
Xingu Hoje_Andre Sawakuchi_Instituto GeoCiencias da USP_05
por Vívian Marler / Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2
No coração da Amazônia, onde o Rio Xingu desenha sua curva mais majestosa, a “Volta Grande” agoniza. O que antes era o berçário da vida para povos indígenas, ribeirinhos e pescadores, hoje assemelha-se a um deserto hídrico pontuado por pedrais expostos. Seis meses após a COP30 em Belém, os holofotes se apagaram, mas o “ecocídio planejado” continua a sangrar o leito do rio, revelando o abismo entre os discursos de preservação e a realidade de quem vive às margens da maior ferida aberta da Amazônia.
Falar sobre o Xingu é, para Dom João Muniz Alves, bispo da Diocese do Xingu, uma “alegria singular” que agora se tinge de luto. Ele descreve o rio como um espetáculo de águas esmeraldas que serve como berçário e estrada natural para os povos, e não apenas como um afluente, mas como um organismo vivo. No entanto, dez anos após Belo Monte, essa estrada está bloqueada. “Este rio serve como um berçário para tantas espécies de peixes e como a estrada natural para vários povos. Com sua água cor esmeralda, é um espetáculo de beleza”, afirma o bispo.
Dez anos após a instalação da hidrelétrica de Belo Monte, o desvio de 80% das águas para as turbinas transformou a fartura em escassez. Dom João recorda a promessa não cumprida. “Belo Monte prometeu que a Volta Grande não seria afetada, mas nós sabemos que foi. Atualmente, a região está secando. Aquele lugar bonito, aquele berçário, agora se tornou um lugar que tem tudo, menos a vida que era tradição daquela região”.
A urgência deste cenário é confirmada pelo Monitoramento Territorial Independente da Volta Grande do Xingu (MTI-VGX), a aliança entre cientistas e comunidades documenta um cenário de pesadelo biológico, peixes com deformidades ósseas e piracemas inteiras extintas. Para Dom João, o diagnóstico é claro e doloroso. “O cartão postal para o Estado do Pará está morrendo por falta de uma política de proteção à vida. É o que nós chamamos de ecocídio”, denuncia o bispo.
Mas o impacto vai além da biologia; ele atinge a alma e a liberdade das comunidades. José Cleanton Ribeiro, da Coordenação Colegiada do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) do Regional Norte 2, alerta que os danos socioambientais e culturais não cessaram, eles se tornaram uma forma de controle. “A autonomia dos povos foi drasticamente afetada. As comunidades vivem uma dependência profunda de empresas subsidiárias da Norte Energia, que implementam ações meramente assistencialistas”, revela Cleanton.
Para povos como os Arara (Arara da Volta Grande), os Juruna (Paquiçamba) e os Xikrin (Trincheira Bacajá), a seca do rio é a morte da própria identidade. “Eles se identificam como filhos da água. O Rio é a mãe deles. Com a seca, perdem essa relação mística”, pontua o coordenador do CIMI. O Rio Bacajá, afluente vital, hoje agoniza com menos de 10% de sua vazão original, inviabilizando o trânsito e a pesca que são a base da sobrevivência desses povos.
Essa “cultura de morte” é sentida na pele pelo pescador artesanal, cuja identidade está ligada ao ritmo das cheias e vazantes. Sueli Martins Miranda, coordenadora do Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP) Regional Norte 2, define o cenário atual como uma agressão brutal. “Quando o rio vira um pedral, não é só a água que muda de caminho; muda também a vida. Sobra ao pescador a incerteza, o silêncio das canoas paradas, as redes vazias e a luta para continuar existindo”, desabafa.
Para Sueli, o que acontece na Volta Grande e no Pedral do Lourenção é uma violência direta contra a sobrevivência das comunidades. “Manter a cabeça erguida diante da escassez é reconhecer a dignidade e a sabedoria tradicional. O CPP trabalha para que a esperança deixe de ser discurso e se transforme em caminho de sobrevivência, fortalecendo a saúde emocional e espiritual das pessoas diante das perdas”, explica a coordenadora.
Se Belo Monte deixou um rastro de ineficiência e dependência tutelada, a ameaça da mineradora canadense Belo Sun surge como um desafio ainda mais complexo. Cleanton denuncia que a mineradora tem repetido a estratégia da Norte Energia, a captação e cooptação de lideranças indígenas para forçar o apoio das comunidades ao projeto de extração de ouro. “Esse é o nosso grande desafio, atuar na conscientização e informação sobre os impactos reais desse empreendimento, apoiando o movimento indígena que já se articula em defesa da região”, afirma.
Essa problemática ganha contornos ainda mais dramáticos com a iminência da mineradora, o projeto de extração de ouro prevê o uso de cianeto a apenas 1,5 km do Xingu, representando a reiteração da ganância que ignora o alerta dos bispos na “Carta da Amazônia” entregue na ‘COP30: Parem de investir na morte’. Dom João reforça a profecia dos bispos ao pedir o fim das “zonas de sacrifício”. Para a Igreja, a ganância tecnocrática que desviou o rio para gerar energia agora busca cooptar vozes para envenená-lo com cianeto, negando o direito das futuras gerações ao território sagrado.
Neste cenário de “cultura de morte”, o papel da Diocese do Xingu é o que mantém a chama da resistência acesa. José Cleanton é enfático ao reconhecer que o suporte da Diocese é o que permite a continuidade do trabalho do CIMI em Altamira. “Se não fosse o suporte que a Diocese nos dá, desde as ações contra Belo Monte até hoje, talvez a equipe nem existisse mais na região. A Diocese tem sido esse apoio forte, cobrando as condicionantes e acompanhando as comunidades”, reconhece.
A crise ambiental já se transformou em uma emergência humanitária. Através do CIMI e do CPP, a Igreja acompanha famílias que hoje sofrem o impensável em uma região cercada por rios. “Pedimos providências às autoridades, sobretudo para com aquelas pessoas que ali vivem e passam necessidade. Agora falta água potável, falta alimento, porque eles tiravam o sustento do rio”, lamenta Dom João.
A evangelização no Xingu, portanto, faz-se “carne” na luta pelo território. É um ato de resistência contra o que o bispo classifica como uma “cultura de morte semeada na região”. Segundo ele, a missão da Igreja é clara, “nós rezamos e estamos com as pessoas. Queremos fazer a nossa parte através de denúncias e meios que nos ajudem a criar políticas em favor da vida, da vida dos rios, das pessoas e da nossa região”.
Se o Xingu morrer, a profecia da Igreja se tornará uma sentença de culpa para a humanidade. Como alertado pelo CIMI e pela Diocese, ainda há tempo para a conversão ecológica, antes que o ouro, o concreto e a dependência silenciem definitivamente o grito do Rio-Mãe.
- 20250103_usina_Usina hidrelétrica de Belo Monte compromete a vazão das águas na Volta Grande do Xingu – Foto TV Brasil-Agência Brasil
- belo_monte_ Usina Hidrelétrica Belo MonteOsvaldo de Lima-Norte Energia
- Xingu Ontem_Andre Sawakuchi_Instituto GeoCiencias da USP
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- RPF-belomonte-2024-12-info-1140_Alexandre Affonso – Revista Pesquisa FAPESP
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