
por Vívian Marler / Assessora Comunicação CNBB N2
foto Pascom Belém
O segundo dia do ‘Conselho de Pastoral Regional Norte 2’ foi dedicado ao aprofundamento dos capítulos quarto, quinto e sexto das novas ‘Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil’, que orientarão a caminhada pastoral até 2032. Reunidos na sede do Regional, em Belém, bispos, padres, diáconos, religiosos, religiosas e representantes leigos refletiram sobre os sujeitos da missão, os caminhos da evangelização e os compromissos necessários para uma Igreja cada vez mais sinodal.
A programação começou com a retomada do capítulo quarto das Diretrizes, que apresenta o ‘Povo de Deus em missão’. A reflexão destacou a necessidade de reconhecer, nas Igrejas locais, o protagonismo dos diferentes sujeitos da evangelização e de abrir espaços concretos para a participação de mulheres e jovens nas instâncias de decisão. Ao longo da manhã, representantes das dioceses partilharam experiências já realizadas em suas comunidades, mostrando mulheres e jovens assumindo responsabilidades de liderança e participação nos processos pastorais. As experiências revelaram que a sinodalidade não é apenas uma proposta teórica, mas uma prática que precisa ser vivida nos conselhos, nas assembleias e nos diferentes organismos da Igreja.
A reflexão provocou perguntas importantes, como qual é o espaço efetivo oferecido às mulheres e aos jovens nas decisões pastorais? O que ainda impede que eles ocupem lugares reais de liderança? Como despertar e fortalecer o protagonismo batismal de todos os leigos e leigas?
Na sequência, os participantes aprofundaram o capítulo quinto das Diretrizes, intitulado “Caminhos da Missão”. Os cinco caminhos foram apresentados como modos concretos de armar a tenda da Igreja no tempo presente, para que nela todas as pessoas encontrem lugar, sentido e envio. São eles ‘A animação bíblica da pastoral’; ‘As comunidades eclesiais missionárias’; ‘A liturgia e a piedade popular’; ‘O serviço à vida plena para todos’; ‘A missão como expressão do compromisso evangelizador’.
O capítulo foi apresentado como o horizonte operacional das Diretrizes, pois conecta a reflexão teológica e pastoral com a vida concreta das comunidades. A proposta é que os planos pastorais deixem de ser documentos distantes da realidade e se tornem instrumentos dinâmicos, participativos e avaliáveis. A metodologia do planejamento pastoral precisa partir da escuta e do discernimento comunitário, valorizando a conversação no Espírito. O plano de pastoral não deve ser elaborado por uma comissão fechada, mas construído com a participação das comunidades, das pastorais, dos movimentos e dos diferentes sujeitos da missão.
Um dos pontos de maior destaque foi a necessidade de rever estruturas obsoletas e superar o centralismo nas paróquias e nos organismos eclesiais. As paróquias foram chamadas a se organizarem como redes de comunidades, evitando que a vida pastoral fique concentrada apenas na matriz ou restrita às decisões de uma única pessoa. Nesse caminho, também foi ressaltada a importância de renovar os conselhos de pastoral e os Conselhos para Assuntos Econômicos, garantindo a participação efetiva dos leigos, especialmente das mulheres e dos jovens.
Entre as perguntas propostas para os grupos de reflexão estavam, como a paróquia pode deixar de ser centrada apenas na matriz? Como organizar uma verdadeira rede de comunidades? O que impede que mulheres e jovens ocupem espaços concretos de liderança e decisão? As questões apontam para uma mudança de mentalidade e para uma nova forma de compreender a autoridade na Igreja, não como concentração de poder, mas como serviço à comunhão e à missão.
Outro eixo abordado foi a necessidade de superar o isolamento entre pastorais, movimentos e serviços. A reflexão criticou o modelo de “pastorais de gaveta”, que atuam de maneira independente, sem diálogo ou planejamento conjunto. A proposta é organizar a ação pastoral a partir de eixos estratégicos e transversais, conectados aos cinco caminhos da missão. Dessa forma, as iniciativas deixam de funcionar como setores isolados e passam a colaborar umas com as outras em favor de objetivos comuns. O cuidado com os agentes também recebeu atenção. O esgotamento pastoral, o cansaço e o adoecimento psíquico exigem respostas concretas por parte das dioceses e comunidades.
Foi destacada a importância de uma formação permanente e integrada, reunindo clero e leigos, além da criação de redes de apoio e cuidado para presbíteros, diáconos, religiosos, religiosas e lideranças pastorais. A missão não pode ser sustentada por pessoas exaustas e isoladas. Cuidar de quem serve também é uma responsabilidade pastoral.
