por Vívian Marler / Assessora Comunicação Regional Norte 2

Após uma manhã intensa dedicada a compreender como a Igreja deve se posicionar diante da revolução da Inteligência Artificial , o ‘Consistório Extraordinário em Roma avançou’, no período da tarde, para temas que tocam o cerne da sobrevivência humana, a paz, o poder e a ética em tempos de guerra. Se pela manhã o foco foi a tecnologia, à tarde o olhar se voltou para o “fator humano” e a urgente necessidade de uma nova cultura global.

O relógio marcava 16h na Sala Paulo VI, no Vaticano, quando o Cardeal Siongco David abriu a segunda sessão do Consistório Extraordinário deste dia 26 de junho. O clima, embora de profunda comunhão, era de gravidade. Antes de qualquer debate teórico, a Igreja mostrou sua face solidária, o Cardeal David iniciou os trabalhos elevando preces pelas vítimas do terremoto que abalou a Venezuela nas últimas horas. Esse gesto inicial deu o tom do que seria o restante da tarde, uma Igreja que não discute apenas ideias, mas que sente as dores do mundo.

O tema central da tarde foi “A cultura da potência e a civilização do amor”, inspirado no capítulo V da nova Encíclica do Papa Leão, a Magnifica humanitas. O grande protagonista desta etapa foi o Cardeal Víctor Manuel Fernández, que apresentou um relatório contundente sobre como a humanidade está sendo moldada por uma “cultura do poder” que, muitas vezes, é alimentada silenciosamente pela própria tecnologia discutida na sessão matutina.

Um dos pontos mais impactantes da tarde foi o chamado à superação da milenar teoria da “Guerra Justa”. O Cardeal Fernández explicou que, infelizmente, essa doutrina tem sido “manipulada” para justificar conflitos injustos. A Igreja agora propõe um entendimento muito mais restrito da legítima defesa.

Segundo o debate, não se pode mais falar em “guerras preventivas”. A destruição total de cidades e o alto índice de mortes de civis e crianças, como o que se vê atualmente em conflitos em Gaza, no sul do Líbano e na Ucrânia, foram citados como exemplos de desproporcionalidade que a fé cristã não pode mais admitir. “A destruição de cidades inteiras é um crime contra Deus e contra a própria humanidade”, ressoou na assembleia, ecoando as diretrizes do Concílio Vaticano II.

Os cardeais, divididos em 11 grupos de trabalho, relataram uma preocupação unânime com a “normalização da guerra”. Eles destacaram que estamos vivendo uma “batalha cultural” onde a mentira, a desqualificação de quem pensa diferente e a ridicularização do adversário preparam o terreno para a violência.

Neste contexto, a Inteligência Artificial e os novos meios de comunicação aparecem como ferramentas que podem tanto potencializar essa cultura do poder quanto ser instrumentos de paz. A Igreja se vê, portanto, diante de um desafio, ser uma “voz de integridade”. Enquanto o mundo se divide em polarizações, a Doutrina Social da Igreja se mantém firme na defesa da vida em todas as suas etapas, do nascituro ao migrante, do pobre ao descartado.

A presença do Papa Leão na plenária reforçou o compromisso do Colégio Cardinalício em apoiar o seu apelo pela paz. O encontro não foi um espaço de “justiça restaurativa” e diálogo. Falou-se abertamente sobre a necessidade de dialogar com outras fés, especialmente com o Islã, e de envolver instituições internacionais para frear a “globalização da indiferença”.

Ao final, por volta das 19h30, a sessão se encerrou com uma oração conduzida pelo Santo Padre. O que se viu em Roma nesta tarde foi uma Igreja que, consciente de seus atrasos históricos em outros tempos, agora se coloca na vanguarda da defesa da dignidade humana, buscando substituir a lógica das armas pela força do Evangelho.

O que é o Consistório

Para que o leitor entenda a importância deste evento, o Consistório é a reunião oficial do Colégio Cardinalício (os cardeais de todo o mundo) convocada pelo Papa. Ele serve para que o Pontífice consulte seus conselheiros sobre questões graves e urgentes da Igreja e do mundo, ou para a criação de novos cardeais.

Este Consistório Extraordinário específico está acontecendo na Sala Paulo VI, no Vaticano (Roma), (26 e 27 de junho de 2026). É um momento consultivo de altíssimo nível, onde se traçam as diretrizes que influenciarão as paróquias e dioceses em todo o globo, incluindo a nossa realidade na Amazônia.

Leia mais sobre as materias anteriores deste Consistório, abaixo:
https://cnbbn2.com.br/iniciou-hoje-o-consistorio-que-ira-tracar-os-rumos-da-evangelizacao-na-era-da-inteligencia-artificial/
https://cnbbn2.com.br/da-cultura-do-poder-a-civilizacao-do-amor-o-poder-profetico-da-segunda-parte-de-reunioes-do-consistorio-extraordinario/
https://cnbbn2.com.br/consistorio-encerra-com-chamado-a-civilizacao-do-amor-e-ao-cuidado-com-o-humano/

https://cnbbn2.com.br/consistorio-traca-em-seu-ultimo-dia-a-rota-mansidao-e-da-esperanca-ate-2008/

 

….
Obrigado por ter lido este artigo. Se quiser se manter atualizado, se inscreva no nosso canal do WhatsApp https://whatsapp.com/channel/0029Var4FMQ6RGJE2FtlnS1V e você receberá notícias das Arquidioceses, Dioceses e Prelazias no Pará e Amapá. E aproveite para nos seguir no instagram https://www.instagram.com/cnbbn2/