por Vívian Marler/ Assessora de Comunicação CNBB Regional Norte 2

No próximo domingo, 26 de abril, a Igreja em todo o mundo celebra o ’63º Dia Mundial de Oração pelas Vocações’. Para esta data, o Papa Leão XIV presenteou os fiéis com uma mensagem profunda e provocadora, intitulada “A descoberta interior do dom de Deus”. Nela, o Pontífice nos convida a olhar para dentro, definindo a vocação como “a descoberta do dom gratuito de Deus que floresce no mais profundo do coração de cada um de nós”.

O centro desta celebração será a Basílica de São Pedro, onde o Santo Padre presidirá a ordenação de oito novos sacerdotes para a Diocese de Roma. Mas o que torna essas histórias universais não é apenas o local da ordenação, mas o caminho percorrido, a coragem de trocar carreiras consolidadas pelo chamado do Evangelho.

Entre os ordinandos de Roma, destacam-se trajetórias que exemplificam o que o Papa chama de “cuidado da interioridade”. Daniele Riscica, por exemplo, era uma promessa do pianismo internacional, com concertos realizados do Brasil à China. “Aos 24 anos, eu já tinha alcançado muitos objetivos, mas não estava satisfeito”, confessa. Foi no silêncio do seminário que a música de sua vida encontrou uma nova melodia.

Da mesma forma, Antonino Ordine estava no caminho para se tornar médico, e Guglielmo Lapenna trabalhava em uma fábrica de licores até o impacto da JMJ de Cracóvia. Essas escolhas reafirmam a tese do Papa, a pastoral vocacional deve urgentemente recomeçar a partir da escuta interior, para além das pressões do sucesso profissional imediato.

Enquanto em Roma se prepara a grande festa em São Pedro, aqui na região amazônica, entre os rios e florestas do Pará e do Amapá, a “Cultura Vocacional” também floresce com desafios e belezas particulares.

Nos Seminários São João Paulo II, em Marabá; Maior São Pio X, em Belém; Diocesano São José de Macapá; Arquidiocesano São Pio X em Santarém; Propedêutico Servo de Deus Dom Ângelo Frosi, Seminário Maior de Filosofia Nossa Senhora de Guadalupe e Seminário Maior de Teologia Santo Óscar Romero, em Abaetetuba, e os Seminários Maior São Pio X em Ananindeua, Missionário Arquidiocesano Redemtoris Mater de Belém, Seminário Obra de Maria e o Seminário Arquidiocesano Proventino Monsenhor Edmundo Igreja, em Belém, jovens paraenses vivem esse mesmo processo de “descoberta interior”. Assim como o camaronês Jos Sabate (que estuda Libras para atender pessoas com deficiência em Roma), os seminaristas da Amazônia são chamados a uma formação encarnada. No Pará, a vocação muitas vezes nasce do serviço nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e no contato direto com as feridas sociais da região, como o feminicídio e a exclusão social.

Em Belém, os seminaristas Lucas Santos, largou a profissão de arquiteto “… nunca deixei de sonhar o sonho de Deus. Em 2020, no dia da minha formatura, entreguei o diploma aos meus pais com uma frase que selava aquele ciclo “Este diploma é para vocês. Agora, irei atrás do meu”, disse o seminarista. E Marcio Valério Costa contou que “em meio à pandemia, fiz meu isolamento social dentro do seminário. Na época, eu ainda era Engenheiro Civil concursado em uma empresa pública federal, mas o chamado se tornou irresistível. Em agosto daquele ano, pedi exoneração do meu concurso para me dedicar inteiramente à formação”. Em Macapá, Marinildo Chaves, formado em Letras e técnico em Segurança do Trabalho e Informática, e hoje trilha o caminho do sacerdócio no Seminário São José “o chamado ao sacerdócio foi amadurecendo no silêncio, mas tornou-se inegável durante a experiência na escola missionária, ao evangelizar nas áreas mais distantes e ribeirinhas“. Ao final desta matéria conheça a história de cada um.

Dom Antonio de Assis em reunião com os vocacionados adultos

No Amapá, o trabalho vocacional da Diocese de Macapá tem focado em ambientes de escuta não apenas para que o jovem possa “acolher, alimentar e proteger” o dom recebido, como exorta o Papa, mas para a descoberta de novas vocações em homens na idade adulta. O grupo já ultrapassa dez homens, todos acima de 30 anos, “trata-se de um processo de discernimento vocacional, pedagogicamente diferenciado, para aqueles que, somente agora na fase adulta, estão sentindo chamado ao sacerdócio. Dentre eles temos um filósofo, um engenheiro, um enfermeiro, jornalista, professor… um grupo variado, todos engajados na Igreja e com as mesmas questões existenciais. Nesse processo de acompanhamento há muitas atividades previstas como, encontros, orientação espiritual e psicológica, retiros, convivência, experiência pastoral, voluntariado”, disse Dom Antonio de Assis, Bispo diocesano, que completou, “temos um protocolo que define critérios, perfil, atividades, conteúdos e a dinâmica do processo de acompanhamento. Esse serviço de acompanhamento de adultos no processo de discernimento vocacional é exigente e, por isso, requer clareza e prudência porque nem todos têm motivações autênticas”.

