Introdução

Continuemos a nossa reflexão sobre o Pacto Educativo Global proposto pelo Papa Francisco. Esse desafio nos estimula a aprofundar a dimensão social da educação que brota da consciência da missão de promoção do Reino de Deus.

A educação católica tem um potencial transformador que vai além do indivíduo, atinge a família, envolve a comunidade educativa e contribui para a mudança positiva da sociedade. Também através da educação a Igreja testemunha o  seu compromisso de ser “sal da terra e luz do mundo”.

 

  1. A educação como Bem comum

Pensamos na necessidade de um Pacto Educativo Global (PEG) porque a educação é um bem comum. No PEG a educação é concebida como um bem universal que transcende as competências isoladas de um povo, de governos, da família, da sociedade, das instituições… Todos são corresponsáveis por ela. Portanto, é possível pensar num pacto mundial porque o desenvolvimento humano deve ser para todos os povos.

Nessa perspectiva, a educação é um “bem comum”; é um “direito humano universal”; isso já está contemplado na Declaração universal dos direitos humanos, no artigo XXVI (1948):

“Todo homem tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, está baseada no mérito. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos do homem e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos”.

A educação baseada no princípio da dignidade da pessoa humana é sempre de caráter universal, por isso suas exigências próprias devem valer para todos; então é preciso assegurar condições dignas para que a educação aconteça: profissionais bem formados, ambientes confortáveis, estruturas físicas necessárias, projetos pedagógicos estratégicos, grade curricular que responda às exigências da dignidade humana, meios técnicos adequados, plano de formação dos educadores…

  1. A educação a serviço da sociedade

A educação está a serviço da sociedade. Não se pode pensar na educação sem a sua finalidade social. A educação nos leva a crescer na tomada de consciência da nossa identidade humana. Só existimos na relação com os outros e essa experiência nos leva a tomarmos consciência dos nossos recursos, limitações pessoais e a compartilhar com os semelhantes nossos sentimentos, experiências de vida, ideias e sonhos.

Pelo fato de sermos naturalmente sociais, a educação é um recurso a serviço do próprio ser humano para que possa saber viver, saber conviver, saber crer, saber fazer, saber interagir, saber gerir seus sentimentos, saber dialogar, saber discernir, saber tomar decisões, saber administrar seus interesses em harmonia com o dos outros e os parâmetros da sociedade, pois nem tudo é possível.

A educação está a serviço da sociedade porque conduz as pessoas à assimilação de valores, à experiência de virtudes; sem isso é impossível a harmonia social; como seria uma sociedade sem indivíduos virtuosos? Sem a confiança, honestidade, respeito, justiça, fidelidade, amizade, honradez, autenticidade, bondade, prudência, diligência, disciplina, cooperação, paciência, obediência?! Não é possível pensarmos numa sociedade sem virtudes. Portanto, isso significa que a educação tem uma dimensão moral e ética.

 

  1. Educação profissional

A educação nos possibilita a qualificação profissional; não existe profissional que não tenha passado por um processo de educação, de formação, treinamento… A nossa vida profissional tem uma dimensão social, depende da sociedade; a formação profissional é resposta às demandas ou necessidades da sociedade… Enfim, todas as dimensões da pessoa devem ser formadas.

Uma dimensão sem formação, ou mal-educada, pode levar a pessoa a promover crimes; por isso há crimes na esfera afetiva, na dimensão sexual, profissional, religiosa, na comunicação etc. Todo crime está sempre diretamente relacionado à uma dimensão humana e com forte repercussão social.

Quando a educação prescinde do dinamismo da sociedade, ela engana a pessoa; não a capacita para a vida, aliena, engessa, bitola, aprisiona; por isso, se fala nas famílias de formar para vida; formar homens e formar mulheres!

A sociedade molda a educação, a condiciona e a educação, por sua vez, contribuição para a transformação da sociedade através das ideias, de valores, parâmetros, exigências, critérios, modelos apresentados. Há uma íntima relação entre sociedade e educação. Por tudo isso a educação deve estar a serviço da sociedade!

 

  1. A educação católica e a sociedade

Há uma íntima união entre a Igreja e toda a família humana. Isso foi afirmado no Concílio Ecumênico Vaticano II, na Constituição Gaudium Et Spes, afirmando: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao género humano e à sua história” (GS,1).

Dessas consistentes afirmações podemos extrair diversas importantes conclusões:

  • A educação está profundamente encarnada na história; não há autêntica educação sem historicidade e quando isso acontece torna-se alienada e alienante;
  • Significa que a Igreja, os discípulos de Jesus Cristo, não formam uma sociedade à parte, mas fazem parte da mesma história na qual vivemos juntos, com outros que não fazem parte da Igreja, mas formamos a mesma família humana;
  • Tudo o que a Igreja faz, tem um impacto social: a liturgia tem consequências comunitárias, a doutrina tem uma dimensão social, a educação católica é portadora de uma força transformadora da sociedade;
  • A educação católica reconhecendo que há uma só família humana deve estimular nos educandos a consciência da irmandade universal, da fraternidade e o dever da promoção da experiência da solidariedade e da empatia em todas as circunstâncias;
  • A educação católica na escola ou na universidade, ou em qualquer outra instituição, não deve se fechar numa redoma, mas estimular internamente a consciência da ação conjunta e da responsabilidade social;
  • A consciência da responsabilidade da educação gera a criatividade na promoção de novas práticas pedagógicas estimulando, assim, um mutirão para a transformação interna e da sociedade em vista da transformação do mundo.

 

PARA A REFLEXÃO PESSOAL:

  1. O que significa dizer que a educação é um bem comum?
  2. Como é o diferencial da educação católica para a transformação da sociedade?
  3. Por que há uma íntima relação entre a educação católica e a sociedade?