Introdução

A celebração do tríduo pascal constitui uma experiência de memória e profecia, onde passado e futuro se encontram no presente e ressignificam a vida do sujeito de fé. Por isso é tão importante o ato celebrativo.

A participação em cada uma das celebrações do Tríduo Pascal só será significativa para nós, se a memória do passado, se atualizar no presente nos consolidando na experiência do amor e da fé que qualifica a vida e nos anima na esperança.

Fazer memória dos principais mistérios da nossa fé não é um frio retrocesso histórico e visita ao passado como quem olha uma fotografia ou um documento num arquivo. Na celebração dos mistérios da nossa fé cristã vivenciamos uma realidade espiritual contínua, que permanece viva, atual e, ao mesmo tempo, é nova (contextualizada) e profética (voltada para o futuro).

 

  1. A centralidade de Jesus Cristo

A personagem principal da celebração da Semana Santa é Jesus Cristo! Portanto, ela não existe sem Ele! Fora da perspectiva cristocêntrica a semana santa é um “feriadão” como, infelizmente, muitos já consideram. Por isso há tantas ofertas de viagens!  

Em Cristo encontramos o ser humano realizado segundo a vontade de Deus Pai; Nele está o sentido para a vida, para crise, o sofrimento, a cruz e o mistério da morte. Nele admiramos a beleza de uma vida movida pela compaixão e misericórdia. Nele contemplamos a vitória sobre as tentações, sobre o pecado, sobre a morte, sobre Satanás. Em Cristo a Igreja encontra a humanidade plenamente realizada e renova a sua vocação, missão, o sentido da sua existência. Celebrar o Tríduo Pascal, portanto, não é simplesmente ação litúrgica; é também renovação da consciência vocacional de sermos filhos de Deus em Cristo, chamados à fraternidade.

Com a celebração do Tríduo Pascal, a comunidade cristã animada pela fé, fazendo memória das suas origens (Cristo e a comunidade primitiva), retoma e reaviva a percepção da sua verdadeira dignidade de comunidade da comunhão fraterna e assim, se avalia, se confronta, amadurece, se renova espiritualmente e se torna mais consciente da sua dignidade fazendo-se aberta aos mais necessitados, pobres e sofredores. Isso significa relançamento da sua paixão missionária.

Não há autêntica celebração do Tríduo Pascal sem essa perspectiva missionária. Por quê? Exatamente porque sem a sua paixão pela salvação da humanidade, como fiel missionário do Pai, não aconteceria a sua obediência e morte. Aquele que se entregou à morte, foi quem que cumpriu a risca o projeto missionário do Pai e confirmou dizendo: “eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).   

 

  1. A QUINTA-FEIRA SANTA

À noite, se inicia o Tríduo Pascal com celebração da Ceia do Senhor com seus discípulos. Nas catedrais (sede das dioceses), pela parte da manhã, se celebra a “missa do Crisma” (ou missa dos santos óleos) presidida pelo bispo diocesano. É a comemoração da instituição do Sacerdócio. Nessa missa os sacerdotes renovam suas promessas sacerdotais.

À noite há a celebração da última Ceia de Jesus: não houve o tradicional cordeiro porque ele era o tal; Jesus lavou os pés dos discípulos e instituiu o sacerdócio e a Eucaristia (cf. Jo 13,1-11; Mc 14,22-25; Lc 21,14-20). Essa celebração acontece nas Igrejas e capelas. A Igreja com o rito do “lava-pés” renova o compromisso de ser servidora da humanidade. Jesus, instituindo a Eucaristia concretiza o seu desejo de estar presente entre nós em forma de pão, porque quem ama, alimenta e se faz sempre presente na vida da pessoa amada. Assim Jesus através da Eucaristia perpetua sua presença na Igreja concretizando que disse: “Eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20).

A espiritualidade da Quinta-feira Santa nos convida pensar numa série de virtudes e atitudes tais como: a importância da humildade para servirmos gratuitamente (sacerdócio), a necessidade da generosidade, a exigência da comunhão fraterna e da amizade sincera, a coerência entre o culto e a vida, o amor à Igreja. 

