padre Jean Paul foi além, provocando os coordenadores: “O plano pastoral não pode ser um olhar somente para dentro, mas principalmente para fora, para as ovelhas que não estão no redil. A Igreja é fermento na sociedade”. Para ele, a prioridade da missão são os caminhos, não as estruturas pesadas e estáticas.
Para o padre Lenilson Ferreira, coordenador de Pastoral da Diocese de Bragança, o encontro foi uma oportunidade de colher os frutos de uma semana de “conversas no Espírito”, método que agora se torna a bússola para todas as regiões da CNBB. Ele destaca que o papel do coordenador de pastoral é fundamental para que a harmonia da Igreja aconteça na prática. “Nós somos os regentes desta grande orquestra, trabalhando ao lado dos nossos bispos para implementar e viver a sinodalidade”, compara o sacerdote. Segundo ele, as novas Diretrizes não são apenas documentos técnicos, mas sim luzes que devem guiar toda a ação evangelizadora, respeitando a realidade de cada diocese. “A nossa missão agora é ampliar essa compreensão para que ela chegue aos corações dos nossos comunitários, pastorais e movimentos, transformando as diretrizes em missão vivida”.
O encerramento do encontro também lançou o olhar para o futuro. Dom Joel Portela apresentou o cronograma de implementação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE). Até junho de 2027, todas as dioceses realizarão suas assembleias.
Contudo, a novidade é o formato, a Igreja espera receber relatórios narrativos, em forma de cartas, onde cada comunidade partilhará como está vivendo a sinodalidade de forma concreta. É o rosto da Igreja brasileira sendo apresentado ao Santo Padre Leão XIV, não como números em um gráfico, mas como vida pulsante em rede.
Para o padre Raphael Filho – Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Santarém, a dinâmica das “conversações no Espírito”, realizadas em 19 grupos de trabalho, provou que a sinodalidade é uma realidade concreta e possível. “É urgente e necessário favorecermos caminhos de conversão das relações, dos processos e dos vínculos”, destaca o sacerdote, ecoando o apelo do documento final do Sínodo. Segundo ele, a missão agora é levar esse aprendizado para o dia a dia das comunidades. “Cabe a nós, ao voltarmos para nossas realidades diocesanas, contribuir com a concretização desse apelo por meio de ações sinodais o quanto antes. Temos um caminho longo, mas muito bonito e rico a ser percorrido sob a luz das novas Diretrizes”, disse.
Ao final de cinco dias de debates intensos, a mensagem que ecoa de Brasília para as paróquias de todo o país é de que a sinodalidade é, antes de tudo, espiritual. Como bem lembrou a Irmã Maria Rejiane em sua síntese final, “a encarnação não pode acontecer de outra forma que não seja relacional”.
A Igreja no Brasil desmonta suas torres de Babel e começa a reconstruir uma Jerusalém onde todos, sem distinção, podem encontrar abrigo sob a mesma tenda. Uma tenda que é móvel, pobre, aberta e, sobretudo, profundamente humana.
Representaram o Regional Norte 2: Irmã Maria Rejiane da Mata – Articuladora Regional de Pastoral, Lady Anne de Souza – Equipe de Coordenação Pastoral da Diocese de Marabá, padre Matheus Felipe – Equipe de Coordenação Pastoral da Diocese de Marabá, padre Sandro Giovani – Coordenador de Pastoral da Diocese de Cametá, padre Raphael Filho – Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Santarém, padre Adalberto – Coordenador de Pastoral da Diocese de Óbidos, Monsenhor Agostinho – Coordenador de Pastoral da Arquidiocese de Belém, padre Lenilson Ferreira – Coordenador de Pastoral da Diocese de Bragança e padre Jeová de Jesus – Coordenador de Pastoral da Diocese de Xingu Altamira.
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