
por Vívian Marler / Assessoria Comunicação CNBB Regional Norte 2
fotos Vatican News
Em um momento de profundas transformações e desafios globais, a Igreja Católica volta seus olhos para Roma. Teve início nesta sexta-feira, 26 de junho, o Consistório Extraordinário convocado pelo Papa Leão XIV. O evento, que reúne 178 cardeais vindos dos cinco continentes, transformou a Sala Paulo VI em um verdadeiro laboratório de fé e discernimento, onde a cúpula da Igreja busca responder a uma pergunta fundamental “Em que tipo de mundo somos chamados a proclamar o Evangelho hoje?”.
Para o leitor compreender a magnitude deste encontro, é preciso explicar que o Consistório é a reunião formal do Colégio Cardinalício, os conselheiros mais próximos do Sumo Pontífice. Existem os consistórios “ordinários”, geralmente para a criação de novos cardeais ou canonizações, e os “extraordinários”, como este, convocados apenas quando questões de extrema gravidade ou urgência para a Igreja Universal exigem a consulta e a união de todos os cardeais.
O Colégio Cardinalício funciona como uma espécie de “Senado do Papa”. Neste evento, a importância reside no fato de que homens que lideram dioceses em cenários de guerra, pobreza extrema ou em grandes centros tecnológicos sentam-se à mesma mesa. Ali, a diversidade cultural se funde em uma unidade de propósito, aconselhar o Sucessor de Pedro sobre como a Igreja deve caminhar no presente para garantir o futuro da evangelização.
A jornada começou com a Santa Missa na Basílica de São Pedro, seguida pela sessão de abertura onde o Cardeal Giovanni Battista Re, Decano do Colégio Cardinalício, expressou a lealdade e a gratidão de todos os presentes ao Papa Leão XIV. Em seu discurso, o Cardeal Re estabeleceu o tom do encontro, equilibrando o entusiasmo pelo progresso humano com a preocupação pelas feridas da sociedade.
O Decano destacou a importância da recente Encíclica Magnifica humanitas, que já se tornou um marco na Doutrina Social da Igreja por abordar, de forma pioneira, o impacto da Inteligência Artificial na experiência humana. O Cardeal enfatizou que, enquanto a tecnologia avança, a humanidade enfrenta uma queda vertiginosa nos valores éticos e morais, além de um aumento da pobreza. No entanto, ele apontou sinais de esperança, como o despertar das consciências e a busca por uma “civilização do amor” que rejeite a guerra como uma tragédia desumana.
Esta introdução revelou um Colégio Cardinalício pronto para colaborar, reconhecendo que a Igreja não deve temer a modernidade, mas sim iluminá-la. O apoio total a Leão XIV demonstra uma Igreja coesa, que enxerga na nova encíclica não apenas um documento técnico, mas um guia espiritual para navegar em tempos de incerteza, buscando a fraternidade e a paz como antídotos para o individualismo contemporâneo.
Um dos momentos mais impactantes deste primeiro dia foi a meditação conduzida pelo Cardeal Grzegorz Ryś. Utilizando a parábola do Bom Samaritano como “norma e paradigma”, o cardeal polonês apresentou um diagnóstico cru e honesto da humanidade atual. Ele não falou do “mundo” como um conceito abstrato, mas do homem e da mulher concretos, definindo o ser humano de hoje como aquele que foi “roubado, espancado e deixado para trás” no caminho entre Jerusalém e Jericó.
O Cardeal Ryś detalhou as feridas modernas, a violência que vai das guerras globais ao bullying escolar; a nova escravidão gerada pelas dependências tecnológicas e pelo tráfico humano; e, sobretudo, o “tsunami de solidão” que assola as grandes metrópoles. Ele alertou para o fato de que vivemos em sociedades secularizadas que, ao se afastarem do “Templo” (o sentido do sagrado), acabam degradando a própria dignidade humana, muitas vezes usando a religião de forma blasfema para justificar antagonismos.
Contudo, a reflexão de Ryś não parou na dor. Ele apresentou o Samaritano como o mestre de uma “Igreja Hospital de Campanha”. O samaritano ensina que a misericórdia não é uma palavra reservada aos confessionários, mas um lugar de encontro e diálogo verdadeiro entre a Igreja e o mundo. A proposta é que a Igreja se torne um “Templo da Misericórdia”, onde a proximidade, a generosidade e a compaixão sejam as ferramentas para curar um mundo que, embora tecnologicamente conectado, nunca esteve tão isolado e sedento de presença humana.
A síntese dos trabalhos de grupo revelou uma preocupação profunda com a polarização social e o uso de notícias falsas, que destroem a convivência e dificultam a governabilidade. Os cardeais relataram que, em muitos lugares, o desrespeito às minorias e o crescimento do antissemitismo são sinais claros de uma sociedade que perdeu a capacidade de reconhecer o outro. A crise da família e o aumento do suicídio entre jovens foram citados como gritos de socorro de uma geração que se sente impotente diante das instituições.
Diante desse cenário, os grupos de trabalho foram unânimes, a Igreja precisa se mostrar como Mãe e um lugar acolhedor. Houve sugestões corajosas de reestruturação das paróquias para que deixem de ser centros burocráticos e passem a ser espaços de convivência real. A credibilidade da Igreja, segundo os cardeais, cresce justamente onde ela se faz próxima do sofrimento, falando com autoridade em defesa da dignidade humana e do bem comum, algo que muitas instituições políticas já não conseguem fazer.

O Papa Leão XIV, que acompanhou atentamente os debates, encerrou a primeira sessão reforçando que a solidão e o sofrimento são desafios aos quais a Igreja deve responder criando “experiências de encontro”. Ele agradeceu o diálogo livre e leal dos cardeais, destacando que a missão não é apenas abrir as portas dos templos para celebrar sacramentos, mas sair ao encontro de cada “homem vítima” para garantir que ninguém seja deixado à beira do caminho. O Consistório continua amanhã, prometendo novas diretrizes para a caminhada sinodal da humanidade.
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