 

  1. A SEXTA-FEIRA SANTA

Nela a Igreja celebra a paixão e morte do Senhor. Paixão quer dizer um profundo Amor que o motivou a encarar a morte com alegria pela nossa Salvação. A Igreja se confronta com o servo sofredor, com o mistério do sofrimento e morte do inocente; é chamada a reconhecer as múltiplas formas de continuação do sofrimento de Cristo em nossos dias. Jesus foi vítima do fanatismo legal, da arrogância religiosa, da negligência política, da ignorância moral…  

À tarde há a adoração do Cristo na Cruz: adora-se o Crucificado e considera-se a cruz como instrumento de passagem para a glória. A Cruz é símbolo daquilo que deve ser enfrentado com sabedoria, firmeza e ser superado para podermos chegar à glória.

A espiritualidade da Sexta-feira da Paixão nos convida a aprofundar o sentido do sofrimento, do perdão (das ofensas, calúnias, injustiças, desprezo…) porque Jesus Cristo inocente morreu perdoando; somos chamados a aprofundar o mistério da iniquidade que pode agir no coração humano e levar o homem a perder por completo a sua ternura e senso de respeito pela dignidade do outro. 

 

  1. O SÁBADO SANTO

Nesse dia a Igreja contempla o corpo de Jesus, sepultado, que repousa no túmulo (cf. Mt 27,57-66; Mc 15,42-47). É um dia de silêncio para a meditação e oração sobre o mistério da morte. Por outro lado, é um dia de expectativa, por isso durante o dia não há missa.

À noite há a celebração da Vigília Pascal que é a mais importante celebração do Ano Litúrgico. Nela se concentra a reflexão dos principais eventos da história da nossa fé: a criação, Abraão, Êxodo, os Profetas… Através das leituras percebemos, em síntese, a beleza do mistério da história da Salvação: Deus cria, Deus convoca, Deus liberta, Deus inspira, Deus anima, Deus conduz a humanidade a caminho do encontro com o seu Filho. Tudo aponta para o Messias, Jesus Cristo, o Senhor da história.

 

  1. O DOMINGO DA PÁSCOA

A Igreja tendo já na vigília pascal proclamado a ressurreição do Senhor se alegra jubilosamente com Aquele que venceu a morte confirmando definitivamente a sua divindade e ser o Senhor da Vida e da morte. A imagem do sepulcro vazio, escancarado, que era vigiado com toda segurança, nos convoca à meditação sobre a resposta de Deus à toda forma de violência. Jesus Ressuscitou! Difundiu-se, então, um movimento de grande dinamismo (todos correm!), ressurgiu a esperança; os discípulos se encontram, se comunicam, voltam a sonhar com alegria (cf. Jo 20,1-18; Lc 24,1-12).

A nossa fé cristã se fundamenta na Ressurreição de Jesus Cristo. Se Cristo não ressuscitou, então a pregação sobre a Esperança da nossa Ressurreição é vazia e nossa fé é ilusória, diz São Paulo (cf. 1 Cor 15,14-17). Celebrar a Páscoa é renovar o compromisso de viver com alegria, com entusiasmo, promovendo a vida e combatendo tudo aquilo que gera a morte.

Celebrar a páscoa é reavivar a espiritualidade da luz que afugenta as “trevas”. É renovar a paixão pela vida que rejeita os sinais de morte. É sempre nos esforçarmos para viver de cabeça erguida aspirando às coisas do alto (cf. Col 3,1). Feliz Páscoa!

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Qual das celebrações da Semana Santa mais lhe chama a atenção, por quê?
  2. Por que muitos fieis dão demasiada importância à via sacra da sexta-feira ou à procissão do Senhor morto e não participam da Vigília Pascal?
  3. O que podemos fazer para que aquilo que celebramos não se reduza ao ato litúrgico, mas se transforme em compromisso?

POR Dom ANTÔNIO DE ASSIS RIBEIRO, SDB

Bispo Auxiliar de Belém - PA e Secretário Regional da CNBB Norte 2