O paralelo é claro, seja um pianista em Roma ou um jovem ribeirinho no Rio Amazonas, o chamado exige a mesma ruptura com a lógica do “ter” para abraçar a lógica do “ser para os outros”.

O Papa Leão XIV é enfático, a Igreja inteira deve empenhar-se em criar ambientes favoráveis para as vocações. Isso inclui famílias, paróquias e catequistas. Na Diocese de Abaetetuba, sob o olhar atento de Dom José Maria Chaves dos Reis, essa rede de apoio é o que sustenta os futuros padres que, em breve, percorrerão longas distâncias para levar o pão da Palavra.

O tema deste ’63º Dia Mundial’ nos recorda que o sacerdote não nasce pronto; ele é fruto de um “dom gratuito” que precisa ser acompanhado. Que no próximo domingo, ao acompanharmos as ordenações em Roma, possamos também elevar nossas preces por todos os seminaristas do Regional Norte 2, para que, na interioridade do coração amazônico, eles continuem a dar frutos abundantes.

Seminarista Marcio Valerio durante seu trabalho como engenheiro

De Engenheiro a Seminarista: O chamado de Márcio Valério

Minha caminhada de conversão ganhou um novo sentido em 2017, quando fiz o retiro espiritual “Renascer” na Comunidade Caju. Ali, tive um encontro querigmático profundo. Naquele momento, combinei com outras três pessoas que serviríamos juntos na liturgia da comunidade, buscando aprofundar nossa espiritualidade e a experiência de servir à Igreja. Contudo, o tempo passou e acabei sendo o único a cumprir essa promessa.

No ano seguinte, em 2018, passei a frequentar as formações externas da Caju. Foi quando me deparei com a Teologia do Corpo, de São João Paulo II, que me tocou de forma surpreendente. Apesar de ter nascido em uma família católica e estudado em colégios tradicionais, como o São Pio X (em Capanema) e o Gentil Bittencourt (em Belém), eu nunca havia tido uma formação profunda sobre o conteúdo da nossa fé, minha única base era a catequese da Primeira Eucaristia, aos 10 anos. Além do serviço na liturgia, passei a participar de reuniões formativas que aumentaram minha intimidade com Deus. Decidi, então, receber o sacramento da Crisma na Capela do Loreto, pelas mãos de Dom Irineu Roman, então bispo auxiliar de Belém.

O ano de 2019 trouxe novos desafios. Fui convidado para coordenar o MSA e iniciei o processo vocacional na Caju. Eu já sentia um chamado ao sacerdócio, mas tinha vergonha de compartilhar esse desejo. Na minha imaturidade, pensava que apenas os muito jovens poderiam entrar no seminário. Até que, em uma missa dominical na sede da Caju, o padre Lucivaldo falava em sua homilia sobre o sacerdócio, olhou para mim e disparou “Vamos, Márcio, ser padre?”. A assembleia caiu na gargalhada e eu fiquei vermelho de vergonha. Na sacristia, após a missa, a Ana Sylvia ainda brincou “Meu filho, vou rezar por você, pois praga de padre pega!”. Por timidez, eu apenas respondia que aquilo não era para mim.

No processo vocacional, iniciei a direção espiritual com o próprio padre Lucivaldo. No nosso primeiro encontro, na capela do seminário, tentei dar várias justificativas para não seguir a vocação, a começar pela idade. Mas ele apenas me respondeu, “Se Deus te chama a discernir esta vocação, quem sou eu para te dizer não?”.

Aquele desejo foi crescendo até que, em 2020, em meio à pandemia, fiz meu isolamento social dentro do seminário. Na época, eu ainda era Engenheiro Civil concursado em uma empresa pública federal, mas o chamado se tornou irresistível. Em agosto daquele ano, pedi exoneração do meu concurso para me dedicar inteiramente à formação.

Em 2022, realizei meu ano pastoral na Paróquia Santa Bárbara e, em 2023, retornei ao seminário para prosseguir com a Teologia. Recentemente, entre 2024 e 2025, com o apoio de Dom Alberto Taveira Corrêa e da equipe formativa do Seminário São Pio X, realizei uma especialização em Arquitetura e Arte Sacra do Espaço Litúrgico em Curitiba (PR). Hoje, aos 47 anos, sigo feliz no último ano de Teologia, unindo minha experiência técnica ao serviço do Reino”.

