por Vívian Marler / Assessora de Comnicação CNBB Regional Norte 2

O Vaticano despediu-se hoje de um dos encontros mais significativos da história recente da Igreja. Após dois dias de debates intensos na Sala Paulo VI, o Consistório Extraordinário convocado pelo Papa Leão XIV chegou ao fim neste sábado (27), deixando um rastro de esperança e diretrizes claras para o futuro da evangelização.

Se o primeiro dia foi marcado pelo confronto direto com a “Cultura do Poder” e a corajosa revisão da teoria da “Guerra Justa”, onde a Igreja reafirmou que nenhuma guerra pode ser considerada santa ou justa diante da desproporcionalidade das armas modernas, este segundo dia voltou o olhar para a “construção”. O foco saiu das cinzas dos conflitos e das telas dos algoritmos para se concentrar no coração do homem e na sua capacidade de reconstruir a sociedade.

A manhã começou com a reflexão profunda do Cardeal Stephen Brislin, sob o tema “Construir no bem: os canteiros do nosso tempo”. Usando a poderosa metáfora bíblica de Babel e Jerusalém, Brislin provocou os cardeais de todo o mundo a pensarem sobre o rumo da inovação tecnológica. “Babel é o projeto da autossuficiência, onde a inteligência humana se fecha em si mesma e acaba em dispersão”, alertou o Cardeal. Em contraste, ele apresentou a reconstrução das muralhas de Jerusalém como o modelo para a Igreja de hoje, um canteiro de obras coletivo, onde a técnica não é um fim, mas um instrumento para fazer florescer a dignidade de cada pessoa.

Para Brislin, o grande risco da Inteligência Artificial não é apenas técnico, mas antropológico. “A IA tende a negar o sentido humano do limite. Mas a vida é um dom que se recebe, não um produto que se controla totalmente”, afirmou.

Nos relatórios dos 11 grupos de trabalho apresentados hoje, o diagnóstico sobre a sociedade atual foi preciso, “vivemos fraturas profundas nas famílias e nas nações, alimentadas por um “individualismo exasperado” e um “sentido de tribo” que exclui o diferente”. 

Como resposta, os cardeais propuseram uma “Igreja Samaritana”. O antídoto para a polarização e para o integralismo, segundo o consenso do Consistório, é uma Igreja que não seja apenas espectadora da “ruína social”, mas sim uma arquiteta que reconstrua a “cidade de todos”. “Precisamos de uma língua do coração para superar o conformismo e a corrupção”, destacou um dos relatórios, reforçando que o bem comum não é apenas um conceito político, mas uma exigência da fé.

Um dos pontos altos do dia foi a discussão sobre como humanizar a tecnologia. A Igreja defende que o ser humano tem o chamado originário de “dar nome” aos seres vivos, e não pode permitir que a IA reduza pessoas a números ou estatísticas de consumo. A defesa da dignidade do trabalho diante da automação foi reafirmada como prioridade para as pastorais sociais em todo o mundo.

Para a Amazônia, as conclusões deste Consistório ressoam com uma força particular. A crítica à “Cultura do Poder” e ao “poder econômico tóxico” toca diretamente nas feridas da nossa região, marcada pela exploração desenfreada e pela “globalização da indiferença”.

A ênfase na sinodalidade. o caminhar juntos, e na proteção dos mais vulneráveis reforça o trabalho que realizado no Regional Norte 2. A Igreja em Roma confirmou que o cuidado com a Casa Comum e com os povos originários não é um tema isolado, mas parte central da “Civilização do Amor” que o Papa Leão XIV nos convida a construir.

Ao final do encontro, o Papa conduziu a oração do Angelus, agradecendo o apoio do Colégio Cardinalício e exortando cada bispo a levar essas reflexões para suas dioceses. A mensagem é clara, a Igreja não teme o futuro, mas exige que ele seja humano, fraterno e em paz.

O que é o Consistório e por que este foi histórico?

O Consistório é a reunião de todos os cardeais da Igreja Católica para aconselhar o Papa em questões de alta relevância. Este encontro em Roma foi um Consistório Extraordinário, convocado especificamente para discutir a Encíclica Magnifica Humanitas.

Foi importante para o mundo e para a Amazônia porque pode fazer uma ‘Revisão Doutrinária’ fazendo com que a Igreja desse passos históricos ao declarar a “guerra justa” como um conceito praticamente obsoleto diante da realidade das armas modernas e da IA. Com relação a ‘Ética Digital’ estabeleceu as bases para uma “algorética” (ética dos algoritmos), protegendo o trabalho humano e a privacidade. Para a Amazônia, validou a luta contra a cultura da ganância que destrói os territórios. Ao pedir uma política livre do “poder econômico tóxico”, o Vaticano fortalece a voz de lideranças dos bispos e de todos os que defendem a floresta e seus povos.

Este Consistório termina, mas o trabalho começa agora nas comunidades, onde cada cristão é chamado a ser, nas palavras dos cardeais, um “arquiteto sábio” da paz.

Leia mais sobre as materias anteriores deste Consistório, abaixo:
https://cnbbn2.com.br/iniciou-hoje-o-consistorio-que-ira-tracar-os-rumos-da-evangelizacao-na-era-da-inteligencia-artificial/
https://cnbbn2.com.br/da-cultura-do-poder-a-civilizacao-do-amor-o-poder-profetico-da-segunda-parte-de-reunioes-do-consistorio-extraordinario/
https://cnbbn2.com.br/consistorio-encerra-com-chamado-a-civilizacao-do-amor-e-ao-cuidado-com-o-humano/

https://cnbbn2.com.br/consistorio-traca-em-seu-ultimo-dia-a-rota-mansidao-e-da-esperanca-ate-2008/
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