por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2
fotos Alex Maciel / Caritas Norte 2

A democracia não é um dado garantido, é uma construção diária, feita de consciência, coragem e vigilância coletiva. Foi com esse espírito que, nesta sexta-feira (10/4), a sede do Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Belém do Pará, reuniu lideranças eclesiais, pastorais e do Ministério Público Eleitoral para a ‘1ª Reunião Ampliada do Comitê de Combate à Corrupção Eleitoral’, um encontro que foi muito além da política, um chamado ético ao povo da Amazônia.

Ao redor da mesa, rostos e histórias distintos, mas uma mesma convicção, o voto é sagrado. E, como todo bem sagrado, precisa ser defendido. A reunião trouxe à presença de Cristiane Araújo, secretária-executiva do Regional Norte 2 da CNBB, que conduziu os trabalhos com a seriedade de quem sabe que a Igreja não pode se esquivar da missão profética na esfera pública. Ao seu lado, representantes de organizações que, cada uma à sua maneira, habitam as bordas mais vulneráveis do território amazônico Francisco Alan, da Comissão Pastoral da Terra (CPT); Francisco Batista, da Cáritas Regional Norte 2; aria Izabel, do Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/PA); Ivis Vergara Nunes, representando a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil; e Joana Menezes, da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM Brasil).

Completou a mesa o Dr. Bruno Valente, Procurador Regional Eleitoral, trazendo a força da lei para um espaço que já carregava o peso moral da fé. A composição do grupo não é casual. Ela reflete uma convicção compartilhada de que o combate à corrupção eleitoral exige pontes — entre igrejas, movimentos, comunidades e instituições do Estado.

Um dos momentos mais significativos do encontro foi o resgate histórico feito por Francisco Batista, da Caritas, que recordou a experiência pioneira do primeiro Comitê Estadual de Combate à Corrupção Eleitoral’, por volta dos anos 2000, que naquela ocasião participou da fundação do Comitê e contribuiu na mobilização para aprovação da Lei 9840 de combate à corrupção eleitoral. Mais de duas décadas depois, a semente plantada naquele momento ressurge ampliada, num contexto ainda mais urgente.

A experiência de 2000 não é só história, é pedagogia. Ela demonstra que a mobilização organizada da sociedade civil e das igrejas tem o poder de transformar o ambiente eleitoral, de frear a compra de votos, o clientelismo e o abuso de poder que corroem a vontade popular. Como ensinava o apóstolo Paulo, “não nos cansemos de fazer o bem, pois a seu tempo colheremos, se não desanimarmos” (Gl 6,9).

Joana Menezes, da REPAM Brasil, apresentou a campanha que mais do que um slogan, é uma teologia, ‘Um Voto pela Amazônia’. Coordenada pela Rede Eclesial Pan-Amazônica, a iniciativa parte de uma premissa simples e poderosa, quem vota na Amazônia, vota pelo futuro da maior floresta tropical do mundo.

O projeto convoca o eleitor a identificar candidatos comprometidos com a ecologia integral, com a proteção das terras indígenas, dos territórios quilombolas e com o combate ao desmatamento. Não é uma campanha partidária. É um exercício de consciência cidadã à luz do Evangelho e da Laudato Si’, que nos lembra que “a Terra é nossa casa comum”.

Junto à campanha “Um Voto pela Amazônia”, o comitê também abraça a proposta “Amazoniza-Te”, um convite à conversão ecológica e política, especialmente voltado às novas gerações.

O Dr. Bruno Valente, Procurador Regional Eleitoral, trouxe uma proposta concreta e inovadora, o uso do WhatsApp como canal direto para denúncias eleitorais. A ideia é simples na forma, mas poderosa no alcance, facilitar o envio imediato e seguro de irregularidades à plataforma do Ministério Público Eleitoral, levando a justiça até quem está nas periferias, nas comunidades ribeirinhas, nos bairros onde a corrupção eleitoral historicamente opera em silêncio.

O Reverendo Ivis Vergara Nunes, da Igreja Anglicana, também contribuiu com reflexões sobre o processo eleitoral após as recentes mudanças legislativas, esclarecendo dúvidas e ampliando o horizonte de compreensão do grupo.

O que distingue este comitê de um simples mecanismo de vigilância é sua dimensão formativa. Suas ações planejadas revelam a profundidade da proposta. ‘Mobilização eclesial e pastoral’, envolvendo comunidades e líderes locais de base; ‘Produção de materiais de divulgação’, cartazes e conteúdo para redes sociais; ‘Organização de debate entre candidatos’, a governadores e parlamentares, com temas relevantes para a Amazônia; ‘Uso dos meios de comunicação católicos e ecumênicos’, para ampliar o alcance da campanha; ‘Elaboração de um documento de adesão’, convidando outras organizações a se somarem ao compromisso; ‘Criação de grupo de WhatsApp’ para comunicação ágil entre os membros, e o ‘Resgaste do Termo de Parceria’, firmado entre o TRE-PA e a CNBB Norte 2.

O lançamento oficial do comitê está marcado para 13 de maio de 2026, às 14h, na sede do Ministério Público Federal, uma data que, não por acaso, carrega a memória de Nossa Senhora de Fátima, um sinal de que, para quem age por convicção de fé, política e espiritualidade nunca estiveram separadas.

Por que este comitê importa?

Em um estado onde a corrupção eleitoral historicamente silencia as vozes mais vulneráveis, povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhos, trabalhadores rurais sem terra, a criação de um espaço ecumênico e interinstitucional de vigilância democrática não é um ato burocrático. É um ato de resistência.

A presença de organizações como a CNBB Norte 2, a Cáritas, o CEBI, a REPAM e a Igreja Anglicana ao lado do Ministério Público Eleitoral é a materialização de uma crença, a de que a democracia exige que a Igreja seja sal e luz também no campo político. Não para ditar candidatos, mas para formar eleitores. Não para disputar poder, mas para proteger o povo.

“O que é necessário é que os cristãos sejam atores de transformação da realidade”, e essa reunião, discreta em sua forma, pode ser um marco silencioso e decisivo para as eleições de 2026 no Pará.

Organizações presentes:
Secretariado da CNBB Norte 2 | Cáritas Regional Norte 2 | REPAM Brasil | Igreja Episcopal Anglicana do Brasil | CEBI/PA | Ministério Público Eleitoral

 

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