Seminarista Lucas Santos no dia de sua formatura em Arquitetura

O Sonho de Deus e a Arquitetura do Sagrado: O Testemunho de Lucas Santos

Meu nome é Lucas Santos, tenho 30 anos e sou natural de Belém do Pará. Minha caminhada no seminário já soma cinco anos e, no dia 3 de agosto de 2026, completarei seis anos de entrega a este chamado. Hoje, sinto a alegria de estar a apenas dois anos e oito meses da minha Ordenação Presbiteral.

Venho de uma família que, inicialmente, não frequentava a Igreja. Embora eu fosse batizado, vivíamos o que chamo de “fé de ocasião”, participávamos apenas em momentos específicos, como o Círio, Natal e Páscoa. Tudo começou a mudar quando fui inscrito na Catequese. Dali em diante, meu envolvimento com a Pastoral Litúrgica e o Grupo de Coroinhas fez meu coração arder. Eu sentia que Deus pedia algo mais, mas ainda não sabia identificar o que era.

A semente da vocação germinou através de um amigo do Grupo Jovem, que me fez a pergunta decisiva “Você já pensou em ser padre?”. Desde aquele dia, não houve um único momento em que eu não sonhasse com o sacerdócio ministerial. No entanto, ao partilhar esse desejo com meus pais, a reação não foi receptiva. Respeitando o tempo deles, busquei trilhar um caminho profissional.

Em 2015, entrei para o curso de Arquitetura e Urbanismo na UFPA. Durante os cinco anos de graduação, pensei em desistir várias vezes, pois a voz de Deus nunca se calava em meu peito, pedindo sempre mais. Contudo, percebi que aquela formação acadêmica poderia ser uma ferramenta para a minha vocação: eu poderia servir melhor a Deus através da Arquitetura Sacra. Foquei meus estudos nesse caminho, vendo a arquitetura como uma ponte que me conduziria aos altares.

Nunca deixei de sonhar o sonho de Deus. Em 2020, no dia da minha formatura, entreguei o diploma aos meus pais com uma frase que selava aquele ciclo. “Este diploma é para vocês. Agora, irei atrás do meu“.

A felicidade em servir: O caminho vocacional de Marinildo Chaves

Natural de Afuá, no arquipélago do Marajó (PA), Marinildo da Silva Chaves, de 24 anos, traz em sua história a marca da resiliência e do serviço ao próximo. Formado em Letras e técnico em Segurança do Trabalho e Informática, ele hoje trilha o caminho do sacerdócio no Seminário São José, em Macapá. Abaixo, ele relata como a vida profissional, o amor pela comunicação e o serviço na Eucaristia moldaram sua resposta ao chamado de Deus.

Sou filho de Marilene Chaves e irmão de Erica Tamilis e Iris Patrícia. Foi com minha mãe que aprendi a ser forte, a não desistir e a confiar plenamente em Deus. Venho de uma família simples onde o valor do trabalho foi ensinado cedo. Comecei ajudando em casa e logo dei meus primeiros passos na área da informática, chegando a atuar como professor. Sempre acreditei na educação como ferramenta de transformação, o que me levou a buscar formação em Segurança do Trabalho e a licenciatura em Letras, Língua Portuguesa. Durante seis anos, trabalhei na EMAPA, período de grande crescimento profissional e humano.

Paralelamente ao trabalho, minha caminhada na Igreja sempre foi muito ativa. Fui coroinha e sou catequista desde 2009. Minha paixão pela fotografia e pelo design gráfico encontrou espaço na PASCOM, onde pude registrar a vida da comunidade sob o olhar da comunicação. Tive a alegria de ser um dos ilustradores do livro ‘Afuá, Entre Rios, Pontes e Palafitas’, onde uma das minhas fotos está publicada. Além disso, o desejo de servir se estendeu ao voluntariado, ensinando informática para crianças carentes no projeto Anjo da Guarda e desenvolvendo o Projeto Criança Amada, focado em levar esperança às crianças da nossa comunidade.

O centro da minha vocação, no entanto, foi encontrado na Eucaristia. Servir como Ministro Extraordinário da Sagrada Comunhão transformou meu coração. Ao levar Jesus aos doentes, visitar as famílias e oferecer uma palavra de conforto, entendi que minha vida só faz sentido quando está a serviço do outro. O chamado ao sacerdócio foi amadurecendo no silêncio, mas tornou-se inegável durante a experiência na escola missionária, ao evangelizar nas áreas mais distantes e ribeirinhas.

Decidir entrar no seminário não foi um processo fácil. A saudade da família, da minha terra e dos meus afilhados é um peso real, mas a certeza de estar no caminho certo é ainda maior. Hoje, no Seminário São José, vivo um tempo de alegria simples e verdadeira. Entendi que foi em Jesus que encontrei a felicidade que buscava. Sigo dando um passo de cada vez, fazendo o melhor com o que Deus me confiou e com uma convicção que me guia: se Deus me chamou, Ele também haverá de me sustentar”.

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