A cultura digital e as periferias existenciais, sociais e digitais também foram incluídas entre os desafios da missão. A Igreja é chamada a estar presente nesses espaços não apenas para divulgar atividades, mas para promover encontro, diálogo e evangelização. A comunicação deve superar o mero marketing religioso e contribuir para criar vínculos, divulgar boas práticas e aproximar a Igreja das pessoas. As novas Diretrizes também incentivam projetos concretos de ecologia integral, caridade social e defesa da vida nos territórios. A presença digital precisa estar conectada à presença real junto às comunidades, aos pobres, aos jovens e às pessoas que vivem diferentes formas de exclusão.
No capítulo sexto, os participantes refletiram sobre os ‘Compromissos Sinodais’ e sobre as três conversões necessárias para a renovação da Igreja: a conversão das relações, dos processos e dos vínculos. A conversão das relações exige superar o clericalismo, o autoritarismo e o isolamento. Em seu lugar, devem crescer a escuta, a fraternidade, a transparência e a corresponsabilidade. A conversão dos processos requer uma revisão dos métodos, planejamentos e rotinas administrativas e pastorais. A Igreja é chamada a superar práticas burocráticas e repetitivas e a construir processos participativos, integrados, dinâmicos e voltados para a missão.
Já a conversão dos vínculos busca fortalecer o sentimento de pertença e a comunhão entre as diferentes pastorais, movimentos, comunidades e territórios. A proposta é que a Igreja atue de forma conectada, em rede, evitando ações fragmentadas e competições internas. Também foram lembrados compromissos relacionados à proteção de crianças, adolescentes e adultos vulneráveis, à comunicação, à transparência, ao Sínodo Diocesano, às assembleias pastorais, aos conselhos, ao dízimo e aos projetos missionários.
Durante a tarde, os participantes retomaram as reflexões dos dias anteriores e foram organizados em quatro grupos, ‘Conversão, Comunhão, Participação e Missão’. A atividade teve como objetivo pensar o que as 14 Igrejas particulares do Pará e do Amapá podem assumir em comum como primeiros passos de recepção das novas Diretrizes. Os grupos refletiram sobre três grandes dimensões ‘O que precisa ser transformado nas relações dentro do Regional’; ‘Quais processos pastorais precisam ser renovados’; ‘Que ações podem fortalecer os vínculos, a comunhão e a pertença eclesial’. A proposta também levou em consideração a solicitação da Secretaria Geral do Sínodo para que as Igrejas locais realizem uma assembleia de avaliação no primeiro semestre de 2027.
A partir das partilhas, cada grupo elaborou uma síntese, posteriormente encaminhada à coordenação e à relatoria do encontro. O material será estudado para identificar os pontos comuns e apresentar, no encerramento do Conselho, pistas de ação para todo o Regional Norte 2. A escolha do método da ‘conversação no Espírito’ permitiu que bispos, padres, diáconos, religiosos, religiosas e leigos participassem juntos do processo. A escuta e o discernimento foram colocados como fundamentos para a elaboração de propostas pastorais comuns.
O segundo dia foi concluído com a Santa Missa na Paróquia Santa Cruz, seguida de um jantar de confraternização. A celebração e a convivência recordaram que o planejamento pastoral não pode ser separado da espiritualidade e da fraternidade. Antes de elaborar propostas, a Igreja é chamada a permanecer reunida em oração, escuta e comunhão.
O Conselho de Pastoral Regional Norte 2 chega, assim, à sua etapa final com o desafio de transformar as reflexões em compromissos concretos. O conteúdo das novas Diretrizes precisa alcançar as paróquias, as comunidades ribeirinhas, as periferias urbanas, as frentes missionárias e todos os lugares onde a Igreja está presente. A imagem da Tenda do Encontro continua iluminando esse caminho. Uma tenda aberta, capaz de acolher a diversidade, proteger os mais frágeis e oferecer espaço para que todos participem da missão.
No Pará e no Amapá, essa tenda precisa ser armada com os fios da escuta, da participação, da transparência, do cuidado e da corresponsabilidade. Só assim a Igreja poderá responder aos desafios do tempo presente sem perder a centralidade de Cristo e a paixão pelo Evangelho. O encontro será concluído nesta quinta-feira, com a apresentação das sínteses dos grupos e a definição de possíveis pistas comuns para as 14 Igrejas particulares do Regional Norte 2. Mais do que um encerramento, será o início de um novo percurso, o de receber as Diretrizes, colocá-las em prática e caminhar juntos rumo a uma Igreja mais sinodal, missionária e próxima do povo.
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